2. LITERATURE REVIEW
2.4 Code-switching
2.4.2 Code-switching Theories
psicologia, por parte da política pública para as mulheres em situação de violência e também das mulheres que são atendidas, o que colabora com o estabelecimento tanto das ideias da intervenção em psicologia como limitada quanto das propostas equivocadas da política, mas as entrevistadas descrevem a natureza do trabalho em psicologia. Morgana destaca:
A demanda quem vai trazer é a mulher. O profissional vai precisar avaliar independente do contexto que ele esteja, seja na delegacia, seja na clínica particular. E aí precisa ser avaliada, assim, a demanda. Não pode ser algo imposto. Ah! O papel do psicólogo é trabalhar a autoestima, por exemplo. Aí a mulher chega... Uma questão que também é importante e que precisa ser trabalhado, mas que não necessariamente se envolve diretamente com isso. E eu acho que há uma demanda pra psicologia. Isso, assim, é inquestionável, há uma demanda pra psicologia, mas é uma demanda que precisa ser discutida caso a caso, assim, independente de ser num centro de referência ou não, porque às vezes também... Tinha uma mulher que eu comecei a atender, aí ela foi com a advogada. Aí ela disse que não ia mais comigo. Não vou mais com a psicóloga. A advogada perguntou por quê, aí ela disse porque ela não disse o que que eu tinha que fazer. E aí ficou, parece que ficou aquela coisa lá, assim, me falaram que: Ah, não sei que, porque ela foi na psicóloga e não deu certo. (Gargalhadas). [...] E aí, inclusive ela até disse que não precisava, eu expliquei a
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proposta do atendimento, ela disse que não precisava, mas queria pra filha dela. E pra mim é uma pessoa... Ah, ela disse assim: Não, porque o atendimento psicológico não servia pra nada. Então se não serve pra nada ela não vai querer pra filha dela. Então, assim, pra mim existia uma demanda ali sim, mas ela precisava perceber primeiro a demanda como dela, pra ela poder se colocar, porque enquanto ela ficasse: Ah, precisa pra minha filha, pra minha filha... Não vai sair daquele discurso. E aí, assim, parece que a psicóloga tem que fazer alguma... Também eu acho que existe essa coisa, assim de: Ah, a psicóloga tem que fazer isso, tem que resolver, como se fosse um... papel pra, porque a mulher tem que sair daquela situação, assim. Tem um pouco essa cobrança. Eu percebo, assim, em alguns casos por... Pra mulher não querer ou... Que é um direito dela também não querer, mas esse direito incomoda muitas pessoas. Assim o fato dela não querer. Ah, é um absurdo, alguma coisa tá errada, e... [...] E aí assim, o papel da psicologia eu acho que é respeitar esse... Já que essa mulher é sujeito de direitos eu tenho que respeitar inclusive quando ela não quer. E não forçar. E aí depois ela foi, e aí ela tava indo e depois dessa conversa com a... E aí ela resolveu ir, mas aí já foi de um outro lugar. Porque se no primeiro momento já tivesse colocado: Ah, não, porque ela é vitima de violência, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. Não teria dado em nada. [...] eu acredito que pra trabalhar essas questões mais subjetivas. [...] Pra trabalhar em equipe, ele pode dar suporte em outras questões, por exemplo, quando tem curso lá na casa, às vezes, eles oferecem oficinas nesse sentido de trabalhar as questões de gênero com as mulheres que tão fazendo o curso. O psicólogo pode fazer? Pode. É um trabalho interessante? É... Mas eu acho que a demanda principal, se o objetivo é romper a situação de violência sofrida, precisa trabalhar esse lado subjetivo. ... E aí outra questão também, esse trabalho subjetivo demanda tempo. (Morgana).
Percebe-se que para a política pública proposta para as mulheres em situação de violência, a psicologia tem algo a resolver, que é demandado pela política especializada, mas a partir do entendimento que a SPM e/ou a equipe estabelece, e não do que a psicologia pode oferecer. Há uma atitude autoritária nessa perspectiva: a psicologia está para resolver pela mulher, questão discutida por Machado (2004). Contudo as psicólogas identificaram que dessa forma o trabalho não se estabelece da melhor maneira, inclusive nos achados de Hanada et al. (2010).
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[...] os profissionais entrevistados desses serviços não compreendiam o trabalho do psicólogo como essencial para o trabalho desenvolvido. Mas desenvolviam trabalhos semelhantes aos outros serviços psicossociais que contavam com psicólogos [...], evidenciando a dificuldade de delinear a especificidade desses profissionais. (Hanada et al., 2010, p. 46).
Estaria essa dificuldade justamente no ponto em que existe um a priori para a intervenção em psicologia nesse contexto? O pressuposto que a intervenção em psicologia ‘psicologiza’ problemas que são sociais se destaca mais como discurso e menos a partir da identificação dos resultados da intervenção proposta.
