2. LITERATURE REVIEW
2.2 Language Attitude
As psicólogas voluntárias de pesquisa destacam que é preciso definir o papel da psicologia tanto no que se refere aos locais onde as psicólogas desenvolvem seus atendimentos na rede quanto com relação às outras profissionais da equipe:
[...] não é porque é um serviço público que eu atendo com a porta cheia de gente na espera, entendeu? Eu prefiro atender menos pra poder atender melhor e
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atender um período maior, porque se essa mulher vai lá e passou um mês em atendimento, tá, foi o que mesmo? Ela passou dez anos sofrendo violência e um mês com a psicóloga? [...] o quê que aquela psicóloga lá na Delegacia vai poder fazer em vinte minutos que ela tem pra atender a mulher? A da Vara tem quinze. O que é ali naqueles quinze minutos que a psicologia vai contribuir pra vida daquela mulher. É diferente de mim que tô lá no Centro de Referência que eu vou ter um horário a cada semana com aquela mulher. Então, são serviços diferentes que precisariam ter formas de atendimentos diferentes e ter uma proposta mais clara. [...] Então, ela vai chegar lá na Delegacia da Mulher, então essa psicóloga ela vai fazer o quê? Ela vai fazer uma acolhida? Ela vai ficar lá na frente, lá na hora onde essa mulher acabou de chegar? Antes, às vezes, dela fazer o boletim de ocorrência? Ah, vai ser isso, vai ser isso. Ah, então ela vai lá na Vara, ah, tá, então quando chegar lá na Vara é... então a psicóloga de lá vai precisar fazer um parecer, não é um relatório psicossocial, é um parecer da situação, porque às vezes a situação mudou. [...] Mas definir, a partir do fluxo, o que é papel de cada profissional. [...] Eu não sei se a mulher vai chegar a saber, mas que a profissional saiba. [...] que as colegas ficam tão confusas que elas chegam também a nem entender como é o atendimento, o meu atendimento, o atendimento do Centro de Referência. Então já fizeram vários questionamentos, assim, tipo: Ai! Mas aí vai chegar uma hora que você não vai conseguir atender a todas as mulheres. - Tá, mas aí vai contratar outro profissional. Entendeu? Ah, mas você tem que atender em grupo, porque aí você atende um número maior. Tá, eu acho o grupo ótimo, eu acho... É uma experiência muito boa. Sim, mas não é só isso, vai ficar só no grupo então? É como se ninguém fizesse no serviço público, como se de repente você tá fazendo e aí acaba sendo questionada por isso [...] Qual é o papel nesses serviços, eu tenho questionado muito isso, porque se a mulher sai [...] ali ela decidiu, ela passou uma situação de violência, vai lá pra Delegacia da Mulher, aí ela chega lá, vai fazer o BO, ela vai passar por uma psicóloga, é pra quê? Aí ela sai, o processo vai pra Vara. Chega lá na Vara ela vai falar tudo aquilo de novo. Vai repetir mais uma vez. Aí ela vai pra uma outra psicóloga. Aí essa psicóloga vai lá, escuta, bá-bá-bá. É pra quê? Se o processo dela for pro Ministério Público, ela tem que passar por uma psicóloga. Aí ela já começou por outra. Se ela vai pra Casa-Abrigo, ela já vai ser atendida por outra. Então, às vezes, assim, não aconteceu de passar por quatro,
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mas acontece de passar por três psicólogas. Nem essa mulher sabe pra que que é, entendeu? Acho que nem o profissional sabe, de fato, pra quê. Porque eu entendo que é... Deva ter alguma atribuição pra essas profissionais nesses serviços. Mas é pra cumprir o quê? É pra cumprir uma determinação da justiça? É pra elaborar um parecer? Um laudo? O que é que a juíza tá pedindo, o que é que a delegada tá precisando? Entende? Então, assim, isso tá muito confuso. Fica muito confuso. Porque quando a mulher chega lá pra mim, aí ela vai chegar pra fazer um atendimento em psicoterapia. Um atendimento individual. Aí ela vai pro grupo reflexivo, ela vai pra triagem, ela tem a mesma impressão de todas as outras que foram lá pra trás, que ela vai ter uma conversa só. Ah! Então é! Eu