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3. Kostnadstallfestingen

3.4 Kostnader ved hjelp og assistanse i dagliglivet

3.4.1 Kostnader til hjelpemidler og tilrettelegging

No artigo de WALDMAN (2008) é afirmada uma estrutura triádica quanto à disposição dos personagens, o que colocaria Padre Maximilian e, pela própria simbologia do número três, o cristianismo no centro das atenções.

Porém, outras disposições podem ser percebidas, principalmente quando o foco transfere-se para questionamentos sobre a arte e sua função na década de 1960, quando uma ditadura militar oprimiu e ofuscou nossas construções estéticas por via da censura às obras de arte; de exílios e torturas impostos aos artistas e intelectuais; e por uma intensa propaganda, junta à forte indústria cultural que ganhou força no país, principalmente com a entrada da TV na década de 1950, e que fez da arte, canal publicitário alienador.

Em As aves da noite, identificamos, mais fortemente, no Poeta e no Joalheiro os construtores de objetos estéticos: aquele ligado à produção de bens simbólicos e este ao artesanato, aos bens de consumo manufaturados. Ambos são descritos como frágeis - o que se intensifica no Poeta pelo advérbio “extremamente”. É o Poeta, portanto, o primeiro a sentir as imposições do corpo95, que padece junto aos seus excrementos, e o primeiro a morrer no inferno: “POETA: /.../ Eu sou meu corpo. Eu sou esta imundice que parece não ter fim” (IDEM, 256).

Vemos, na figura do jovem escritor, uma estrutura discursiva de resistência ao meio em que se encontra, sua poesia é de difícil compreensão, se arquiteta hermética e anuncia ora a morte que se avizinha, ora um passado, que muitas vezes aparece como questionamento e possibilidade de tempos e natureza mais íntegros.

POETA (fala o poema tocando-se, olhando-se. Tenso. Comovido):

95 Pois: “/.../ Seu corpo é um invólucro de carne, que lhe é estranho sob muitos aspectos – o mais estranho e

mais repugnante deles é o fato de que ele sente dor, sangra e um dia irá definhar e morrer. O homem está literalmente dividido em dois: tem consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque na natureza, dotado de uma dominadora majestade e, no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador” (BECKER, 2010, p. 48-49).

E deste morto me aproximo. /.../

Curvo-me sobre o que foi rosto. Oval em branco. Pálpebra remota

Boca disciplinada para o canto. O braço longo Asa de ombro... Amou. Corroeu-se de sonhos. E cúmplice de aflitos, foi construído e refeito Em sal e trigo.

(muda lentamente o tom. Sorri) O ventre escuro não gerou, (grave)

Talvez por isso Teve mãos desmedidas

E grito o exacerbado foi o verso. Amou. Amou. (fala mais rapidamente, olhando-se)

Tem os pés de criança: altos e curvados.

O corpo distendido como lança. É inteiriço e claro.

(sem pausa. Voz grave. Exaltado de início até a palavra “hora”. Depois

mais branda)

Ah, tempo extenso, grande tempo sem fim onde me estendo Não para contemplar este todo de fora

Olhar enovelado respirando a hora... Antes olhar suspenso como um arco,

Olho dentro da fibra que o circunda, cesta mortuária. /.../

(mantém o mesmo tom): Depois a noite, corpo imenso... E a palha do meu nome... (voz alta como um chamamento) Que verso te recompõe?

Que fibra te comove ainda? (voz baixa)

O mundo, o mundo... O corpo que se move

Na pretensa carcaça de um molusco. Toca-o. Ele se encolhe mudo. (encolhendo-se) (HILST, 242 -244)

Nas imagens do poema, existe um corpo, um morto, com o qual, pelas indicações das rubricas, o Poeta parece se confundir, ou, ao menos, se projetar. Corpo que também se faz imagem alusiva ao Cristo crucificado, com a “boca disciplinada para o canto” e os longos braços, parecidos a asas; ressuscitado, pois “refeito em sal e trigo”; e propriamente morto em sua “cesta mortuária”.

Neste primeiro poema, no início da peça, a figura do herói já é aludida, reforçando, portanto, a decisão do Padre Maximilian perante a entrada na cela - logo cesta mortuária – e, assim, as indagações surgem com força: como retratar e comover esta figura? Perguntas que ao longo da peça se intensificam em conceitos como o de testemunho, martírio, deus e com a própria situação limite, potencializada com a presença da morte, o que faz pensarmos em uma voz autoral por trás dos questionamentos poéticos; assim, as perguntas não se restringem unicamente ao Poeta, mas transbordam por toda a peça, que problematiza a situação-limite e transporta os questionamentos para o público.

