3. Nåsituasjonen
3.2. Kreftpasienter i OUS
Como verificamos nos dados apresentados, do ponto de vista cronológico, podemos subdividir o conjunto de BH-001 em dois grandes grupos de recipientes de vidro. Um primeiro onde se destacam as garrafas de vinho, as case bottles e o copo, e um segundo grupo onde se consideram as garrafas cilíndricas.
Como foi referido anteriormente, o primeiro grupo de recipientes oferece dados cronológicos bastante relevantes para o estudo do naufrágio do marfim, que constitui o contexto
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mais importante da Baía da Horta. Tratam-se de vidros com produções bem definidas e em circulação por todo o espaço Atlântico.
Estas garrafas são um achado muito frequente em sítios de naufrágio a partir de meados do século XVII, altura em que se generaliza a produção de garrafas de vinho em vidro, substituindo as garrafas em grés e formas vidradas de delfthware utilizadas até então (Hume, 1961: 98). No que diz respeito à colecção de BH-001, com base sobretudo nas garrafas de vinho e nas case bottles, podemos observar que oferecem paralelos em sítios e contextos de naufrágio ingleses datáveis do primeiro quartel do século XVIII.
Relativamente às primeiras, encontramos materiais semelhantes em naufrágios do século XVII, como o Elisabeth and Mary (1690) (Bernier, 1997), o Dartmouth (Holman, 1975), a fragata Britânica HMS Sapphire, (Barber, 1977), onde foram identificados vários gargalos e fundos de onion bottles e, como vimos, também em Santo António de Taná (1697), com uma colecção notável deste tipo de recipientes (Piercy, 1977, 1978, 1979, 1981). Nos princípios do século XVIII, surgem ainda exemplares semelhantes no naufrágio do possível Marguerite, onde apareceram quatro fragmentos de garrafas de vidro, bastante boleados, que pela sua descrição parecem pertencer a garrafas de vinho com coloração verde-escuro (Barber et al., 1981), no naufrágio do Queen Annes Revenge (1718), onde foram encontrados vários exemplares destas garrafas, bem como em la Natière, dois naufrágios datados do primeiro quartel do século XVIII cuja carga incluía uma colecção excepcional destes recipientes (L’Hour & Veyrat, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003). Por outro lado, observamos materiais com as mesmas características nas colónias britânicas durante este período, como por exemplo, na Virgínia ou em Jamestown (Hume, 1961, 1969).
No panorama nacional, além da Baía da Horta, podemos observar vasilhas semelhantes em Angra do Heroísmo, onde foi ainda recolhida fortuitamente uma garrafa de vinho morfologicamente semelhante às de BH-001 (Bettencourt et al., 2013). Foram também identificados vários exemplares no naufrágio Boa Vista 1, escavado durante os trabalhos arqueológicos de minimização na nova sede corporativa da EDP, em Lisboa (Bettencourt, Fonseca, & Silva, 2013).
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Em contextos terrestres portugueses, a sua existência verfica-se um pouco por todos os sítios arqueológicos datados deste período, como nos recentes trabalhos da Casa dos Bicos em Lisboa (Coelho, Silva, & Teixeira, no prelo), no núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros (Medici, 2011) ou na intervenção arqueológica num dos quarteirões da baixa Pombalina em Lisboa (Fernandes & Ferreira, 2004).
Relativamente às garrafas de fundo quadrado, a cronologia não é tão fina quanto a das garrafas de vinho. A produção das mesmas formas em larga escala, durante períodos mais alargados e em vários países em simultâneo, não permite datar os materiais de uma forma tão aproximada como as anteriores. No entanto, tal como as garrafas de vinho, as case bottles são um achado muito recorrente em naufrágios contemporâneos de BH-001. Verificamos paralelos no Dartmouth (1690) onde são referidos, além de diversas tipologias de recipientes de vidro, exemplares de garrafas de secção quadrada (Holman, 1975), e no HMS Sapphire (1696), onde surgiram vários fragmentos (Barber, 1977). Além destes, foram também identificadas no naufrágio da ilha de Jutholman (c. 1700) (Ingelman-Sundberg, 1976), assim como no naufrágio de Saint-Quay-Portrieux (Herry, 2004).
