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Situada entre o psíquico e o somático, a pulsão foi considerada pelo próprio Freud como “sua mitologia”, um modo de explicar a realidade; mais que uma descrição baseada em fatos, é um dos conceitos mais originais da obra de Freud. No entanto, sua elaboração é de difícil rastreamento, passando por vários momentos e obras. No “Projeto de 1895”, Freud já fala de uma força constante, proveniente dos estímulos internos do corpo. Segundo García-Roza, mesmo sem identificar pulsão e estímulo, a “pulsão é um estímulo para o psíquico” (GARCIA- ROZA, 2004, p. 84), o que a situa já fora do orgânico em si mesmo: no aparato psíquico, tal como descrito por Freud nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). A pulsão é vista como tendo sua fonte nos estímulos internos, e o conceito ainda não está completamente delimitado. Mesmo nessas obras, no entanto, já há a consciência de existirem “representantes da pulsão”, representantes psíquicos da pulsão, uma vez que é impossível identificar a pulsão diretamente.

No ensaio “A pulsão e suas vicissitudes” (1915), Freud fará um recenseamento mais detalhado desse conceito, explicitando vários elementos antes apenas esboçados. Nesse ensaio, a pulsão é definida como força constante, proveniente de estímulos internos do corpo, como foi dito anteriormente. A complicação, porém, é existirem estímulos como fome, sede, etc. e os

pulsionais propriamente ditos, associados ao sexual. Então, Freud tenta montar o conceito de pulsão a partir de quatro elementos: pressão, alvo, objeto e fonte. Segundo Garcia-Roza, tal “montagem” ainda não consegue dar uma noção precisa do conceito. Vejamos seus elementos, de acordo com Freud.

A pressão é um elemento essencial para compreendermos a pulsão, apesar de sozinho não ser suficiente para defini-la. Ela é definida como uma exigência constante de trabalho, feita para o aparelho psíquico; isso a diferencia de outras pressões instintivas ou biológicas, marcadas por um ritmo, uma alternância; na pulsão, temos uma pressão constante. Outra diferença é o fato de a pressão fazer exigência não ao corpo, mas ao aparelho psíquico.

O alvo da pulsão é a satisfação, o cancelamento do estado de estimulação. Entretanto, tal alvo não pode ser completamente alcançado: sempre há um resto de estimulação, a pulsão não desaparece. Nesse sentido, o alvo é paradoxal, porque não pode ser alcançado completamente; então, quando se falar em satisfação da pulsão, sempre se pensará em uma satisfação parcial. Segundo Freud, tal satisfação – fantasmática – teria acontecido na pré- história do indivíduo e a pulsão representa a busca pelo objeto para sempre perdido dessa

satisfação, a Coisa (das Ding); por conseguinte, todos os objetos só podem satisfazer a pulsão

parcialmente.

Enquanto o alvo é invariável, o objeto da pulsão é o que ela tem de mais variável e plástico. Ele é adequado desde que permita a satisfação – parcial – da pulsão: suas características físicas não importam. A noção de objeto, em Freud, é fruto de muita elaboração teórica, não sendo raras as incursões na filosofia kantiana. No entanto, no texto sobre as afasias, de 1891, Freud afirma que a percepção pura não fornece imagens de objetos, mas imagens

elementares (táteis, visuais, acústicas etc.), que Freud chamará de associações de objetos, reunião e, mais tarde, de representação-objeto. No “Projeto de 1895”, Freud falará do investimento libidinal nesses objetos, que são representações e não um objeto externo, no sentido de uma coisa do mundo.

Na tentativa de recuperar a experiência primária de satisfação, o aparelho psíquico compara a imagem-lembrança de objeto fantasiado e inconsciente com a imagem-percepção do objeto que a realidade coloca. Mesmo nesse caso, trata-se de uma comparação entre duas representações, e não entre uma representação e um objeto. Tal visão mostra que os objetos, para Freud, são uma síntese resultante de representações sensoriais elementares e nesse sentido até a palavra (vista como representação-palavra) pode ser vista assim. Mesmo objetos como o

seio não são, em si mesmos, objetos da pulsão: a pulsão contorna o seio em busca do objeto

perdido, imaginado. Por isso, a criança ainda chupa o dedo, a chupeta, mesmo sem ter fome; caso contrário, a pulsão não se diferenciaria da necessidade pura e simples.

A fonte da pulsão, segundo Freud, é corporal: é o processo somático de um órgão, cujos estímulos são representados na vida psíquica. Desse modo, só temos contato com a pulsão através de seus representantes. Segundo Garcia-Roza, a ideia de fonte corporal é muito confusa nos escritos de Freud, deixando muitas perguntas e polêmicas até hoje.

Inicialmente, pulsão era pulsão sexual. Só mais tarde Freud diferenciará as pulsões sexuais das de autoconservação ou pulsões do eu. Na década de 1920, ele remaneja os conceitos e divide as pulsões em duas: a pulsão sexual ou de conservação e a pulsão de morte. Um elemento importante para a compreensão das pulsões são as chamadas vicissitudes – destinos– da pulsão, que vão, com a evolução do conceito, desembocar no famoso dualismo pulsão de vida e pulsão de morte. A satisfação da pulsão, além de não poder ser total, esbarra na censura, o que impede que a pulsão siga o caminho direto para a satisfação parcial. A isso Freud chama de vicissitudes ou destinos da pulsão, que são divididos em: transformação no contrário, o

de os representantes psíquicos da pulsão – o representante ideativo e o afeto – terem modos específicos de transformação.

As duas primeiras vicissitudes acontecem quando a pulsão muda o polo passividade- atividade: de amar para ser amado ou de olhar para ser olhado, por exemplo; o segundo modo é a reversão em seu contrário: de amar para odiar. O retorno para a própria pessoa está implicado nisso, veja-se o par voyeurismo-exibicionismo: no polo ativo, o voyeurismo, o objeto é o corpo do outro; no polo passivo, o exibicionismo, há a reversão para a própria pessoa. Quanto ao recalcamento, não temos condições de elencar as transformações da pulsão nas diversas maneiras que elas passam pelo recalque, pois este é um dos conceitos mais importantes e complexos da psicanálise. Sucintamente, diremos que a moção pulsional encontra resistência em vir à consciência e ser satisfeita, porque se o fosse, provocaria mais desprazer que prazer. O recalque responde pela existência de dois lugares: o consciente ou pré-consciente e o inconsciente, chegando ao ponto de constituir esse último. Quanto ao conceito de sublimação, faremos uma discussão mais detalhada em tópicos posteriores desse capítulo.