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Após a grande migração dos Xavante de Goiás para Mato Grosso, ocorrida no final do século XIX, esse Povo permaneceu isolado em seu ―novo território‖ de meados do século XIX até o início do século XX, com pouco ou nenhum contato com as frentes de expansão que buscavam ocupar as regiões do Centro-Oeste e norte do país. Nesse período, as fronteiras demográficas e econômicas centravam-se nos vales do Rio Guaporé e Pantanal, distante dos territórios Xavante (WELCH et al., 2013). Por conseguinte, quando os Xavante cruzaram o Rio Araguaia estabeleceram-se na região da Serra do Roncador, onde constituíram as comunidades de Sõrepré e Wedezé, que logo passariam por várias cisões ao longo do tempo e formariam outras comunidades, conforme indica o Mapa 03.

Baseado na história oral Xavante, Welch e outros (2013) afirmam que apesar de ter existido anteriormente outras divisões do Povo Xavante, uma das mais importantes refere-se à ocorrida na aldeia de Sõrepré, ocupada desde o final do século XIX até a década de 1920, momento em que ocorreu uma fase de intensos conflitos internos interrompendo uma fase na qual os Xavante se mantinham coesos politicamente, ou seja, ―mantinham uma estrutura de liderança única, baseada na reunião do conselho de homens (Warã23), que tomava decisões a partir do consenso, após ouvido os homens maduros‖ (WELCH et al., 2013, p. 55).

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Warã é o centro da aldeia e é onde acontecem às decisões sobre os rituais, cerimônias e reuniões. Todos os assuntos referentes à aldeia são discutidos no Warã, numa reunião exclusiva para homens adultos.

Mapa 03 – Localização das antigas aldeias Xavante Sõrepré, Etênhiritipá, Asereré, Arobonhipo´opá, Pazahoi´wapré e Wedezé.

Fonte: Welch et al. (2013).

Após as várias cisões a partir de Sõrepré, diversos grupos passam a formar novas aldeias com autonomia política, respeitando as decisões de seus próprios Warã.

De acordo com Graham (2008, s/p):

Durante o século XIX e a primeira metade do XX, distintos grupos migraram mais para oeste, fosse margeando o Rio das Mortes, fosse em direção às áreas do rio Suiá-Missú e das cabeceiras do Rio Kuluene. Até a terceira década do século XX, todos eles viveram relativamente livres das perturbações provocadas por membros da sociedade nacional.

Durante esse período em que os Xavante permaneceram isolados, Welch et al. (2013, p. 24-25) afirmam, a partir da oralidade dos Xavante de Wedezé e Pimentel Barbosa, que estes

[...] constituíam um grupo politicamente unificado e de alta mobilidade, vindo a constituir sua primeira aldeia de longa duração (ou ―permanente‖) em Wedezé, na margem direita do Rio das Mortes, onde resistiram por vários anos. O local foi ocupado por muitas décadas e habitado pela população Xavante, que seria próxima de duas a três mil pessoas naquela época.

Ainda segundo o autor, ―apesar de Sõrepré ser considerado o último momento quando foram politicamente unificados, [... houve] a dispersão a partir de Sõrepré como um momento histórico particular no qual conflitos políticos internos suplantaram a unidade‖ (WELCH et al., 2013, p. 24-25). Em contraste, posteriormente dissolveu-se Sõrepré devido aos conflitos internos que foram aos poucos gerando divergências entre diferentes subgrupos. Isto teve como consequência a migração e o surgimento de novas aldeias, algumas tão distantes quanto as localizadas próximo a São Félix (Mãiwatsédé)24 e aos rios Couto Magalhães e Sete de Setembro. Outros grupos se dispersaram igualmente, constituindo-se as populações atuais que vivem nas Terras Indígenas de Parabubure, Marechal Rondon, Sangradouro/Volta Grande e São Marcos (WELCH et al. 2013; SILVA, 1992).

O relativo estado de ―calmaria‖ em que os Xavante permaneceram até o início do século XX seria novamente perturbado tanto pelas investidas das missões salesianas que buscavam a ―evangelização‖ dos indígenas, quanto pelas tentativas de contato do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais25 (SPILTN), órgão que antecedeu o Serviço de Proteção aos Índios26, além do expressivo número de colonos que gradualmente estabeleciam-se às margens do Rio das Mortes, provocando novos enfrentamentos.

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Baseado na oralidade do povo Xavante, Fernandes (2011) aponta que, na região conhecida como Marãiwatsédé, existiam cerca de 10 aldeias (Bö‘u, Umreru tse, Umdonho‘hu, ‗Ritu, Udzurãwawẽ, Imprepá; Etetsimnã e Uwe‘ruré; Monipá, e Ubre‘hu), sendo a primeira o centro cerimonial e político.

25―A criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais foi a primeira agência

indigenista laica do Brasil, criada em 20 de junho de 1910 pelo Decreto nº 8.072. Entre as finalidades da agência, estavam: estabelecer a convivência pacífica com os índios; agir para garantir a sobrevivência física dos povos indígenas; fazer os índios adotarem gradualmente hábitos ―civilizados‖; influir de forma amistosa sobre a vida indígena; fixar o índio à terra; contribuir para o povoamento do interior do Brasil; permitir o acesso ou a produção de bens econômicos nas terras dos índios; usar a força de trabalho indígena para aumentar a produtividade agrícola; fortalecer o sentimento indígena de pertencer a uma nação‖ (PROJETO MEMÓRIA, online).

