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3. METHODOLOGY

3.7 Challenges of the Study

E aí eu lembro do ciclo da violência. Que têm as agressões físicas, as verbais, as ameaças, e depois tem o pedido de reconciliação, os de perdão e a lua-de-mel. Assim me parece que tem um ganho, um ganho secundário nessa história. [...] É eles pedirem perdão pra elas. [...] Ela ficar, pelo menos, em um breve período em lua-de-mel. E num breve período na lua-de-mel, no sentido dele, dela pensar que ele tá fazendo o que ela quer que ele faça. [...] (Malena).

Ariadne destaca possíveis ganhos secundários que, talvez, justifiquem a dificuldade de mudar a si mesma e o desejo de querer mudar o parceiro:

Tem, a gente sabe que tem, os benefícios secundários até do sadomasoquismo ali da coisa. [...] Elas ficam presas na situação. [...] A dependência financeira e

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emocional. Tem algumas que nem é a dependência financeira, é emocional mesmo. (Ariadne).

Aqui as entrevistadas destacam algo que é ponto de tensão: a explicação a partir do conceito psicanalítico de masoquismo.

Narvaz (2010), num texto que pretende fazer uma critica à utilização do conceito de masoquismo no entendimento da permanência das mulheres em situação de violência, defende que é um conceito construído num contexto patriarcal e que coloca as mulheres como podendo ter uma “natureza” masoquista, quando na verdade esse lugar é uma construção social. Continua afirmando que esse entendimento é limitante por desconsiderar as questões culturais que colocaram as mulheres nesse lugar. Todavia, diz que Freud afirma: “... a subjetividade masoquista é uma forma possível de inscrições dos sujeitos na ordem da cultura” (p. 54), e continua seu texto afirmando que a subjetividade masoquista é construída/determinada pela “história da produção ideológica das subjetividades em gênero” (Narvaz, 2010, p. 55).

Esses argumentos só afirmam que a discussão do masoquismo não se refere a uma suposta natureza feminina e que, se a subjetividade masoquista existe entre mulheres que sofrem violência, é preciso fazer algo, e não apenas dizer que essa é uma experiência tanto de homens quanto de mulheres, e que não é “natural” das mulheres como o argumento que não se deva considerar sua existência nesses casos. É importante destacar que os textos freudianos não afirmam a existência de uma essência feminina ou de uma natureza feminina masoquista, como a própria autora destaca. Contudo, isso não descarta que o masoquismo é algo que se apresenta também entre as mulheres e que, se esse tipo de servidão acontece entre essas mulheres que se assujeitam à violência, é preciso pensar formas de intervir considerando esse processo. Dessa forma, é possível trazer os pressupostos psicanalíticos para a discussão da violência contra as mulheres sem com isso naturalizar a violência ou negar as teorias feministas de gênero.

[...] é como se fosse assim: aprendi dessa forma. É ruim, mas, mas eu não gosto, mas eu não sei fazer de outra forma, não sei fazer de outra maneira. É assim, é assim. É como assim: Então eu vou, vou levando. Algumas mulheres, elas realmente percebem, elas têm uma consciência e realmente vão em busca, e se movimenta. Faz um movimento realmente pra, pra romper. Mas outras, elas fazem o movimento, mas elas voltam, voltam. É um, um... Às vezes, até aquele ditado popular é ruim com ele, mas é pior eu ficar sem ele. Tem os filhos, tem,

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sabe? Por conta das crianças. E que muitas vezes esse próprio pai não é tão... Não é um pai significativo. (Açucena).

Cunha (2007) destaca que há um desejo a ser realizado quando uma mulher permanece em uma situação de violência, como se ela fizesse uma permuta, fica na situação de violência para evitar a solidão, não diminuir o nível de conforto ao qual está acostumada (mulheres das classes sociais média e alta) e garantir o “bem-estar” dos filhos/as. Mas faz questão de destacar que não há masoquismo, pois as mulheres não gostam de apanhar, como a permanência nessas situações faz supor. Refere que essa ideia se popularizou a partir da concepção freudiana “... que as mulheres tinham tendência a desejar a dor” (Cunha, 2007, p. 166).

