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2 Theory

2.2 Landslide inventory map and magnitude-frequency curves

terminologia negro-africana. Segundo a crítica, essa terminologia estaria fundamenta na existência de uma civilização, ou seja, de especificidades que se encontrariam nas crenças, costumes e na experiência histórica - escravatura, colonização e independência - destes povos. Portanto, o uso dessa terminologia teria um respaldo histórico importante que não seria possível negligenciar ou apagar de repente.

Seguindo as trilhas do crítico Ángel Rama, podemos afirmar que a literatura negro-africana pode ser estudada como uma comarca literária com respaldo histórico e cultural. No entanto, pensar em uma literatura negro- africana é também refletir sobre o cânone literário numa perspectiva pós- colonial.

1.2 Questão de cânone

A palavra cânone tira sua origem da tradição religiosa católica. Aplicada à literatura religiosa era o conjunto de livros reconhecido pela igreja como parte da Bíblia. Os livros que não entravam no cânone eram simplesmente considerados não autênticos. Como podemos reparar, falar de cânone é falar de seleção, ou seja, separar o que seria verdadeiro do falso. O mesmo termo foi usado na literatura por transferência semântica com o intuito de estabelecer uma forma de hierarquização das literaturas e por conseqüência dos escritores. Pertence ao cânone todo escritor reconhecido como tal pelas instituições legitimadoras como as escolas, os diversos prêmios literários, as academias de letras, etc.

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Lylian Kesteloot é uma especialista reconhecida da literatura negro-africana. Pesquisadora no instituto literário da Universidade de Dakar (IFAN) e encarregada de um seminário no CIEF (Literatura francófona) na Sorbonne – Paris IV. Ela já publicou uma antologia da literatura negro-africana.

Com relação à literatura em geral, as regras de uma literatura canônica sempre foram ditadas pelo Ocidente por intermédio das instituições legitimadoras cuja representação por excelência é o prêmio Nobel de Literatura. Porém, nunca na história da literatura universal, o cânone foi tão questionado como em nossa época moderna (mais ou menos desde os anos 1920 até hoje). O vento de liberdade que soprou sobre o mundo no século XX com a emergência política e cultural da maioria das antigas colônias, de grupos minoritários dos próprios centros hegemônicos, abalou os fundamentos deste cânone. O multiculturalismo, uma das correntes que surgiu dessa inquietação profunda, propõe o direito à expressão de todas as minorias.

Portanto, se o cânone não desapareceu totalmente enquanto modo de seleção literária devido à existência dos prêmios, das academias e dos demais modos de legitimação, ele perdeu a sua rigidez na medida em que várias literaturas ditas “menores” começaram a ser consideradas dignas de interesse como é o caso das literaturas emergentes.

Diante da emergência dessa diversidade literária a idéia de uma Europa toda poderosa, centro de uma “cultura mundial”, começa a perder fôlego. É neste contexto de total inquietação que surge das profundezas dos mares como um deus olímpico, o último defensor de um cânone hoje questionado: trata-se do crítico americano Harold Bloom. Em o Cânone Ocidental, ele mostra claramente sua hostilidade diante de uma idéia da expansão do cânone. Na seleção dos vinte e seis livros que serviram de base para o estabelecimento do seu cânone ocidental, o critério base de sua seleção é a “estranheza”, ou seja, algo que todas as obras canônicas teriam em comum:

Com a maioria desses vinte e seis escritores, tentei encarar diretamente a grandeza: perguntar o que torna canônico o autor e a obra. A resposta, na maioria das vezes, provou ser a estranheza, um tipo de originalidade que ou não pode se assimilada ou nos assimila de tal modo que deixamos de vê-la como estranha. [...] Quando se lê pela primeira vez uma obra canônica, encontra-se mais um estranho, uma surpresa misteriosa, do que uma realização de expectativas. Assim lidos, tudo que A divina comédia, Paraíso perdido, Fausto Parte Dois,

Hadji Murad, Peer Gynt, Ulysses têm em comum, é seu mistério, sua capacidade de fazer-nos sentir estranhos em casa. 35

Para sustentar tais idéias, Harold Bloom elabora um método que denomina a teoria da influência. Segundo esta teoria, uma literatura não se cria do nada. Um romance só poderia ser criado inspirado em outro romance porque seu autor bebeu nas águas de outro, estabelecendo assim uma tradição literária. Para Bloom, a literatura não deveria ter outra preocupação a não ser a própria literatura. Todas as demais preocupações, sobretudo sociais, não fariam parte dos papéis da literatura. Assim descarta também a crítica de conotação marxista que estabelece elos entre literatura e sociedade.

Cabe salientar que apesar das diversas formas de literatura que encontramos hoje, Harold Bloom faz parte - como o destaca tão bem a crítica moçambicana Ana Malfada Leite – dos críticos ou teóricos que acreditam ainda ser possível construir a literatura numa espécie de “zona incontaminada” da ideologia atribuindo para essa um prestígio especial isolada de outras formas de discurso36.

