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Para essa análise fez-se uso das medidas propostas para cada uma das duas dimensões relacionadas à folga organizacional:

• Absorvida: caracterizada pela menor facilidade de realocação dos recursos disponíveis que as compõem (exemplos: máquinas dedicadas, pessoal especializado).

• Não-absorvida: caracterizada pela maior facilidade de realocação dos recursos disponíveis que as compõem (exemplos: recursos financeiros, pessoal não dedicado/não-especializado).

16.3.1 Folga Absorvida e Folga Não-absorvida

Para analisar a dimensão da folga organizacional absorvida, dois elementos-chave foram observados dentro das organizações e nos grupos de estudo: capacidade instalada e recursos humanos dedicados à atividades específicas.

Com relação à utilização da capacidade instalada, nenhuma das empresas afirmou que têm feito – nos últimos anos – plena utilização de todo o seu potencial produtivo. Essa situação foi percebida em todos os três grupos (AT, MT e BT). Diversos dos entrevistados afirmaram que as empresas em que atuam “têm operado em uma

capacidade alta, mas não máxima” havendo espaço para eventuais incrementos de

produtividade.

Por sua vez, com relação aos recursos humanos observou-se comportamento diverso nos entre os três grupos estudados. No grupo AT observou-se a mais alta concentração de especialistas e pessoal dedicados à atividades específicas. Esse fato reflete em uma menor mobilidade destes recursos humanos em quaisquer novos desenvolvimentos ou projetos de inovações, pois, “existem competências e

especializações que não permitem o deslocamento para qualquer novo projeto”,

segundo um dos entrevistados nesse grupo.

Já no grupo MT observou-se uma concentração um pouco menor de especialistas e pessoal dedicados à atividades específicas quando comparado ao grupo AT. Esse fato reflete algum grau de flexibilidade na alocação destes recursos humanos em quaisquer novos desenvolvimentos ou projetos de inovações, uma vez que, “a

empresa tem cada vez mais tentado criar grupos de desenvolvimento multifuncionais, mas muitas das atividades e da rotina não permite essa diversidade”, a partir das palavras de um dos entrevistados.

No grupo BT, comparativamente aos grupos MT e AT, apresentou a menor concentração de especialistas e pessoal dedicados à atividades específicas,

permitindo maior mobilidade de pessoal para novos projetos e desenvolvimentos. Das palavras de um dos entrevistados desse grupo: “cada vez mais nós estamos

trocando as pessoas de lugar a cada novo desenvolvimento, e hoje existe uma equipe enxuta que é multidisciplinar”.

Uma nota acerca do efeito da presente crise mundial faz-se necessário nesse ponto das discussões. Todas as empresas da amostra, reconheceram os efeitos da crise de crédito mundial em sua atividades e metas; e pelo menos a metade delas apontou esse cenário como de oportunidades para algumas experimentações e melhorias, particularmente em processos. Contudo, estas mesmas empresas, também afirmaram que esse é o momento de cautela em novos desenvolvimento de produtos/serviços, sendo que “o melhor é focar esforços na geração de caixa ao

invés de arriscar em algum produto novo cujo mercado mal conhecemos” segundo

um dos entrevistados do grupo BT. Assim, a reação imediata após o início desta crise foi de “concentrar violentamente a energia em acertos e melhorias na operação

para otimizar os processos e reduzir os custos”, das palavras de outro entrevistado

também do grupo BT.

Com relação à dimensão da folga organizacional não-absorvida, a análise teve foco na disponibilidade de recursos humanos, financeiros e de infra-estrutura que poderiam ser alocadas em novos desenvolvimentos ou inovações.

Dessa maneira, complementando as análises anteriores, observou-se, em todos os três grupos AT, MT e BT, a existência de recursos humanos disponíveis que poderiam ser alocados em novos desenvolvimentos. Um caso em particular no grupo AT chama a atenção por ter comportamento diferente quanto a essa análise, “porque a estratégia é usar os [recursos humanos e infra-estrutura] no limite” sendo essa a justificativa encontrada para esse caso em particular.

Com relação à disponibilidade de infra-estrutura que poderia ser empregada em novos desenvolvimentos, observou-se o mesmo comportamento equitativo entre os grupos. Todas as empresas – a exceção daquela já citada – explicitaram algum tipo de disponibilidade de infra-estrutura para eventuais projetos de inovações ou melhorias, em produtos ou serviços.

Por sua vez, com relação à disponibilidade de recursos financeiros que são ou que podem ser empregados em inovações, o comportamento das empresas em cada grupo é distinto, conforme descrito no parágrafo a seguir.

Nos grupos AT e MT observou-se maior disponibilidade de recursos financeiros que poderiam ser aplicados em projetos de inovações ou melhoria, quando comparados ao grupo BT. Este último grupo também apresentou alguma disponibilidade de empenho de recursos financeiros em novos projetos, e um caso em particular chama a atenção nesse grupo. Uma empresa do grupo BT dispõe de recursos financeiros para novidades e melhorias no formato de um programa de sugestões, alocando investimentos para idéias e novidades de qualquer natureza.

Um aspecto adicional observado diz respeito ao efeito da folga organizacional sobre a capacidade de inovar da empresa na medida em que há excesso ou falta de folga na empresa. Conforme expresso por um dos entrevistados do grupo BT, “hoje com

metade dos funcionários [em referência a 2008, três anos após um grande processo de reestruturação e demissões ocorrido na empresa] geramos tantas idéias e melhorias quanto antes”. Ou mesmo a observação feita por um outro entrevistado do

grupo AT: “agora com a crise[após setembro 2008] estamos aproveitando a

diminuição das vendas, para organizar as coisas e fazer as melhorias necessárias ”.

Por estas e outras observações, a tendência verificada é de que em todos os grupos a falta de recursos – de quaisquer natureza – disponíveis na empresa, a partir de um determinado nível, diminui sua capacidade de implementar novidades. De outro modo, num outro extremo, o excesso de recursos, não diminui a capacidade de inovar de uma firma.

Entretanto, “nada disso faz sentido se não gerarmos valor”, como lembra um dos entrevistados ao tratar da questão dos recursos e programas de incentivo à inovação na empresa em que atua.

A seguir são apresentadas as análises relativas ao Desempenho das empresas da amostra de estudo qualitativo.