O discurso psicologizante parece estar relacionado com a prática desenvolvida a partir da criação da profissão, às vésperas da Ditadura Militar, e não essencialmente com as teorias psicológicas em seu processo de desenvolvimento e em suas possibilidades. Essas teorias foram utilizadas para contribuir com a pauta autoritária e limitante do regime instalado, a partir da forma com que seus instrumentos foram utilizados. Nesse contexto, pode-se apresentar como exemplo da distorção que houve da psicologia nesse período, as questões do estabelecimento de uma psicologia da aprendizagem, e não uma psicologia escolar. Para Antunes (2004), nesse momento da história do Brasil não era interessante uma psicologia que discutisse os problemas escolares, mas os da aprendizagem, pois, dessa forma, as dificuldades encontradas nas avaliações e diagnósticos psicológicos poderiam ser atribuídas apenas ao sujeito aprendiz, e não ao que acontecia na escola. Nesse tipo de intervenção, as condições sociais e culturais eram negligenciadas, não se considerando sua influência em resultados de testes e avaliações (Antunes, 2004). Essa situação era algo que interessava ao sistema que se estabelecia nesse período no Brasil. Minimizar ou excluir a influência do contexto social, histórico e cultural se fazia importante para a consolidação da ditadura.
Nesse ponto convergem, para um resultado desastroso, psicólogos/as mal formados/as e contexto político de repressão. É sabido que a expansão dos cursos de psicologia no período da repressão promoveu o estabelecimento de cursos de baixa qualidade majoritariamente em instituições de ensino particulares (Antunes, 2004; Carpigiani, 2000), o que se observa de alguma forma também ocorrendo hoje. Segundo Antunes (2004):
Muitas dessas novas instituições foram criadas em condições acadêmicas precárias, oferecendo cursos que não necessitavam de grandes investimentos, em
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geral aqueles que apenas precisavam de salas de aula e professores, além do fato que não havia quantidade suficiente de docentes qualificados para assumir a empreitada de formar de modo adequado novos profissionais. [...] essa situação foi aos poucos se multiplicando, e os cursos comprometidos com uma formação sólida do psicólogo passaram a se constituir quase exceções [...] (Antunes, 2004, p. 138 e 140).
A psicologia como uma ciência influenciada pela Filosofia e pela Fisiologia nas grandes escolas do pensamento que apresentam diferentes visões do mundo psíquico como, no que se refere às teorias da personalidade (Fadiman & Frager, 1986), o Behaviorismo, a Gestalt/Teoria de Campo, a Psicanálise e a Psicologia Humanista, considerando as importantes diferenças em seus pressupostos, destacam um sujeito/pessoa/indivíduo em relação com um ambiente, um meio, campo geográfico ou uma realidade ou o ‘outro’ dependendo da teoria (Carpigiani, 2000). Em nenhuma delas há a ideia de um sujeito/pessoa/indivíduo que exista sem essa relação com o contexto em que está inserido, assim como teóricos da psicologia genética, do desenvolvimento e sociointeracionista (Carpigiani, 2000).
Dessa forma, a ideia da psicologização nas intervenções dos/as psicólogos/as está muito mais determinada na forma como a psicologia se expandiu no Brasil do que nas suas teorias propriamente ditas.
A atuação clínica em si, também, não pode ser considerada como limitante, pois o problema é a utilização limitante desta ou de qualquer outra forma de atuação em psicologia. Um emprego reducionista das técnicas e teorias.
Ainda se identifica um contexto em que a Psicologia como profissão tenta se recuperar das consequências dessa formação estabelecida na ditadura. Desde a década de 1990, no Encontro de Serra Negra em 1992 e no Congresso Nacional Constituinte em 1994 (Carpigiani, 2000), houve a defesa da formação de um/a psicólogo/a generalista que pudesse abranger diversas abordagens e áreas de atuação da psicologia respeitando a interdisciplinaridade com as demais áreas. Este processo teve seu ápice no estabelecimento das novas diretrizes curriculares em 2004 e em 2011 (Brasil, 2004b, 2011b).
É preciso identificar as dificuldades de formação da profissão, que contribuem para uma difusão equivocada das atribuições da categoria e continuar investindo no processo de fortalecer e dar qualidade à formação. Todavia, não será levando os/as psicólogos/as a atuarem de forma distante de sua formação, em equipes
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multiprofissionais onde todos realizam as mesmas atividades ou atuando em tarefas que não precisam de formação especializada em psicologia, que se fará um reparo na má formação que se observa quando psicólogos/as são chamados/as a intervirem no sofrimento psíquico de um grupo ou pessoa. Psicólogos/as precisam ter uma boa formação para atuarem de forma responsável e consistente no sofrimento psíquico onde quer que ele se manifeste, tendo condições de avaliar processos intrapsíquicos nas suas relações com os contextos sociais, históricos e culturais, além de atuar de forma multi, inter, pluri e transdisciplinar.
