A criança 12 é do sexo feminino, tem 10 anos de idade. Acompanhada pela mãe, que se interessou pela pesquisa e concordou em participar. Já a filha não entendeu na primeira explicação, pediu que repetisse e finalmente concordou em participar também. Foi internada com uma infecção no rim esquerdo.
12.1) Entrevista Semi-estruturada:
Na entrevista a criança disse que estava internada porque estava com infecção nos rins. Nunca esteve em outro hospital, mas pelo que já viu na televisão aquele era mais calmo e mais bonito. Disse que na televisão é sempre triste ver hospitais e que aquele era mais alegre. A criança 12 destacou um fator interessante, pois, geralmente, na televisão, os hospitais são mostrados em reportagens que denunciam algum problema ou em programas e seriados que apresentam o dia a dia de um pronto socorro. Esses tipos de estímulos podem estar interferindo na aversão de algumas crianças ao ambiente hospitalar.
A criança 12 disse que gosta de ir no jardim, mas só foi uma vez. O lugar que ela mais vai é a sala de recreação. Sempre que abre a salinha ela vai para lá. Já fez pintura com a mão, desenhos e brincou com massinha e gostou mais de brincar com massinha.
Para ela fazer essas atividades é legal e engraçado, mas não sabe se melhoram a saúde.
Disse que foi no jardim quando estava “um solzinho”. Mas que o tempo não ficou bom para ir novamente. Quando foi ao jardim levou um livro e a mãe ficou lendo para ela, sentada no banco.
Disse que achou legal ir no jardim e se sentiu bem. Não tem nada que gostaria de fazer lá que não possa. Também não tiraria nada do lugar “nem a cesta de basquete, que não tem nada a ver”. Mas se pudesse, colocaria rosas de todas as cores espalhadas pelo jardim.
Como ainda era de manhã, foi combinado que, se fizesse sol, ela iria ao jardim naquele mesmo dia, à tarde.
12.2) Observação no jardim do hospital:
O tempo estava agradável, o sol apareceu, mas não fazia calor. A criança foi ao jardim com a mãe e quando a pesquisadora chegou no horário combinado, elas já estavam lá. A mãe estava sentada no banco e a filha em pé, em frente a ela, conversando.
Figura 13: Mapeamento da criança12 no jardim do hospital no período de observação.
Ficaram conversando, a mãe sentada no banco e a criança 12 continuava em pé em frente à ela. Isso por cerca de cinco minutos, depois que a pesquisadora chegou.
Depois a menina começou a andar pelo jardim. Foi até o canteiro de flores que fica em frente à entrada, foi tocando as flores dos cantos e parou um pouco ali. Elogiou as flores, mas disse que faltavam outras flores diferentes daquela no jardim. Mas disse que aquelas eram lindas e sorriu. Disse que gosta de rosas e que colocariam as rosas ali. Novamente percebemos que o que foi dito na entrevista foi recolocado pela criança durante a observação no jardim.
Depois foi andando até o outro banco e sentou-se ali. Acenou para a mãe, que não respondeu, parecia sonolenta.
A criança continuou andando até a casa que tem pintada na parede. Disse que ia pintar a sua casa e simulou um pintor passando tinta na porta e nas paredes da casa. Depois de pintar a casa toda disse “que pena, ficou da mesma cor!” e a mãe deu risada e ela também, depois que a mãe começou a rir.
Foi andando até o outro canteiro de flores, tentou tocar as flores que ficam atrás, sem acesso porque o canteiro fica encostado. Depois andou até o canteiro maior de plantas e pedrinhas e entrou nele, até onde fica o vaso de planta, tocou as folhas da planta e voltou para o banco onde a mãe estava, já cochilando. A criança acordou a mãe que se levantou assustada e sentou-se novamente. A mãe perguntou se queria voltar e a filha disse que sim.
