Todas essa visões apresentadas, mesmo que muito bem argumentadas, parecem tentar negar que a parte inerente à tradução é exatamente a produção de divergências de ambos os lados da tradução, na medida em que tendem a negar a possibilidade ou a força prática das outras para poder se afirmar. No entanto, segundo penso, não há porque recuperar completamente o texto original nem se manter por inteiro em sua própria terra natal ao traduzir: a tradução traz
diferenças para ambos os lados, revendo a tradição e sempre propondo outros lugares, não pela reconstrução formal ou ideológica do original, mas pelo simples fato de que ela é uma ponte fragmentária entre dois pontos que passam a se tornar interdependentes sem nunca se tocarem. A tradução passa a ser esse novo local, onde os pontos se interagem sem se tocarem, não numa síntese harmônica, mas numa potência de choques infinitos. É nessa medida que as línguas se encontram, e a do texto original finalmente pode interferir no novo texto que se produz, mesmo que o tradutor não queira, mesmo que ele queira apagar a forma original; pois algo diverge a todo instante, mesmo que ele busque fazer uma tradução semântica; então não se sabe mais onde se está, em qual forma se apoiar, ou se esse novo texto realmente pode ser afirmado como nova obra. De qualquer modo, “nenhuma teorização, desde o momento que ela se produz em uma língua, poderá dominar a performance babélica” (Derrida, 2002, p. 26); pois, no fim das contas, resta sempre a diversão.
O que venho tentando demonstrar não é de forma alguma uma espécie de erro ou falha no argumento dos teóricos que comentei anteriormente: como afirmei no começo, penso que se deve avaliar uma tradução pela sua relação com seus próprios objetivos; e, se cada um desses teóricos estipula objetivos próprios, isso só pode ser melhor, pois produz mais diversão entre as traduções. Porém, se eu tomar apenas um deles como método de avaliação de traduções alheias, tenderei a um tipo de parcialidade que pode se tornar, essa sim, ingênua (e não, como julga Haroldo de Campos, as traduções em prosa ou semânticas), por ser prescritiva de um método alheio, enquanto toda produção de método deveria ser bem vinda. Desse modo, eu poderia assumir a fala de Antoine Berman:
Je veux me situer entièrement hors du cadre conceptuel fourni par le couple théorie/pratique, et remplacer ce couple par célui d’expérience et de réflexion. Le
La traduction est une expérience qui peut s’ouvrir et se (re)saisir dans la réflexion. Cette réflexion n’est ni la description impressionniste des processus subjectifs de l’acte de traduire, ni une méthodologie (1999, p. 16)27.
Esse afastamento do eixo teoria/prática, por outro lado, também não quer valorizar ou instaurar o “vale tudo” sem critérios: eu viso a apontar a necessidade de o tradutor se afirmar como um criador que não repete o original, mas que também não se culpa pela produção de divergências que a tarefa tradutória acarreta, pois é por meio dessas divergências que se torna possível qualquer tradução. Com isso, não teorizo, mas faço uma reflexão acompanhada de minha própria experiência tradutória, embora tome aspectos de cada uma dessas teorias da tradução, como a busca:
i – do que é estrangeiro em minha língua (Benjamin), mas descartando sua metafísica;
ii – de uma revisão estética do original (Haroldo), mas sem um combate, e sim um debate agônico com o original; e
iii – de manter parte do que me passa, me transpassa, da ideologia de Propércio (Meschonic), afastando-me de uma dicotomia entre forma e conteúdo, porém sem desejar apenas receber ideologicamente.
Assim, não nego a busca de semelhança que toda tradução intenta – se não houvesse essa busca, isso seria uma criação de uma nova obra particular ex nihilo (o que não existe sequer na criação
27 “Quero me situar inteiramente fora do quadro conceitual apresentado pelo par teoria/prática, e substituir esse par
pelo da experiência e da reflexão. A relação entre experiência e reflexão não é a mesma que entre a prática e a teoria. A tradução é uma experiência que pode se abrir e se (re)tomar na reflexão. Essa reflexão não é nem uma descrição impressionista dos processos subjetivos do ato de traduzir, nem uma metodologia.”
de um original), e a tradução também não é exatamente isso – mas defendo que é preciso passar a buscar na diferença produzida também um louvor à tradução, deixando de lado a culpabilização babélica que nos leva a buscar uma unidade perdida entre os dois textos, em qualquer aspecto que seja. A unidade nunca se perdeu, pois ela seria o estado de perene estagnação, e somente graças à falta de unidade e de sua possibilidade é que podemos ter prazer na tradução, sem o mero interesse de comunicação verbal, mas ainda assim o buscando. “Então o velho mito bíblico se inverte, a confusão das línguas não é mais uma punição, o sujeito chega à fruição pela coabitação das linguagens, que trabalham lado a lado: o texto de prazer é Babel feliz” (Barthes, 2002, p. 8).
Desse modo, penso e busco em minha prática uma tradução que se assuma como produtora de diferença e veja nisso sua única possibilidade, já despida de todos os purismos (semântico, formal ou ideológico), para se tornar um texto de prazer que abraça a Babel, sem interesse na unificação entre as línguas, mas sim na diversão. Somente pondo abaixo a torre em que se protege o mito do traduttori/traditori, somente renegando as normas de equilíbrio e de pureza às quais somos tão acostumados, poderemos fruir, livres da culpa, da diversão tradutória.