Segundo Moral (2006), o conceito de adolescência nasceu no Ocidente e vincula-se às sociedades industriais. A partir dessa época, os jovens eram vistos como um grupo social de status, sobretudo com a Revolução Industrial. Moral (2006, apud Marriane Seyter, 1972), aponta que, como o século XVIII criou um rótulo para o processo de desenvolvimento da criança, chamando-o de “infância”, viu-se imediatamente obrigado a inventar a “adolescência”. O estado da adolescência passa a ser um estádio diferenciado e
uma condição. Ao final do século XIX e começo do século XX, a educação obrigatória até as idades mais avançadas, a promulgação das leis que proibiam o trabalho infantil e a responsabilidade limitada dos jovens motivaram a invenção de uma etiqueta para designar o estádio da adolescência que aparece como necessidade das sociedades ocidentais.
Ao final do século XIX e começo do século XX, aparece o primeiro conceito de adolescência na Psicologia evolutiva, sob a influência do psicólogo Stanley Hall, que escreveu um tratado da adolescência, tornando-se a base a partir da qual se fundou o estudo da adolescência. Este tipo de estudo caracteriza a adolescência como um processo natural, o que a classificou de “naturalização”, já que não considera as influências sociais que sofre o adolescente, como afirma Ozella (2003). Stanley Hall define a adolescência como:
...uma idade especialmente dramática e tormentosa, na qual se produzem inumeráveis tensões, com conduta instável, entusiasmo e paixão, pelo que o adolescente se encontra dividido entre forças opostas. Além disso, a adolescência propõe um corte profundo com a infância; a partir desse momento o jovem consegue alcançar atitudes humanas mais elevadas,... comenta Dávila (2004, apud Delval, 1998).
A partir daquela definição e graças aos meios de comunicação, foi que se generalizou esse tipo de concepção, considerando o adolescente como indomável e rebelde. E logo veio a se discutir, com a teoria de Erikson, a questão da crise de identidade do adolescente. Este autor afirma que a adolescência é um período crucial para a formação da identidade. Ele insiste que neste estágio o indivíduo pode localizar seu “eu” no tempo e no espaço, reconhecendo, ao mesmo tempo, que teve um passado único e vislumbrando um futuro também pessoal para si próprio. Ele aponta que “o que ocorre precisamente durante a adolescência é, em muitos aspectos, determinado por aquilo que ocorreu antes, mas também determina muito do que se seguirá” (1968, p. 23).
Consideramos que Erickson era uns dos teóricos da psicologia que mais se aproximava da psicologia social, porque ressaltava que o adolescente para desenvolver sua
identidade era influenciado pelo passado (o que foi na sua infância) e pelo futuro (o que será depois como adulto), enfatizando a categoria de tempo na sua teoria. Em alguns momentos, comenta sobre a influência dos outros indivíduos para a formação da personalidade do jovem, porém se perde ao definir a adolescência como uma fase bem naturalista. Mas não podemos deixar de reconhecê-lo pelos aportes conceituais da adolescência, como “a crise normativa” e a “moratória”.
Erickson, através de seus estudos, percebeu que o adolescente passa por crises de identidade até amadurecer, até chegar ao que ele realmente vai ser. Nesse processo de crise, o adolescente apresenta a moratória; é o tempo de espera, no qual o jovem se prepara para a vida adulta, ou o período dilatado de espera vivido pelos que já não são mais crianças, mas ainda não se incorporam à vida adulta, segundo Kehl (2004). Como Erickson apresentou no seu primeiro livro casos clínicos, ficou conhecido como teórico da “tempestade e tormenta” ( Gallatin, 1978).
De acordo com esse panorama, a adolescência era considerada um período de grande turbulência, tensão e agitação. Os adultos consideravam-na uma idade difícil de lidar. Abramo (1994), citado por Calazans, postula a existência de três esferas de crise
potencial, na fase do ciclo vital: a crise de puberdade, associada às transformações corporais (principalmente o desenvolvimento das características sexuais secundárias), a crise da adolescência, relacionada ao processo de desenvolvimento da identidade, e a crise da juventude, relacionada às dificuldades de adequação ao mundo do adulto, questionando as normas e instituições sociais.
Foi por causa da divulgação do termo crise juvenil que se tornou difícil a relação do adolescente com os adultos, suscitando a ruptura da integração social do jovem, e além disso, dificultou a transmissão da herança cultural e da própria ordem social vigente aos jovens. Este problema teve conseqüências tanto para o jovem quanto para a sociedade. Para o jovem, o temor e a insegurança diante das possibilidades de desorganização social e, para a sociedade, ter de enfrentar a resposta do jovem através da formação da cultura juvenil negativa como a formação de delinqüentes, gangues, narcotráfico, etc.
A adolescência na atualidade é definida por Kehl (2004) como a incompatibilidade entre a maturidade sexual e o despreparo para o casamento; entre a aquisição de força física e a falta de maturidade emocional e intelectual para o mundo do trabalho. Por outro lado, o aumento progressivo da escolaridade, do mundo competitivo do mercado de trabalho nos países capitalistas e da escassez de empregos obriga o jovem a viver mais tempo na condição de ‘adolescente’, dependente da família, incapaz de decidir o seu destino. Por esse motivo, a economia capitalista aproveita-se dessas circunstâncias: para que o adolescente seja considerado cidadão é preciso que se torne um consumidor em potencial. Os adolescentes parecem conformados em fazer da luta pela cidadania uma simples afirmação dos direitos do consumidor, cuja imagem é difundida pela televisão e pela publicidade, possibilitando a identificação de todas as classes sociais.
O consumo e a adolescência favoreceram o aparecimento de uma cultura adolescente muito hedonista, sobretudo da classe média, segundo Kehl (2004). Ele se transformou num modelo de beleza, liberdade e sensibilidade. Da mesma forma, o adolescente pós-moderno desfruta de todas as liberdades da vida adulta, mas é poupado de quase todas as responsabilidades. A sensualidade do adolescente transmitida pela mídia, a busca de prazeres e novas sensações do corpo e a liberdade incluem todos os adolescentes.
O consumo abriu um paradoxo no campo das identificações imaginárias, a cultura jovem convoca pessoas de todas as idades. O fato de continuar sendo jovem é ótimo e rentável para a indústria e a publicidade. Pelo menos, nas últimas décadas viramos jovens perenes, comenta Kehl (2004).