Entre os sítios do princípio do século XVIII, refiram-se, mais uma vez, o Queen Anne's Revenge (1718) (Carnes-McNaughton & Wild-Ramsing, 2008) e os naufrágios de La Natière (L’Hour e Veyrat, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003).
Deste modo, se relacionarmos o conjunto de vidros apresentado com os diversos tipos de materiais exumados do contexto, verificamos que uma parte significativa se relaciona cronológica e geograficamente com os materiais atribuídos ao naufrágio do marfim. É o que acontece com os cachimbos em caulino, o conjunto mais numeroso registado em BH-001, que nos remetem para a origem e produtor destes materiais. Os cachimbos analisados apresentam a marca R|M no pedúnculo, oferecendo-nos dados quanto ao seu produtor, Richard Manbys, que produziu em Londres com esta marca entre cerca de 1700 e 1760 (Pearce, 2013).
Além destes, as garrafas podem também ser relacionadas com a tampa de estanho BH- 001-S75.09 e com um botão de punho BH-001-S76.04, objetos bastante comuns durante este período, que apresentam a Rosa Tudor, ou ainda com a moeda BH-001-S58.16, com produção
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atribuída ao reinado de Carlos II de Inglaterra, que governou entre 1660-1685 (Bettencourt & Gonçalves, 2009; Bettencourt & Carvalho, 2010).
As mesmas relações são possíveis se compararmos os vidros com os materiais cerâmicos. Em BH-001 foram exumados exemplares produzidos no mesmo período. Observaram-se dois tipos de produções em grés, um com decoração a azul de cobalto produzido na zona do vale do Reno, outro em vidrado de sal castanho, que apresentava produções atribuíveis à mesma região, embora se verifiquem também no mesmo período fabricos idênticos na Inglaterra. Um destes fragmentos exibia também a Rosa Tudor impressa em alto-relevo (Bettencourt & Gonçalves, 2009). Estes materiais são frequentes nos mesmos sítios de naufrágio onde surgem as garrafas, tanto do século XVII como do XVIII, como são exemplo os naufrágios do Duart Point (Escócia), do Queen Anne’s Revenge (1718) (Carnes-McNaughton & Wild- Ramsing, 2008) ou em La Natière 1 (França, início do século XVIII) (L’Hour & Veyrat, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003).
Foram ainda exumados dois fragmentos de porcelana chinesa esmaltada, com colorações da família verde, produzida entre 1662 e 1722 durante o período Kangxi da dinastia Qing, materiais frequentemente em trânsito nestes navios, que podem ajudar também no estabelecimento da cronologia do naufrágio (Bettencourt & Carvalho, 2010).
São ainda de destacar um grande número de potes vidrados no interior, as large oil jars, que se destinavam ao armazenamento e transporte de líquidos a bordo durante as viagens, dos quais encontramos paralelos no Queen Anne’s Revenge (1718) (Carnes-McNaughton & Wild- Ramsing, 2008) ou no naufrágio de La Natière 1 ocorrido na costa da Bretanha Francesa (L’Hour & Veyrat, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003).
Além destes materiais, foram registadas 101 presas de elefante no contexto BH-001, o que nos remete para o comércio de marfim e escravos dos séculos XVII e XVIII que abastecia as feitorias europeias estabelecidas no continente americano. No atual estado da investigação, que ainda não contemplou qualquer estudo laboratorial às defesas dos elefantes, não podemos afirmar com exatidão qual a origem dos animais, e por conseguinte, a proveniência desta carga. Sabe-se, no entanto, que o marfim africano era o preferido nas manufaturas asiáticas, para onde
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era exportado diretamente ou reexportado a partir do continente europeu (Bettencourt & Carvalho, 2010).