Refeitas as ultimas perguntas da entrevista semi-estruturada, a criança 12 disse que não tiraria nada dali, mas que queria ver mais flores de outras cores, como o jardim que tem perto da casa dela. Acrescentou seu gosto pelas rosas e disse que no jardim da casa dela não tem rosas também. Perguntada sobre o jardim que conhece, disse que era diferente porque tem brinquedos e muitas crianças brincam lá, nunca fica vazio. A mãe acrescentou que é uma praça que tem próxima a casa delas e que os vizinhos também vão.
Disse que gostou muito de ir no jardim e que o tempo estava muito gostoso. Disse também que se sentia muito bem em ir no jardim e que achava que melhorava a saúde dela.
Pediu a mãe para voltar e as duas voltaram abraçadas para o quarto.
12.3) Resultados da Escala de Qualidade de Vida:
A criança 12 foi a criança que respondeu um maior número de questões como “muito feliz” durante a aplicação da escala.
No entanto, antes, sobre os exemplos de resposta negativa, disse que fica “muito infeliz” quando pensa nas pessoas que já morreram por causa de infecção no rim. Disse que já viu isso na televisão. Aqui é válido ressaltar que, na entrevista inicial, disse que
não gostava dos hospitais que via na TV, dizendo que o que ela estava era mais bonito e mais calmo. A criança 12 disse que fica “infeliz” quando pensa coisas ruins, achando que não vai melhorar de saúde e que não vai voltar para casa.
Para as respostas positivas, disse que fica “feliz” quando recebe visita de pessoas legais e fica “muito feliz” quando ganha presentes, sempre. Não só no hospital.
Os quatro fatores, autonomia, lazer, funções e família foram marcados por questões positivas, com poucas exceções. Disse que fica “infeliz” quando vai a uma consulta médica, quando faz lições de casa, quando fica internada no hospital, quando dorme fora de casa e durante as férias. Disse que fica “muito infeliz” quando pratica um esporte, quando está longe da família e quando está com os avós, porque prefere ficar na casa dela. Para as demais questões foram todas respostas positivas, “muito feliz” na sua grande maioria, com apenas 4 questões como “feliz”. Isso deu a ela um escore de 55 pontos, denotando boa qualidade de vida.
Em relação ao jardim do hospital, disse que fica “feliz” e não fez nenhum outro comentário, apenas que gostou de participar da pesquisa.
12.4) Análise geral da criança 12:
A criança 12 se mostrou preocupada com a sua infecção no rim, por outro lado, durante a observação no jardim brincava normalmente, embora tenha dito que no jardim próximo a casa dela tem mais brinquedos e os amigos que vão para lá, comparando assim os dois espaços. Ainda no jardim, ela elogiou os elementos naturais presentes, os explorou, até mesmo as flores que estavam fora de alcance, e sugeriu a presença de mais flores, coloridas, e destacou sua preferência por rosas.
A simulação de que estava pintando sua casa também denota uma apropriação daquele espaço, mesmo que não o modificando concretamente, fez uma “tentativa”.
Durante a observação no jardim a criança relatou verbalmente as suas percepções referentes ao clima e a temperatura. Também já havia falado disso na entrevista, quando disse que foi ao jardim quando estava um “solzinho”. A criança 12 mostrou que o ambiente estava exercendo influência no comportamento dela, quando diz que não teve um bom tempo para voltar ao jardim.
Durante a escala de qualidade de vida ficou comprovada a sua preocupação com a saúde e com o seu rim e, conforme o resultado da escala, podemos perceber que isso não interfere na sua qualidade de vida, pois aproveita as atividades que faz, com exceção da prática de esportes, que foi uma questão marcada por ela como “muito infeliz”.
A criança 12 se destacou pelo grande número de respostas como “muito feliz”, o que pode demonstrar que sabe aproveitar os momentos de sua vida com alegria. Mesmo com um número alto de questões respondidas como “muito feliz”, para o jardim do hospital disse que fica “feliz”, talvez ficasse “muito feliz” com as alterações sugeridas por ela durante a observação.