3 Study area
3.2 Climate
Nas sociedades negro-africanas o conhecimento se transmite de geração em geração e a palavra torna-se mediação imprescindível como veículo de todo este saber milenar. A palavra como a define Hampaté Bâ é a memória viva na África. Além do papel de guardiã da tradição, a palavra é também expressão de poder. É uma das expressões da força vital. Em tais sociedades, o homem é a sua palavra. Ele é comprometido com ela e sempre procura honrá-la em seus atos e comportamentos. A palavra dá testemunho do que verdadeiramente a pessoa é. O respeito à palavra dada é tão importante que a própria coesão social depende do valor e respeito dados a ela. Uma análise do papel da palavra em Macunaíma permite estabelecer algumas semelhanças e diferenças com o uso desta pelos escritores negro-africanos e pelas sociedades negro-africanas.
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Se Mário de Andrade utiliza a tradição oral na sua rapsódia, ele o faz primeiro como escritor erudito. Num contato inicial com Macunaíma surge imediatamente uma sensação de ironia com relação ao papel da palavra. Uma ironia séria. A ironia é um recurso estilístico privilegiado para satirizar algumas tendências ditas “modernas” de sua própria sociedade: a cidade de São Paulo dos anos 1920. Cabe relembrar que São Paulo aparece na rapsódia como vasta metonímia de um Brasil em plena mutação. Ao pintar um herói sem palavra - cujo traço característico é a mentira - Mário de Andrade estabelece um paralelo entre seu herói e a transformação de seu país em sociedade “reificada”. A palavra desprovida de valor e a mentira são traços que não condizem com uma sociedade tradicional oral na qual o valor do homem se reconhece pela sua palavra. Essa “banalização” da palavra na rapsódia poder ser entendida como uma crítica à sociedade global “reificada” do mundo moderno. Nesse sentido, mais de uma vez, Mário foi visionário. O respeito à palavra - qualidade essencial para um humanismo pleno não é prioridade em uma sociedade capitalista. Os valores humanos tornam-se invertidos: tudo é mercadoria. Tudo se vende, tudo se compra. O herói de Mário de Andrade acaba experimentando essa triste realidade quando sai de sua aldeia natal para uma aventura na metrópole de São Paulo. Ele tira dessa aventura uma grande lição ao descobrir que o “currículum-vitae” da civilização é o dinheiro e que nesta civilização “moderna” não são os homens que mandam, mas as máquinas.
Todavia, apesar dessa impressão de banalização da palavra apontada na obra devido ao próprio caráter do herói, que age como se não tivesse fé nem lei, os fatos da rapsódia precisam sempre ter uma leitura ambivalente.
Cabe dizer que temos como embate essencial em Macunaíma a dualidade entre duas formas de civilização: as civilizações do sol e a civilização européia. Um estudioso de Mário de Andrade como Oscar d´Ambrosio sustenta que esse embate é o verdadeiro conflito dentro da rapsódia. As civilizações do sol são aquelas em que a palavra é carregada de poder como no “realismo negro-africano” assim como nas sociedades indígenas.
Como o destacou muito bem Margarida M.T. Peter145, nessas sociedades, além de ser divina, a palavra é expressão do sopro vital, agente de energias ocultas, devendo, por isso, ser valorizada e manejada com prudência. O poder sobrenatural da palavra é evidente no próprio Macunaíma.
No capítulo II, o herói manifesta uma de suas características negativas: o egoísmo. Enquanto a fome se abatia sobre a aldeia e todos seus irmãos estavam sofrendo desse cruel castigo, ele havia descoberto abundância de frutas na outra margem do rio. Ele decide levar a sua mãe para lá e se recusa a trazer de volta para a aldeia algumas bananas que poderiam saciar a fome dos irmãos. Diante de tanta malvadeza, a mãe o leva à floresta e o abandona pronunciando as seguintes palavras: “Agora vossa mãe vai embora. Tu ficas perdido no coberto e podes crescer mais não.”146
As palavras da mãe soam como uma maldição e Macunaíma perde a sua capacidade de crescer. Notemos que as palavras pronunciadas pela mãe não eram simples palavras. No mesmo capítulo, o poder da palavra se manifesta também quando o herói se vinga dela. Uma vingança fatal. Depois do episódio da maldição materna que o impediu de crescer, Macunaíma se dirige à sua mãe e lhe diz que sonhou com dente caído. Sabe-se que na tradição indígena, sonhar com dente é sinônimo de morte de parente. Ciente disso, Macunaíma anuncia o fato para sua mãe. A mãe, versada na sabedoria indígena, logo identifica a provável tragédia na família. Ela revela ao filho que sonhar com dente é sinônimo de morte de parente. A resposta do herói é rápida e estranha. Ele confessa saber e os dias de vida da mãe estavam contados:
- Mãe, sonhei que caiu meu dente!
-Isso é morte de parente, comentou a velha
- Bem que sei. A senhora vive mais uma Sol só. Isso mesmo porque m e pariu.147
145
Cf.PETER, Margarida Maria Taddoni. Estudos lingüísticos XXII Anais de seminários do Gel vol.I, 1993. p. 312.
146
ANDRADE, Mário de. Macunaíma, p. 17.
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Com as próprias palavras, Macunaíma determina a morte da mãe. Ésta de fato falece durante uma caça das mãos do próprio filho. Uma morte estranha porque Macunaíma, na verdade, atirou em uma veada parida. Quando foi pegar o animal caído percebeu que acabara de matar a própria mãe. Para entender tal fato é preciso aceitar que existe outra ordem diferente da ordem cartesiana do mundo. Nessa ordem de pensamento, a “força” nem sempre é aparente. A palavra em sociedades tradicionalistas como a negro- africana nunca deve ser manejada de maneira inadequada. É uma arma perigosa.
Na rapsódia, a palavra foi sempre usada inadequadamente por nosso herói Macunaíma. Na verdade, desde que nasceu, desrespeitou as normas que regem normalmente uma sociedade de tipo tradicional. E uma das coisas consideradas extremamente graves nessas civilizações da oralidade é faltar à sua palavra. Respeitar normas era algo que não fazia parte da natureza de Macunaíma. Acostumado a enganar e abusar das companheiras de seu irmão, era mentiroso. Não respeitava a palavra dada, como no episódio da traição da filha da Vei, a Sol, com a portuguesa. Respeitando a lógica das civilizações não-européias, a perda da muiraquitã, as mentiras, os incestos eram atos antecipatórios de um desfecho infeliz para o herói. Isso nos leva a refletir um pouco sobre o remate. Seria possível imaginar outra conclusão para esse romance? Acreditamos que não. Se Mário de Andrade seguiu a lógica do pensamento dos povos ditos primitivos, a morte do herói não poderia ser explicada como simples fatalidade. Seria um signo de destino, algo já predeterminado. E se o próprio nome Macunaíma fosse um signo do destino?