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Lørenskog

In document Putting the Citizen First (sider 53-58)

4 Empirical findings

4.4 Lørenskog

Traçada a definição de Spacescape, neste capítulo, delineiam-se os elementos que constituem a sua identidade.

São avaliadas quatro categorias: ambiente, paisagem, território e lugar, que compartilham o conceito de liminalidade (limes que etimologicamente significa: linha imaginária convencional, estabelecida de modo artificial ou em correspondência aos

44 limites fixados pela natureza). Este conceito compreende as variantes de confim (derivado do latim confine, composto de còn + fìnis que tem um fim em comum e assinala em termos uma propriedade ou um território) ou fronteira e de singularidade. As duas características desenvolvem o status e o modo de simbolização da natureza no domínio das construções culturais (Bonesio, 2000: 15).

Manifesta o confim o seu caráter fundamental: assinalar o lugar de uma diferença, real ou presumível. Para os antigos, desenhar um confim, é contar a história da relação da terra e do céu; o lugar não é escolhido pelo homem, mas é-lhe dado como tal pelos deuses (Zanini, 1997). Ou seja, traçar um confim, realizando um sulco ou fratura significa redesenhar na terra a ordem cósmica estabelecendo as relações entre o sacro e o profano.

Quais seriam, então, os atributos do marco do lugar, na perspetiva de um espaço que intervém entre as coisas, que dá espessura, corporeidade ao confim, que lhe separa ou une, atuando como uma margem externa. A este propósito Claudio Magris (1986), escreve: “[…] i confini muoiono e sorgono, si spostano, si cancellano e riappaiono inaspettati. Segnano l‟esperienza, il linguaggio, lo spazio da abitare, […], il pensiero e le sue mappe dell‟ordine”.

Fundamentalmente, é o senso de territorialidade que torna evidente o fato de que: “essere alloggiati significa cominciare ad essere” (Raffestin, 1992:174), assim o confim é compreendido como território contentor da dimensão humana, das suas histórias, do relacionar-se com os outros. Frequentemente, o confim transforma-se em fronteira (borderlands) ou finis terrae apresentando característica restritiva que se delineia como último limite. Ultrapassar a fronteira assemelha-se a um salto para o desconhecido, um aventurar-se em terras selvagens. Abandonar o espaço familiar e conhecido coloca em prova a têmpera e as qualidades físicas e psíquicas do indivíduo.

A passagem do conceito de confim para o de fronteira é marcado, pelo menos nas línguas latinas, como a predisposição que permite olhar a face do outro, medir-se frontalmente; e significa “permanecer imóvel frente a…”; ou seja, parar o avanço sem necessariamente ultrapassar os confins. A fronteira manifesta precariedade ou disponibilidade em direção à mudança. A mobilidade da fronteira como confim transladável é verificada na geografia étnica e cultural do deslocamento dos rebanhos dos nómadas nas estepes da Mongólia, onde o sinal de confim (marcador do horizonte da fronteira, e em última análise do limes) é colocado no animal e se modela com o seu

45 deslocamento. O nómada permanece no interior desta fronteira móvel, traçando e seguindo um mapa mental interno.

Bradley num dos seus textos sobre a paisagem desenvolve arqueologicamente tais transformações em termos de singularidade e liminalidade.

Informa que o conceito de singularidade emerge como qualidade intrínseca dos lugares naturais, porque:

“[...] acquire a significance in the mind of people in the past [...] but one way of recognizing the importance of these locations is through the evidence of human activity that is discovered there” (Bradley, 2000: 35).

Posteriormente esclarece que a liminalidade é relativa às transformações culturais da paisagem através da fundação, modificação e alteração das estruturas monumentais, assim como das atividades antrópicas associadas:

“[…] having faced this difficulty, we must address a still more basic question: what do monuments in places where they built? This deceptively simple question has many answers. The first development is perhaps the most basic of all. The construction of monuments in places with an established significance transforms the entire way in which those locations are experienced. The building of walls and terraces at the peak sanctuaries changed the character of these places” Bradley (2000: 104).

Do ponto de vista filosófico, a relação entre lugares e história foi tratada por Paul Ricoeur (1998) no seu Das Rätsel der Vergangenheit. Erinnern-Vergessen- Verzeihen discorrendo sobre reenactment do passado através de um texto. Neste caso, entende-se por texto as estruturas monumentais que separam os locais sacros das áreas profanas, os lugares dos mortos dos locais dos vivos. Assim, o ato de revisitá-los produz recordações, estrutura as memórias e, frequentemente, indica a estrada do perdão (Ft 1a-1b, p. 46).

Experimentámos em 2003, esta conceção ricoeuriana, ao sermos convidados pelo Dr. Andreas Tvauri, professor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tartu, na Estónia, a ministrar aulas sobre arte rupestre. Terminado o seminário, visitou- se um cemitério, mergulhado num bosque numa localidade próxima da fronteira russa, nas margens do lago Peipsi: a área do perímetro do cemitério praticamente coincidia

46 com o próprio bosque. Todas as árvores seculares apresentavam entalhes cruziformes, profundos e cicatrizados ou frescos e ainda abertos. Isto porque, cada vez que um visitante sai da área do cemitério faz uma cruz na casca de uma árvore, de modo a traçar um limite intransponível para as almas defuntas. Marcar o território não é só um gesto de testemunho e memória, mas também de esquecimento.

7Ft 1a: novembro de 2003 (esquerda). O autor na entrada de cemitério rural na proximidade do lago Peipsi, na Estónia. Fonte: ARQUIVO FOTOGRÁFICO HERAC – AUTOR, Α-ΒΛΣ, 1

8Ft 1b: novembro de 2003 (direita). Os troncos das árvores têm sinais de crucifixos. Pela tipologia da cruz pode-se estabelecer uma datação relativa. Fonte: ARQUIVO FOTOGRÁFICO HERAC – AUTOR, Α-ΒΛΣ, 2

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