Cunha (2007) ainda destaca que as mulheres que entrevistou não gostam, não desejam e não merecem ser agredidas. Afirma que a mulher fica na situação de violência “porque não encontra saída para resolver aquela situação, naquele momento, ou porque depende emocionalmente daquele parceiro” (p. 166). Com esse argumento a autora volta ao início de sua avaliação, com o argumento da dependência emocional, além de entender o masoquismo de forma leiga, e não como Freud o entendia, ou seja, como algo que se constitui da fusão entre duas pulsões, de forma que a sexualidade se une a uma destrutividade que se direciona para dentro do sujeito (Freud, 1930/2010, 1924/2007). Sendo assim, pode-se supor que não é uma questão de gostar ou de desejar apanhar, mas desejar realizar um desejo, pelo que as psicólogas entrevistadas relataram desejo de realizar ou de que seja realizada a promessa do amor romântico.

Além disso, pode-se pensar que a mulher que sofre violência vive o mesmo dilema, destacado por Menezes (2012), que viveram os irmãos que assassinaram o pai no texto Totem e Tabu de Freud: “Depois do assassinato do pai, os irmãos estão livres e desamparados” (p. 48). O preço da liberdade é o desamparo. E, nesse ponto, que é preciso cuidado quanto às propostas de intervenção para a resolução das situações de violência.

Menezes (2012) e Kehl (2008) destacam que na obra de Freud, considerando o contexto da segunda tópica, masoquismo feminino não se refere especificamente às mulheres, e sim a uma posição feminina assumida por homens e mulheres. Sendo o masoquismo moral relacionado ao sentimento de culpa inconsciente (Menezes, 2012). Nesse contexto frente ao desamparo “o sujeito se oferece como escravo em troca de uma segurança ilusória” (Menezes, 2012, p. 115). Relata Açucena:

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Depressão realmente é algo bem presente. E a ansiedade, as somatizações são bem constantes. Muitas mulheres aqui se queixando com uma doença. É doente, é dor disso, é dor daquilo. Ela tá inventando que tá doente? Não! Ela não está inventando. Ela tá realmente precisando ser cuidada. Então, ela tem que ter alguma dor. A dor física, alguém... [...] É! Alguém faz alguma coisa. ...(Açucena). Na somatização - ou seria na situação de violência? - haveria o desejo de que alguém faça por ela? Desejo de ser cuidada e de ser única associado ao modelo do amor romântico (Costa, 1998; Haddad, 2009), mas também relacionado a uma exigência do feminino, como discute Laurent (2012) “... a exigência do sujeito feminino é uma exigência de gozo, esse gozo distinto do gozo fálico” (p. 124), que não sabe como é?

Esse ponto é polêmico, pois traz à tona outros elementos, de ordem inconsciente, que atuam no processo e que os argumentos contrários não são suficientes para evitá-lo. Contudo, aparece como possibilidade de entendimento para uma reação que impacta os/as profissionais da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres: quando a mulher decidir continuar em situação de violência. Enquanto os parâmetros de entendimento desse fenômeno negarem a contribuição que as teorias psicanalíticas podem dar para sua compreensão dinâmica, não se terão boas respostas, pois há uma lógica na ação das mulheres que decidem permanecer em situação de violência, e essa lógica é preciso acessar.

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 Pagar o preço da mudança

As informantes também destacaram que as mulheres não querem pagar o preço de elas realizarem uma mudança, sendo melhor desejarem a mudança do outro, como destaca Serena:

Eu acho que não é que elas queiram continuar nessa relação [...], é que ela simplesmente não consegue encontrar o caminho pra sair. Bancar essa vida fora dessa relação, eu entendo que seja bancar algo completamente novo do qual ela não tem, não tem conhecimento nenhum. [...] É preciso bancar uma vida nova. E aí com tudo que vem junto, é fazer tudo diferente, morar numa casa diferente, não ter a presença daquela pessoa ali, não ter que lidar com aquela situação que é comum, vamos dizer assim, não é que seja boa, mas ela já sabe como lidar com aquilo. [...] Que não é só uma questão de estar sozinha ou livre da violência, mas é estar sozinha e livre da violência e com todo o resto. É ter que lidar com a vida

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de separada, com os filhos sem pai. [...] Então tem toda uma série de questões aí que vai dessa mulher saber que pode enfrentar essa situação. (Serena).