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Em 1918, o SPILTN passa a se chamar apenas Serviço de Proteção aos Índios-SPI, que após várias denúncias relacionadas a corrupção em 1967 após algumas ―reestruturações‖ passa a ser denominada de Fundação Nacional do Índio-FUNAI.

Dessa forma, no início do século XX, as atividades dos Xavante começaram a ser relatadas por cronistas e escritores situados a oeste de seu território. Nesse período, já havia missionários salesianos trabalhando entre os índios Bororo com quem os Xavante entraram em conflito ao fazerem a travessia do rio das Mortes no final do século XIX. Segundo relatos de padres salesianos, os ataques dos Xavante aos Bororos no início do século eram constantes: há menção de um ataque à missão de Merure, onde vários Bororo buscaram refúgio junto aos salesianos (COLBACCINI; ALBISETTI, 1942 apud MAYBURI-LEWIS, 1984).

De acordo com Welch et al. (2013, p. 31-33), documentos históricos relatam que entre os meses de julho e agosto de 1909 a Missão Evangélica Sul-Americana de Liverpool, Inglaterra, percorreu a ilha do Bananal objetivando fazer contato com os índios Carajá e acabaram se deparando com um grupo Xavante situados na margem esquerda do Rio das Mortes, conforme Figura 07. Navegando mais ao norte, ao chegarem à ilha, em outro ponto localizado entre o rio das Mortes e o rio Tapirapé, acabaram avistando outro grupo Xavante. Esse grupo ainda não contatado era denominado de Marãiwatsédé.

O autor menciona que nas primeiras décadas de 1900, os Xavante já ocupavam uma ampla área que incluía tanto à margem esquerda do rio Araguaia quanto em ambas as margens do rio das Mortes, indo até aproximadamente ao sul da Terra Indígena Wedezé, até a bacia hidrográfica do o rio Tapirapé ao norte, conforme apontado na Figura 08. Evidencia-se, assim, a extensão de seus territórios. Nota-se que até a primeira metade do século XX, as comunidades de Aragarças, Xavantina, Aruanã, Cocalinho, Bandeirante e São Félix já haviam se estabelecido às margens dos rios das Mortes e Araguaia.

Com a chegada cada vez mais numerosa de colonos à região compreendida entre os Rios das Mortes e Araguaia, por volta de 1934, os Xavante iniciaram uma ofensiva a partir de emboscadas, passando a matar os intrusos que gradativamente invadiam seus territórios. Em um dos ataques na região de Merure, por volta de 1936, ―um grupo Xavante matou o filho de um colono e roubou sua rede‖ (MAYBURY-LEWIS 1984; GARFIELD, 2011, p. 80). O autor relata que:

[...] o pai da criança obteve permissão do governador do Mato Grosso para, em represália, organizar uma expedição punitiva. Quando os salesianos ficaram sabendo do ocorrido, intervieram junto ao governador afim de explicar que as consequências de uma expedição dessas poderia ser desastrosa para as relações entre índios e brancos e ameaçar a paz da região e a segurança de seus habitantes (MAYBURI-LEWIS 1984, 41-42).

Figura 07 – Croqui do local onde provavelmente ocorreu o contato da Missão Evangélica com os Xavante (na mesma latitude onde se localiza a TI Marãiwatsédé).

Fonte: Welch et al. (2013, adaptado por GLASS, 1911).

Buscando estabelecer contato a fim de minimizar os conflitos e ao mesmo tempo ―evangelizar‖ os índios, por volta de 1933-34, os Padres Salesianos Pedro Sacilotti e João Fuchs estabeleceram- se em Santa Terezinha, em território Xavante. Em uma de suas missões, os salesianos subiram o rio das Mortes e acabaram sendo mortos. Persistindo na mesma tentativa, outro padre, chamado

Hipólito Chovelon, buscou estabelecer contato a partir de um ―posto de atração27‖, onde construiu uma cabana à margem direita do rio, no local onde foram mortos os padres Sacilotti e Fuchs. Esse local seria denominado de São Domingos (Posto Indígena Pimentel Barbosa).

Figura 08 – Localização das Aldeias Xavante.

Fonte: Maybury-Lewis (1984).

Chevelon também não obteve sucesso em suas tentativas. É ilustrativo sobre isto, que os Xavante destruíram tanto a cruz que ele havia construído quanto o monumento deixado em homenagem aos padres mortos naquele local (GARFIELD, 2011, p. 83-84; MAYBURY-LEWIS, 1984, p. 41). Estes relatos segundo Gomide (2008, p. 179):

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Os Postos de Atração foram locais que a priori deveriam funcionar como uma área de proteção aos indígenas. Neles ―Buscavam-se controlar os conflitos entre as populações indígenas e a sociedade nacional envolvente‖ (NÖTZOLD; BRINGMANN, 2013).

[...] narram as tentativas de aproximação entre os missionários e os Xavante na década de 1930. Assim, após inúmeras tentativas os missionários conseguem realizar algumas trocas de ―presentes‖ com os Xavante, no entanto duas ―bandeiras‖ entram na região e acabam por afastar os Xavante. Alguns anos depois o SPI entra em cena e os missionários acabam por se retirar.

Nas décadas de 1930 e 1940 o avanço sobre os territórios Xavante seria planejado e conduzido de acordo com a política governamental da época impulsionada sobretudo pela ―Marcha para Oeste‖.