3. Nåsituasjonen
3.4. Forskning
Os objectos relacionados diretamente com o quotidiano a bordo dentro dos navios durante este período são mais escassos, mas verificamos o fragmento de copo BH-001-S75.62 em Baía da Horta 1. Com presença reduzida no registo arqueológico de sítios subaquáticos, estes materiais foram identificados no naufrágio do Queen Anne’s Revenge, onde se verificam vários exemplares com características similares ao aqui apresentado, que nos remetem para o consumo de bebidas alcoólicas nas grandes viagens (Carnes-McNaughton & Wild-Ramsing, 2008: 14-15), mas também para a presença de elites a bordo
O consumo de bebidas alcoólicas estava totalmente enraizado junto de todas as classes sociais neste período. Sabe-se que os oficiais ingleses em meados do século XVIII bebiam com muita frequência vinho, cerveja, champagne, cidra, e bebidas espirituosas, além dos tradicionais vinhos portugueses, Madeira e do Porto. Este último era muito apreciado por ser doce e forte, inebriando com muita facilidade quando adicionado ao brandy (Jones, 1986: 7-12).
Também oferecendo relações ao dia-a-dia duma embarcação do período moderno, observamos em Santo António de Taná a presença de uma garrafa em forma de cabaça. Este é um tipo de recipiente que surge com muita frequência em contextos nacionais a partir do século XVI e XVII (Medici, 2006: 392-393; Ferreira, 2004: 554), mas que está quase ausente do registo arqueológico subaquático. A sua principal característica é a forma do pescoço, ovalada ou cónica
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invertida, podendo ser produzidas tanto em pequeno como em grande formato (Ferreira, 2004: 553-556). Serviam para o transporte de líquidos, tais como água comum ou água benta, azeite para lamparinas ou até para o transporte de terra de lugares longínquos. Os novos produtos transportados, substituindo os normais perfumes, vieram alterar a forma destes recipientes, aumentando o tamanho tanto da garrafa como do gargalo (Ferreira, 2004: 553-556). Estes recipientes denotam influências assimiladas desde o período medieval, devido aos contactos permanentes entre o mundo bizantino e islâmico.
Na bibliografia consultada não se verificou qualquer garrafa com estas características em naufrágios. A origem portuguesa de Santo António de Taná pode indicar que a cabaça se encontraria a bordo aquando da sua partida de Vigo. Pela reduzida presença no sítio, com apenas um exemplar, podemos dizer que se trata de um objeto de cariz excepcional, que se manteve por isso a bordo até à data do naufrágio.
As formas inglesas parecem ser as preferidas no princípio do século XVII, substituindo as anteriores produções venezianas (Ferreira, 2005: 394). O copo de vinho com pé era considerado de estatuto social diferenciado, embora dada a diversidade formal não se consiga determinar a sua função exacta (Jones, 1986: 38). Podemos assim estabelecer relações quanto ao copo BH- 001-S75.62, que poderia fazer parte do espólio de alguém de estatuto social elevado que teria embarcado na derradeira viagem de BH-001.
Distinguem-se pela forma do pé, pelas técnicas de fabrico, pela decoração e pelo vidro utilizado (Medici, 2011: 330). Neste caso, porém, apenas podemos considerar a decoração e a técnica de fabrico, visto que o exemplar encontrado não tem pé, e a degradação do vidro, não nos permite aferir a sua qualidade. Copos surgem com alguma frequência em contextos arqueológicos de naufrágio e são bastante comuns em contextos terrestres nacionais dos séculos XVII e XVIII. Em contextos de naufrágio encontram-se, além de no já citado Queen Anne’s Revenge (1718) (Carnes-McNaughton & Wild-Ramsing, 2008), no naufrágio da ilha de Jutholmen (Ingelman-Sundberg, 1976) e no HMS Swift (Elkin, 2007). Em sítios terrestres em Portugal é de referir um copo de pé inglês morfologicamente muito semelhante, datado de cerca de 1715-1730 (Ferreira, 2005: 394).