Menezes (2012) refere que nesse processo de se defrontar com o desamparo “... o sujeito se submete ao conforto da posição masoquista, refugia-se e afunda-se no abismo do masoquismo” (p. 117). Nesse ponto é que se destaca a necessidade de pagar o preço para sair desse lugar, o preço de enfrentar esse desamparo, tendo a possibilidade de conviver com essa condição e construindo destinos criativos perante esse limite. Quando a entrevistada aponta que a ressignificação da forma de se relacionar com o agressor não se limita a se livrar da violência, mas também junto com isso assumir todo o resto, que sendo ilusório ou não, é o que a faz se sentir segura e protegida. Além de ser uma implosão identitária, quando se considera as referências que guiam seus desejos e pensamentos, quando suas identidades estão constituídas em metáforas estruturantes, como ser amorosa e limitar a expressão de si, que perpassam pelo poder (Swain, 2006). Dessa forma, uma atuação que não considere essa questão pode trazer muitas dificuldades no processo de intervenção da política pública.

E nesse contexto de ‘pagar o preço’ que acompanham as mudanças de atitudes, as mudanças nas situações vivenciadas, há a necessidade de perceber a própria agressividade. Violeta e Malena destacam que as mulheres também agridem, mesmo compreendendo que os sentidos dos atos de violência dessas sejam diferentes dos homens, infligem violência ou utilizam dessa situação para conseguir algumas coisas, e isso precisa ser trabalhado, dentro de uma perspectiva da violência como relacional.

[...] já teve casos também de homens relatando que as mulheres foram as algozes, digamos assim. Foram elas quem foram... Então, de certa forma elas também podem ter o outro lado da moeda. Mas sempre numa relação que não tem um equilíbrio. (Violeta)

Eu acredito que nós mulheres precisamos pensar no poder que nós temos sobre os homens, porque é muito grande, mesmo aquela mulher que tá apanhando. [...] (Gargalhadas). A mulher que tá apanhando, queira ou não, em alguns momentos, não são em todas as situações, ela domina. [...] O apanhar é como se fosse... Não deixa de ser um desejo de atenção, um desejo de falar que eu tô aqui, eu sou importante, ou então eu existo, não é? A mulher precisa mudar essa linguagem. Ela não precisa apanhar pra falar que existe. Ela não precisa se submeter à violência psicológica, que eu acredito que tá entre todas presente, física, sexual, a patrimonial. [...] Então a mulher precisa ter... Mudar esse padrão de como ela

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se relaciona com o homem, não o homem pensar o papel dele. Primeiro a mulher pensar o papel dela, o que que ela quer, o que que ela deseja pra ela? [...] (Risos). É o poder do... De mobilizar a raiva do cara pra ela. [...] É como se fosse um pequeno prêmio ou um grande prêmio. É como se ela dissesse ele me bate, mas ele tá aqui comigo. [...] Ah! Uma coisa que eu acredito que as mulheres, eu me coloco também como mulher, a gente precisa ter isso bem, de forma bem clara, um divisor de águas, que ninguém, seja homem ou mulher, ninguém vai fazer o que eu quero, o que eu desejo que a pessoa faça. Ninguém pode ser do jeito que a pessoa deseja que ela seja. Enquanto as pessoas não aprenderem isso, que isso é impossível, a gente vai ter muitas brigas, muitas reconciliações. E pra mim é um lado negativo. [...]. (Malena).

Pagar esse preço custa caro para a ilusão, para os ganhos secundários, para o desejo, pois “É preciso que o objeto idealizado de amor seja dado como verdadeiramente perdido para que se possa tolerar o desamparo: a condição do limite, da finitude, da solidão...” (Menezes, 2012, p. 74), e a partir dai ter condições de construir novas formas de lidar com a vida.

4.4.2 Conclusões parciais: as motivações das mulheres para a permanência em