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O espaço nos contos da obra Os Meus Amores está intimamente relacionado às características interiores das personagens, pois, como afirma Fernandes (1961, p. 33): “o mundo exterior surge, nos contos de Trindade Coelho, subordinado, ou pelo menos adaptado, aos atos e reações psicológicas das personagens”.
Em Manuel Maçores, não seria diferente. Desde o princípio, observamos sutis menções ao ambiente que nos remetem ao porvir narrativo. Atentamos, porém, à referência constante ao “lameiro”, que, inicialmente, é citado da seguinte maneira:
Passava pouco do meio-dia quando o Manuel Maçores, que andara a lavrar toda a manhã, seguia com os bois para um lameiro do amo (COELHO, 1997, p. 225).
Neste trecho, nota-se a passagem de Manuel de um espaço de lavoura a outro
que remete à sujeira, à lama e, figurativamente, à sordidez, uma vez que o termo “lameiro” relaciona-se à palavra amo, ou seja, José Tomás, pai de Maria Rosa, que mais adiante o prejudicará. A princípio, esta relação parece ainda casual, mas, ao se observar os demais momentos em que ela surge, nota-se que há uma crítica implícita em sua utilização:
– Bom remédio, esse de fugir de tentações! – dizia agora o Manuel Maçores, seguindo atrás dos bois caminho do lameiro. – A boas horas!
Houve uma intercadência no pensar do rapaz. Um mendigo estava deitado à borda da rodeira, à sombra de um grande carvalho (COELHO, 1997, p. 227).
Manuel meditava a respeito do conselho de fugir de tentações, mas estava indo de encontro a elas. Conforme se aproxima mais do “lameiro”, a personagem começa a encontrar homens igualmente sujos e sórdidos, uma vez que o mendigo aqui mencionado fora o assassino do Tio José. O local onde o mendigo descansa, “à sombra de uma figueira” também se configura em um lugar comum aos actantes- oponentes desta narrativa, pois é também debaixo de uma árvore que João Ferrador e José Tomás tramam contra Manuel, como vemos pelo discurso do narrador:
Horas antes, na manhã desse mesmo dia, o João Ferrador tinha se encontrado com o pai de Rosa, e os dois, muito chegados, haviam estado de conversa à borda de um caminho – debaixo de uma figueira (COELHO, 1997, p. 229).
Após o plano contra Manuel ter sido executado e os actantes-coletivos começarem a atuar, a personagem surge já inserida no “lameiro”, ou seja, já é vítima da trama sórdida do amo, proprietário das terras. Pela voz do narrador, tem-se a descrição da situação:
... Mas ao tempo a que isto se passava, o Manuel Maçores, lá baixo, era procurado no lameiro por uma mulher! (COELHO, 1997, p. 233).
É relevante ressaltar que Manuel encontra-se “lá baixo”, ou seja, sua posição social e moral é inferior aos demais neste momento da intriga. Os actantes que o condenam estão dispostos em lugares mais elevados e o olham de cima:
Quando daí a pouco, desaustinado, o rapaz vadeava o rio, os do moinho ainda o conheceram:
– Lá vai ele! Olha! Ou é o diabo por ele! – Lá vai ele! – É ele!
E de pé num morro de fraga, uns poucos inda gritaram, acenando- lhe com os chapéus e atirando-lhe pedras (COELHO, 1997, p. 234).
O termo “fraga” que surge no trecho anterior significa “penhasco”, causando no leitor uma impressão ainda maior da distância psicológica que separa o protagonista das demais personagens que o acusam. O rio mencionado aparece, inicialmente, no segundo parágrafo, quando tudo estava tranqüilo e Manuel se encontrava em uma posição superior, acima do seu leito:
Entre choupos, lá baixo, o rio ia azul – daquele azul vivo do céu, que nem uma só nuvem, ao alto, maculava (COELHO, 1997, p. 225).
Após as adversidades, Manuel encontra-se a vadear no leito deste mesmo rio, abaixo de onde estava a princípio. O rio era imaculado, a moral da personagem também, mas agora se vê no mesmo nível de um de seus opositores:
... Bem calculado, àquela hora já o João Ferrador estava da outra banda do rio, com os cabos e o regedor, alarpardados num monte de silvas (COELHO, 1997, p. 234).
As condições sociais, implicitamente aludidas na menção ao espaço, denotam a exploração do rico proprietário em relação aos demais trabalhadores. Conforme se nota pelos diálogos em discurso direto das personagens, pelo menos três homens dormiam no palheiro, incluindo Manuel. Portanto, a ausência de uma descrição do local onde o protagonista vivia deve-se ao fato deste realmente não possuir um teto. Tem-se apenas a menção de seus ambientes de trabalho e da casa do próprio José Tomás.
Em Singularidades de uma rapariga loura, há uma forte tendência realista de descrever minuciosamente o espaço, de forma a demonstrar também como este ambiente exterior influencia a personagem em transição, como apontamos ao final do primeiro capítulo. No entanto, enquanto o conto queiroziano ocupa-se da crítica ao Romantismo e da divergência entre as aparências e a essência no convívio social, o conto trindadiano preocupa-se em retratar fielmente a vida rústica do campo e as injustiças sociais. Dessa forma, enquanto o quarto de Macário é descrito em um longo parágrafo ininterrupto, com especial ênfase à sua escrivaninha, o local em que Manuel , que é analfabeto, dorme é inserido em um simples diálogo, que dispensa descrição:
– Comas minhas mãos! E disse-me ainda agora o José Felício, que dorme também no mesmo palheiro, que ele essa noite não foi lá! (COELHO, 1997, p. 232).
Portanto, apesar das diferenças, Trindade Coelho busca sempre associar a psicologia das personagens com as paisagens de modo a formar um todo significativo e Eça de Queiroz nunca separa a caracterização de suas personagens do espaço em que vivem, o que torna ambas as obras fiéis representantes do movimento realista.