Furtado (2007) destaca que há uma tentativa de conceituar, caracterizar as aproximações e trocas eventuais ou necessárias entre disciplinas e saberes. Para tal, vários autores apresentam suas definições no contínuo entre “quase nenhum contato entre as disciplinas, e, no outro extremo, grande intercâmbio entre elas” (Furtado, 2007, p. 240). Diante disso, pode-se apresentar, dentre os conceitos existentes, o que define melhor a relação entre as disciplinas. A multidisciplinaridade “... é caracterizada pela justaposição de várias disciplinas em torno de um mesmo tema ou problema, sem o estabelecimento de relações entre os profissionais representantes de cada área no plano técnico ou científico.” (Furtado, 2007, p. 241). Já a interdisciplinaridade é entendida como “estratégia que envolve troca real de conhecimentos e uma integração mais profunda e coordenada entre disciplinas...”. (Vasconcellos, 2010, p. 02).
A pluridisciplinaridade é caracterizada pelo efetivo relacionamento de disciplinas entre si, havendo coordenação por parte de uma dentre as disciplinas ou pela direção da organização. Nesse caso, são estabelecidos objetivos comuns entre as disciplinas, que deverão estabelecer estratégias de cooperação para atingi-lo. Aqui prevalece a idéia de complementaridade sobre a noção de integração de teorias e métodos, ou seja, opera-se muito mais com a concepção de que uma área do saber deve preencher eventuais lacunas da outra. [...] Deve-se perceber que, aqui, não há simples justaposição ou complementaridade entre os elementos disciplinares, mas uma nova combinação de elementos internos e o estabelecimento de canais de trocas entre os campos em torno de uma tarefa a ser desempenhada conjuntamente. Transdisciplinaridade é um termo cunhado por Jean Piaget [...] na qual as interações entre o conhecimento se dariam sem as fronteiras disciplinares. Para alguns autores [...], esse termo seria um horizonte inalcançável, tendo como função o direcionamento do caminho, tensionando os esforços em busca de modos de entrosamento mais profundos entre campos disciplinares. Outros autores
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consideram a transdisciplinaridade a única forma realmente válida de interação e um modo efetivo de superar as limitações da interdisciplinaridade. [...]. (Furtado, 2007, p. 241-242. Não grifado no original).
Pode-se concluir que há muitas formas de pensar e definir essa articulação entre as diferentes disciplinas e áreas do conhecimento. Diante dessas definições, entende-se que, no que se refere a uma ação integrada, há a proposta da interdisciplinaridade, também entendida como pluridisciplinaridade, que tenta uma articulação onde cada disciplina dá sua contribuição de modo que se atinja um objetivo que é coletivo, mas que cada um fará sua parte em constante interação. Por outro lado, a proposta da transdisciplinaridade defende que não haja fronteira entre as disciplinas, que assim resolverá os limites da forma de interação anterior, ou seja, interdisciplinaridade ou pluridisciplinaridade, dependendo de quem a define. Contudo, não diz como isso se dá. Talvez seja por isso que de início é uma definição questionada: “um horizonte inalcançável” x “única forma realmente válida de interação”.
Nesse ponto surgem algumas questões: Por que é tão necessário ter uma única forma de fazer algo? Por que não se podem ter várias formas, formas que se colocam para se complementar, formas mais adequadas para o caso ou o momento, ou mesmo uma forma de atuação decidida pela equipe para alcançar um objetivo em comum?
Talvez seja esse tipo de disposição para a definição de como se deve desenvolver determinado trabalho que traga dificuldades. Isso porque apresentar que há apenas uma forma boa, ideal, correta, eficaz de se realizar um trabalho, que é colocada a priori e, ao mesmo tempo, defender a participação do/a profissional, sua autonomia e a necessidade da intervenção em psicologia no conjunto das ações consideradas prioritárias para a política pública em questão, fica, no mínimo, confuso.
Para concluir a apresentação desta parte dos resultados referentes ao papel da psicologia nas equipes multiprofissionais das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres, coloca-se como importante a discussão sobre as motivações de as mulheres continuarem em situação de violência, pois esse é um tema que traz conflitos para os profissionais da rede de atendimento e aponta para a necessidade de uma intervenção em psicologia clínica. Brandão (1998), Meneguel et al. (2000) e Machado (2004) apresentam a repercussão emocional do trabalho com mulheres em situação de violência nas equipes multiprofissionais, em especial quando as mulheres atendidas resolvem continuar vivendo em situação de violência, mesmo quando outras soluções são possíveis.
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