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Este copo oferece-nos dados muito importantes quanto à cronologia do naufrágio de BH- 001, nomeadamente quando relacionado com as garrafas ou os cachimbos, na medida em que nos remete para datas muito similares a estes. Exemplares semelhantes surgem ainda nas escavações da Rua dos Correeiros, na baixa de Lisboa em níveis datados dos séculos XVI e XVII (Medici, 2011: 332) e na Rua da Judiaria em Almada em extratos datados também dos séculos XVII e XVIII (Medici, 2005: 554-556).
Observa-se finalmente em BH-001 o fragmento de gargalo BH-001-S99, uma peça também de cariz excepcional, da qual apenas obtivemos paralelos na colecção do Museu de Londres em contextos datados dos séculos XVII e XVIII (website do London Museum). Dada a sua raridade no contexto, podia formar parte do acervo de algum tripulante para o transporte de líquidos especiais, como perfumes ou cosméticos, produtos muito apreciados neste período. Pelo seu reduzido tamanho surgem denominados por vezes de frascos de viagem e caracterizam-se pelos seus motivos decorativos (Jones, 1986: 72-73), neste caso, caneluras espiraladas. Decorações semelhantes foram encontradas em grande número em escavações em Istambul, na Turquia, e remetem-nos para tradições orientais. Em Portugal surgiram em frascos datados dos séculos XVII e XVIII de escavações em Tomar (Ferreira, 2005: 392-394).
Esta peça, tal como o copo, vem sugerir a diversidade social a bordo do navio na sua última viagem, com a presença indivíduos de diferentes estatutos sociais.
Navio Origem Ano - local da perda Vidros a bordo Bibliografia
Newport Medieval
Ship Inglesa Século XV – País de Gales Ampulheta. Nayling e Jones, 2014
Mary Rose Inglaterra 1545 -
Página Web – Mary Rose Trust
Duart Point Inglaterra 1653 - Martin, 1995
Lastdrager VOC – Holanda 1653 - Shetland Islands
Garrafas quadradas, garrafas de vinho; vidros finos; tampas de
estanho. Stenuit, 1974 Vergulde Draeck VOC – Holanda 1656 - Austrália
Garrafas quadradas; tampas em
estanho. Green, 1977 Kennemerland VOC – Holanda 1664 – Shetland Islands
Garrafas de vidro verde; tampas de estanho.
Price, Muckelroy e Willis, 1980
Elisabeth and
Mary - 1690 - Canadá
Garrafas de vinho, garrafas quadradas, frascos de farmácia,
tampas de estanho. Bernier, 1997 Dartmouth Inglaterra 1690 - Escócia
Garrafas de vinho; garrafas quadradas; tampas de estanho;
garrafas de farmácia. Holman, 1975
Sapphire Inglaterra 1696 - Canadá
Garrafas de vinho, garrafas
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Jutholmen Suécia
Fim do século XVII - princípio do XVIII
Garrafas de vinho; garrafas quadradas; garrafas de farmácia; copos; ampulhetas;
outros vidros. Ingelman-Sundberg, 1976
Fregaten Mynden Dinamarca
Fim do século XVII - princípio do XVIII -
Alemanha Garrafas de vinho. Auer, 2004 Saint-Quay-
Portrieux
Possivelmente Holandês
Fim do século XVII - princípio do XVIII
Garrafas de vinho; garrafas
quadradas; vidraça. Herry, 2004
Northumberland Inglaterra 1703 Garrafas de vinho; ampulheta. Pascoe e Peacock, 2015
HMS Hazardous França 1706 - Inglaterra Garrafas de vinho. Owen, 1991
Queen Annes
Revenge Inglaterra 1718 – Estados Unidos
Garrafas de vinho; garrafas quadradas.
Carnes-McNaughton e Wild- Ramsing, 2008
Curaçao VOC – Holanda 1729 - Shetland Islands
Garrafas de vinho; garrafas
quadradas. Sténuit e Fink, 1977
Hollandia VOC 1743 - Sicília
Garrafas de vinho; garrafas quadradas; tampas de estanho.
Cowan, Cowan e Marsden, 1975
Invincible Inglaterra 1758 - Portsmouth Ampulhetas. Bingeman, 1985
HMS Swift Inglaterra 1770 - Patagónia
Garrafas de vinho; garrafas
quadradas; copos; vidraça. Elkin, 2007
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