vim procurar o atendimento. Ela fica muito perdida. Ela não sabe o que funciona, como é. Às vezes, até, a psicóloga atendeu bem, aliviou, ela falou, ela desabafou e tal, tá, mas aí foi pra quê, de fato, entende? Então, assim, pra mim é muito claro. Eu recebo essa mulher, ela vai ficar no atendimento, vai fazer psicoterapia ali, ela vai ter um espaço. [...] Tá, psicólogos nesse serviço para quê? Porque o que me dá medo é assim, se é aquela coisa é pra ser bonitinho. Olha aqui tem uma psicóloga pra atender à senhora, a senhora vai lá chorar pra psicóloga. Deu pra cumprir uma tabela. Aí perde, entende? [...] tô lá no Centro de Referência, que eu vou ter um horário a cada semana com aquela mulher. Então, são serviços diferentes que precisariam ter formas de atendimentos diferentes e ter uma proposta mais clara. Então, o duro é isso, é que a psicologia tá permeada... [...] É porque vai trabalhar... Aí, então, eu tava falando, não, eu tava falando a questão dos mitos e preconceitos que o psicólogo vai só é... conversar, vai só ouvir. Essa, essa coisa banal. E aí todo mundo pode fazer. Poderia entre aspas. Quando a psicologia é vista dessa forma. [...] Por outro lado, um relato da colega falando, que produz um relatório psicossocial na Vara. Aí esse relatório ele é generalista, ele não coloca nada específico da psicologia. Aí isso acaba dando brechas, entendeu? Se o que tá escrito aqui não tem nada que seja específico e relacionado à psicologia, então qualquer um pode fazer. [...] E por que quê é psicossocial? E aí, assim, dá margem, entendeu? Reforça porque eu acho que a gente já tem um desafio muito grande, que é romper com essa visão da psicologia. (Macela).
A entrevistada percebe uma sobreposição de papéis e de ações, tanto das próprias psicólogas distribuídas na rede de enfrentamento à violência contra as mulheres
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quanto de psicólogas e assistentes sociais das equipes multiprofissionais, o que, em ultima instância, promove uma revitimização pela falta de definição do que cabe a cada ponto da rede de atendimento, a cada psicóloga de cada serviço, a cada membro de equipe. Quanto a essa questão, reflete Açucena:
[...] ter dois papéis aqui dentro, que é a questão do atendimento à mulher e... Porque não tem como. Eu vi que a gente acaba tendo uma influência maior. Porque o serviço social, por exemplo, faz o trabalho dele, mas não tem essa coisa de repente de olhar mais o macro. [...] E o psicólogo, ele acaba tendo isso. Ele acaba tendo esses outros olhares. Então com as usuárias que eu vejo, assim, o meu papel principal aqui é fazer com que essas mulheres se... Elas se percebam, elas se, se enxerguem. Elas percebam a força que têm. O papel delas enquanto mulher. [...] Pra que ela não... Pra que ela seja dona dela mesma. [...], resgatar essa autoestima, o valor que elas têm, porque é uma, é, às vezes, a própria negação mesmo da existência. [...] o momento da fala muito, é muito pessoal, é o momento de se colocar. É tanto que tem situações que, às vezes, sou eu que... Não tem como, outra não faz, não faz mesmo, sabe. [...] Então precisa falar mesmo, eu digo assim quando a alma tá muito dilacerada, muito machucada, é realmente... É o profissional que, às vezes, procura. Depois que passa pelo momento não é, tá. O momento da dor não é. É só sair da situação. Aí depois que passa, eu preciso falar sobre a minha dor. Falar dessa dor é realmente com o psicólogo. (Açucena).
Para essa informante é a psicóloga que consegue ampliar o olhar para a questão, talvez porque consiga identificar o sofrimento psíquico existente nesse tipo de experiência, considerando todo contexto sociocultural, que as outras profissionais não conseguem, pois o entendimento dos processos psíquicos é da seara dos/as psicólogas/os, a intervenção de membros dessa equipe nessa área não passará de opinião pessoal, de ação baseada no senso comum, pois não têm formação para realizar uma intervenção profissional.