Com base nos dados referidos, podemos atribuir a origem deste navio à Inglaterra. Como vimos, tanto as garrafas de vinho como as garrafas quadradas são um achado comum em sítios arqueológicos, tanto terrestres como de naufrágio ingleses de finais do século XVII e princípios do XVIII. O copo BH-001-S75.62 e a garrafa BH-001-S99, com datações atribuíveis ao mesmo período, parecem também oferecer uma proveniência bem definida, na medida em que, como observamos anteriormente, estes surgem de forma recorrente em sítios arqueológicos ingleses coevos de BH-001.
Sabe-se igualmente que durante este período, os ingleses dominavam uma grande rede mercantil, que operava no oceano Atlântico a partir do continente Europeu transportando produtos manufaturados e têxteis, que trocavam por escravos em África. Estes, por sua vez, eram comerciados no continente americano por açúcar, algodão e tabaco, e na torna viagem os navios paravam no arquipélago dos Açores e seguiam a abastecer novamente os mercados europeus, num ciclo ininterrupto que utilizava o porto da Horta como escala estratégica para dar apoio a esta rede comercial denominada de “Comércio Triangular” (Elliott, 2006: 108-109).
Quanto às garrafas cilíndricas, com produções mais tardias, estas oferecem-nos dados quanto à utilização do porto da Horta no longo tempo, estando provavelmente relacionadas com a utilização da baía da Horta enquanto fundeadouro. De facto, se por um lado, os vidros que podemos atribuir ao contexto BH-001 nos dão uma cronologia de finais do século XVII e princípios do XVIII, as garrafas cilíndricas remetem-nos para épocas mais avançadas da circulação dentro deste porto.
Como já foi referido, a produção de garrafas cilíndricas surge como uma evolução das garrafas de vinho em forma de cebola e assumindo-se que se terá iniciado nos anos 30 do século XVIII (Jones, 1986: 9). Estas garrafas dão-nos cronologias com início em meados do século XVIII e que podem ir até aos anos 60 do século XX. Relativamente à sua proveniência, com base em BH-001-S61 e BH-001-S91.12, parece claro que foram fabricadas em Bristol na Inglaterra, reforçando a frequência com que os navios Britânicos aportavam na Horta.
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Já nos casos de BH-001-S61 e BH-001-S71, estes são fragmentos de gargalos que aparecem com frequência em sítios arqueológicos ingleses do século XVIII (Medici, 2011; Hume, 1961).
Quanto aos outros exemplares registados, é difícil assegurar a sua proveniência, uma vez que são garrafas produzidas um pouco por toda a Europa durante o mesmo período, embora em Portugal a industrialização tenha apenas ocorrido na década de 40 do século XX (Medici, 2011), o que nos indica uma proveniência exterior a Portugal, ou uma datação de períodos cronológicos já muito avançados.
Apesar do conjunto ser na sua grande maioria de uso comum, em que a funcionalidade é a característica mais relevante, observam-se também peças de cariz excepcional, como são os casos do copo BH-001-S75.62, da garrafa quadrada com tampa de estanho com a Rosa Túdor BH-001-S75.09, e do frasco de perfume BH-001-S99, que se apresentam como peças de excelência, demonstrando as assimetrias sociais presentes nestes navios.
Para concluir, embora a colecção não seja muito vasta, este tipo de achado permite atribuir cronologias e proveniências ao contexto. Se, por um lado, se observa um conjunto coerente de garrafas atribuíveis a um período específico, por outro, observa-se um outro conjunto que nos remete para uma outra fase comercial do porto da Horta. O conjunto apresentado aparenta ser de fabrico inglês, o que não deixa de comprovar, tal como os outros vestígios estudados até então, a forte utilização deste espaço marítimo por parte de navios ingleses. Para além disso, atesta também as viagens comerciais levadas a cabo por companhias de navegação deste país no espaço marítimo atlântico, e especificamente no porto Horta, e é demonstrativo das relações comerciais que desde sempre existiram entre Portugal e as ilhas Britânicas.
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