Harold Bloom não pára aí. Sob as alegações de que se um cânone existe é para pôr limites, desqualifica em sua seleção da literatura canônica todas as literaturas dos países pós-coloniais e dos grupos minoritários como o feminismo e as produções escritas de ênfase social. Assim, se insurge contra os multiculturalistas e toda a crítica apoiando uma literatura mais democrática:

“O Cânone Ocidental, apesar do ilimitado idealismo dos que gostariam de abri-lo,

existe precisamente para impor limites, para estabelecer um padrão de medida que é

tudo, menos político ou moral”.37

Ao acompanhar as trilhas do pensamento deste crítico, podemos facilmente deduzir que para ele, as literaturas dos países pós-coloniais ou periféricos seriam simplesmente manifestações não-literárias, ou seja,

35

BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. Trad. Santarrita Marcos. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995, p. 12-13.

36

Cf. LEITE, Ana Mafalda: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Maputo: Imprensa Universitária, 2003.

37

LEITE, Ana Mafalda: Literaturas Africanas e Formulações Pós-Coloniais. Maputo: Imprensa Universitária, 2003, p. 42

subliteraturas, na medida em que a maioria delas reivindica sua filiação a uma tradição oral ao passo que a literatura européia se fundamentaria em uma tradição escrita. Sob esse ângulo, apenas uma literatura seria digna de interesse: a literatura ocidental.

A busca de autonomia imprescindível para as literaturas emergentes não foi sempre bem vista (como demonstra muito bem o crítico Harold Bloom). Uma análise das relações internacionais mostra claramente que esta atitude não é só um fenômeno literário. Nas demais áreas como a política e a economia, o fenômeno é menos mascarado ao passo que nas artes e na literatura se configura de forma mais sutil. Essa atitude começa porém a ser desmascarada.

Segundo Ana Mafalda Leite38, haveria muitas atitudes subjacentes nas formulações discursivas em relação à África. Uma delas é a paternal talvez ainda com resquícios coloniais, que enxerga o outro com distância e tolerância, mas sem reconhecer de fato sua maturidade e autonomia. Nessa perspectiva, discutir o cânone significaria questionar um sistema de valores instituído por grupos detentores de poder cultural, que legitimam um repertório, com um discurso por vezes globalizante. Esta questão está ligada, como já salientamos, à exclusão de uma produção oriunda de grupos minoritários, nos centros hegemônicos e de uma produção literária oriunda dos países que passaram pela colonização.

Uma das grandes contribuições teóricas para refletir sobre a problemática do cânone foi do crítico Edward Said, cujas propostas sobre as literaturas pós-coloniais estabeleceram os fundamentos teóricos da existência de tradições literárias calcadas nas tradições locais e cujo resgate seria indispensável.

As propostas de Said salientam a importância da variante em relação à norma. Na literatura brasileira cuja problemática da cópia das fontes européias foi sempre questionada, a crítica já reconhece a sua formação genuinamente brasileira. Ou seja, em ambiente novo, o que era classificado como cópia passara por um processo de adaptação que a torna muito diferente da original.

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Isso foi possível graças à dialética entre o local e o universal (como o ressalta bem o crítico Antonio Candido) e segundo a teoria de transculturação de Ángel Rama.

Outro ponto importante a destacar nessa questão de cânone, é o da avaliação e valor das literaturas ditas emergentes. São aspectos problemáticos na busca de critérios para institucionalização destas literaturas. De que lugar crítico escreve, por exemplo Harold Bloom na sua atribuição de mérito ou de estranheza? Ou seja, quais seus fundamentos teóricos quando julga ser uma literatura canônica ou não?

Para Ana Mafalda Leite, a avaliação e o valor, tal como o sentido, não são qualidades intrínsecas, mas nascem da relação entre o objeto e certos critérios estéticos e institucionais. Ao rebater a corrente crítica que só privilegia fontes escritas Leite ressalta que não deixa de ser pertinente que quem tem laços mais estreitos com a oralidade tem uma apreciação diversa daqueles que secularmente evocam a tradição escrita.

Segundo essa crítica, haveria nas literaturas das antigas colônias uma espécie de “reivindicação formal” fruto de uma tradição cultural e também de uma necessidade de criação de novos campos literários. Nesse ínterim, as propostas resultam numa enunciação por muitas vezes desconhecida, do ponto de vista crítico ocidental. Dessa forma, não é de estranhar se um crítico como Harold Bloom julga essas literaturas desprovidas de valor literário.

Na maioria das vezes, o crítico ocidental pouco acostumado a tais literaturas tende a julgá-las, ou pouco cultas, ou desprovidas de novidade, simplistas, mesmo imperfeitas. Para Ana Mafalda Leite que denomina essas literaturas de “mutantes”, elas podem despistar o olhar que procura a reprodução dos seus próprios modelos. Um aviso que vale tanto para a narrativa negro-africana como para um romance como Macunaíma.

As literaturas emergentes – sobretudo as literaturas africanas - com resultado combinatório de narrativas tradicionais orais oferecem, na verdade, alternativas à maneira de construir a estrutura narrativa, ao incluírem muitas formas oriundas da oralidade como o provérbio, o canto, o conto, a

dramatização, etc. Isso será exemplificado no estudo consagrado ao

Macunaíma e a narrativa negro-africana nesta tese.

Deste modo, depois de definir o que entendemos por “negro-africano” e, antes de abordarmos a questão do romance negro-africano e Macunaíma - como práticas romanescas que surgem em condições pós-coloniais, isto é, como reformulação ou re-escrita e não continuação de prática discursiva européia -, realizaremos uma pequena digressão com o objetivo de apresentar, de maneira sumária, a literatura negro-africana.