O segundo perfil analisado traz um diferencial em sua linguagem: a utilização de gírias gaúchas, embora o dono do perfil seja natural de e residente em Angicos/RN19. Aqui, a personalização proposta por Lipovetsky (1983) assume formas
bastante claras. Através de escolhas lexicais distintivas da região Sul do Brasil, especialmente pelo uso de gírias e regionalismos, o usuário molda uma identidade linguística que descaracteriza sua origem e o aproxima de uma outra cultura, que não a local. No entanto, tratar de local no ambiente virtual requer ressignificá-lo. O usuário da internet é cidadão do mundo, partícipe de um conjunto global de saberes e indivíduos. Assim, a noção de localidade é continuamente móvel, corroborando com os estudos culturais em sua perspectiva de pós-modernidade e deslocamento das identidades, como percebemos, por exemplo, em Hall (2012, p. 108), para quem “as identidades estão sujeitas a uma historicização radical, estando constantemente em
processo de mudança e transformação”. Notemos, nos tweets que analisaremos em seguida, que ora o usuário se utiliza de gírias gaúchas, tentando demarcar uma identificação regional com o Sul do país (como em bah e tri) 20 e ora se serve de gírias
nordestinas, como se lhe deixassem escapar as marcas de uma tradição oral do seu lugar de origem (como em eita e vishi)21.
Trata-se de um usuário que demonstra apreço pela leitura, o que se pode observar em tweets que estão para além dessa análise, mas que não evidencia entusiasmo suficiente quando o assunto é escola. Suas primeiras postagens trazem uma percepção de preocupação ou mesmo desânimo em relação à condição de vestibulando. Vejamos:
Tweet 01 - @_grauna
Tweet 02 - @_grauna
No Tweet 01, temos a primeira referência às aulas elaborada pelo usuário no ano de 2012. Diferentemente do que acontece com praticamente todos os outros usuários analisados, @_grauna não realiza postagens que sinalizem, antecipadamente, o início do ano letivo, ou mesmo o reencontro com os colegas de sala. Aqui, as aulas já começaram, como ela mesma cita, embora a “insônia de férias” persista. Essa primeira observação já dá indícios de que o usuário compreende uma nova responsabilidade, com a volta às aulas. Além disso, o emotion utilizado no final da postagem indica uma insatisfação em relação a este comportamento.
No Tweet 02, o emotion se repete, agora sinalizando insatisfação em relação à nova rotina. A identidade do vestibulando é marcada pela diferença em relação ao que
20 Tweets 6, 7, 8 e 9.
vinha acontecendo nas demais séries da educação básica, percepção dada por Hall (2006), quando da tentativa de definir identidade. Aqui, @_grauna compreende que o ser vestibulando traz a ele novas condições de estudo. No entanto, a espera pelos textos do @1bertoGessinger aparece como atividade paralela. Temos, de um lado, um leitor ansioso. De outro, quase que em posição contrária, um estudante insatisfeito com os “novos ritmos” que o vestibular lhe impõe. Tais posições que parecem contrárias alertam para a compreensão das competências em torno da leitura entre os jovens estudantes, ao gerar uma espécie de contradição entre a atividade leitora e o estudo dos componentes curriculares. Nos três tweets seguintes, a insatisfação do aluno em relação às práticas escolares persevera:
Tweet 03 - @_grauna
Tweet 04 - @_grauna
Tweet 05 - @_grauna
Como se pode observar, no Tweet 04, o emotion representando insatisfação continua a aparecer, agora em relação ao evento aula. A partir de sua colocação, que soa como um desabafo, @_grauna reconhece ser a aula uma atividade importante do seu cotidiano ou da qual não deve desviar. No entanto, não é algo com que se entusiasma. A falta de entusiasmo reaparece no Tweet 05, quando o usuário escolhe evitar falar em vestibular, o que comprova sua nada boa relação com a condição de vestibulando em que se encontra. No Tweet 03, percebemos um sutil empenho pelas
atividades escolares, facilmente desconstruído pelos tweets seguintes. Notemos, nessa sequência de postagens, que @_grauna, especialmente nos tweets 03 e 05, realiza interlocução com os seus seguidores na rede social, por meio de uma despedida e da utilização do verbo no imperativo plural, respectivamente. Essa característica presente em suas postagens evidencia o caráter conversacional do ambiente midiático do Twitter, como recobram Santaella e Lemos (2010, p. 78).
A identidade do vestibulando @_grauna continua, ao longo do tempo, sendo desenhada por uma linguagem que denota desânimo e incoerência em relação à nova rotina por ele evidenciada no início do ano letivo.
Tweet 06 - @_grauna
Tweet 07 - @_grauna
As práticas que antes tomavam conta de sua noite, evidentes no Tweet 03, assumem, no Tweet 06, uma outra dinâmica, a da brevidade. A preocupação em não faltar às aulas (Tweet 04) aparece, no Tweet 07, numa constatação da aula que já foi perdida. O senso de responsabilidade vai se transformando ao longo do tempo, embora a preocupação pareça persistir, como podemos ver no emotion utilizado no
Tweet 07, representando assombro. Temos, aqui, a celebração móvel da identidade
(HALL, 2006) de @_grauna enquanto vestibulando. Esse caráter de mudança é também perceptível no Tweet 08, como podemos ver adiante.
A utilização da gíria tri (redução de trilegal, gíria gaúcha) mostra uma outra identidade do vestibulando, agora entusiasmado e utilizando-se de emotion avesso às sensações de insatisfação que predominam em seu discurso. Mas essa não é uma identidade resistente. Vejamos o que acontece nos tweets 09 e 10.
Tweet 09 - @_grauna
Tweet 10 - @_grauna
A expressão “Mimimi” utilizada no Tweet 09 reflete reclamação, insatisfação, o resmungar diante da impossibilidade da leitura. No Tweet 10, a escola é lugar de dor
da alma. Parece haver uma gradação das percepções de @_grauna em relação ao
cotidiano acadêmico, predominando a identidade de um aluno insatisfeito enquanto vestibulando.