É importante destacar ainda nesse ponto: a diferença de objetivos entre a intervenção psicológica e do direito, mesmo dentro da política pública específica. Na expectativa de fazer cumprir a lei, questão muito importante no contexto do processo de coibir a violência contra as mulheres, há uma expectativa do direito dirigida à psicologia, ou seja, de esta ser colaboradora nas demandas que lhe são prerrogativas. E
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isso parece estar causando parte dessa ambiguidade, dessa dificuldade de delimitação das ações nas políticas especializadas.
O judiciário, e talvez as instituições da rede, com o objetivo de punir o agressor, a partir da visão vítima x agressor, tem uma atenção maior nessa questão – que é relevante, mas não pode e não deve ser das psicólogas. Assim, a forma de trabalho dessas instâncias, como, por exemplo, de inquérito ou de relato repetitivo ‘dos fatos’, passa a ser demandado também para a/o psicóloga/o, que nesse contexto deveria ser aquela profissional que deveria estar para ouvir e acolher a dor da mulher, seu sofrimento psíquico. Quando a psicóloga também é chamada para realizar ações de inquérito, registro “dos fatos”, além das ações educativas para a consciência da opressão de gênero, não haverá quem fique para ouvir a mulher em sua dor, suas dúvidas, suas frustrações, seus desejos. Sobre essa questão destaca Açucena:
Eu nunca começo um, um atendimento sobre o fato, sobre o que aconteceu. Eu não faço essa pergunta, sabe? Eu quero saber sobre a pessoa. Como é que ela está. Quero saber dela. Relatar o fato é uma consequência se ela vai relatar ou não. [...] eu acho que precisa se trabalhar essa questão da, da... do próprio atendimento às pessoas (Açucena).
Para Açucena não cabe à psicologia essa ação de relatar fatos, e sim acolher as dores, os fatos, não são necessariamente relevantes para o trabalho em psicologia.
Mesmo nos trabalhos em grupo, que qualquer profissional poderá realizar, cada um poderá fazê-lo a partir de seu conhecimento. Para as psicólogas, a intervenção em grupo se faz importante e não destitui a atuação clínica, necessariamente:
[...] grupos de atendimento onde outras mulheres falam sobre as suas experiências, onde outras mulheres falam das suas conquistas. Daquilo que mudou, daquilo que foi difícil, porque parece assim que, às vezes, no consultório quando a gente faz uma devolutiva, a sensação que dá é que, assim, é fácil você falar. Mas na hora de fazer é difícil. Então dessas mulheres também poderem ter acesso a outras mulheres que passaram pela mesma coisa, que passaram por muitas dificuldades, mas que pra elas foi possível essa... Vencer algumas questões. Não todas, porque às vezes parece que a pessoa vai resolver, vai ficar um mar de rosas, vai ser uma vida cor de rosa. E a vida vai continuar sendo colorida de tudo que é jeito. Então eu acho que é muito... É fundamental o trabalho clínico, porque outras questões estão envolvidas aí, [...] (Serena).
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participantes choram, desabafam, que há uma intervenção profissional em nível dos processos psíquicos. Os diversos trabalhos em grupo, que podem ser realizados por outros/as profissionais da equipe multiprofissional, são capazes de favorecer momentos significativos e serem inclusive terapêuticos, contudo, esses profissionais não terão como planejar e manejar intervenções com objetivos de trabalhar questões da subjetividade como um/a psicólogo/a está preparado/a para fazer. É preciso entender, conhecer os processos psíquicos, como eles se desenvolvem e quais as técnicas para uma intervenção adequada em cada caso. Claro que há casos em que psicólogos/as atuam de forma inadequada, questões de má formação e má conduta ética, no entanto, isso não justifica que qualquer profissional possa realizar a ação ou que esta passe a não ser desenvolvida.
4.3.3 Conclusões parciais: uma avaliação do trabalho em equipe multiprofissional