Desta forma, a poesia serve como alívio e preparação para os prisioneiros perante a morte96:

96 No ano de 1980, Hilda Hilst lança seu Da morte. Odes mínimas, livro em que a morte pessoal se faz

interlocutora do eu-lírico hilstiano, indagador sobre a representação. Os opostos e interligações entre o alto e o baixo se afirmam a partir do título – “odes mínimas” – e se intensificam ao longo dos poemas, problematizando a própria representação limite instaurada pela morte, elo entre imanência e transcendência. Para isso ocorre o diálogo com outras linguagens, como as artes plásticas (há uma primeira parte do livro intitulada “Aquarelas”, onde aparecem reproduções de pinturas da escritora associadas a pequenos poemas), procedimentos formais que também aparecem em As aves da noite, perante a representação da situação limite.

Vejamos o poema V:

Túrgida-mínima

Como virás, morte minha? Intrincada. Nos nós. Num passadiço de linhas. Como virás?

ESTUDANTE (para o Poeta, pausado, débil): Continua... Continua... É bonito.

/.../

JOALHEIRO (para o Poeta): Continua... isso pode nos aliviar. (IDEM, 242)

A Lírica, portanto, é valorizada como uma produção individual que alcança o coletivo, o que faz cumprir sua função social, primeiro pelo seu próprio alcance - universal, ao menos para os prisioneiros da cela - e, depois, pela sua própria idiossincrasia, que resiste ao mundo feito coisa, à dominação imposta aos homens pelas mercadorias e ideologias imperativas, e à linguagem que se aliena e serve como propagação da ideologia dominante97. Sua função universal potencializa-se, como já vimos, na canção compartilhada pelo coletivo de prisioneiros, o que mais uma vez afirma sua primazia, pois como aponta ADORNO, 2003, p.77: “/.../ a substancialidade da lírica individual deriva essencialmente de sua participação nessa corrente subterrânea coletiva, pois somente ela faz da linguagem o meio em que o sujeito se torna mais do que apenas sujeito”.

Nos caracóis, na semente

Em sépia, em rosa mordente Como te emoldurar? Afilada

Ferindo como as estacas Ou dulcíssima lambendo

Como me tomarás? (HILST, 2003, p. 33)

Neste poema, há uma intercalação de posições gráficas e sonoras entre elementos opostos, como os que simbolizam o masculino - semente e estacas - e o feminino – caracóis e rosa mordente - e os que juntam palavras a princípio antagônicas, como ocorre no primeiro verso. O diálogo com as artes plásticas parece ser evidente na pergunta “Como te emoldurar?” e em palavras como linhas, sépia e rosa.

Para Alcir Pécora, a imagem mais forte trazida pela leitura das odes é a de “uma literatura que se pensa como um bordado de barco nas vestes de um moribundo, isto é, como o desejo de transporte que ajudará a perfazer a viagem de retorno da alma ao pó” (PÉCORA, 2003, p. 10).

97 “/.../ a lírica se mostra mais profundamente assegurada, em termos sociais, ali onde não fala conforme o

gosto da sociedade, ali onde não comunica nada, mas sim, onde o sujeito, alcançando a expressão feliz, chega a uma sintonia com a própria linguagem, seguindo o caminho que ela mesma gostaria de seguir” (ADORNO, 2003, p. 74).

“/.../ Onde o eu se esquece na linguagem, ali ele está inteiramente presente; senão a linguagem, convertida em abracadabra sacralizado, sucumbiria à reificação, como ocorre no discurso comunicativo” (ADORNO, 2003, p. 75).

Porém, como já dito, as polarizações não apresentam traços que as delineiem de forma autoritária e maniqueísta. A própria arte e a lírica também podem ser usadas pelos soldados:

SS: /.../ nós também temos grande poetas... Espera um pouco Hans. (começa a dizer lentamente)

Sobre todos os cimos O repouso.

Sobre todos os cumes Apenas leve sopro.

Continua comigo Hans. (os dois juntos) Calam os pássaros na mata

Espera, pois, e em breve Também descansarás.

(vão saindo, o SS dá risadas discretas e Hans só sorri) Muito bonito... muito bonito... (pausa longa) (IDEM, 272).

O poema dos SS anuncia o sopro e o repouso no alto, nos cimos e cumes, que vêm reforçados como imagens sonoras pelas aliterações em s. Tais imagens aludem a lugares fechados e sombrios, pois são marcadas também pela sonoridade do ”o” e das nasais. Esta sonoridade sofrerá alterações mais incisivas a partir do verso iniciado pela palavra calam: primeiro pela introdução da voz de Hans, depois pela sonoridade marcada pelo “a”, que se abre e torna-se mais bruta e autoritária, ao começar pela própria voz de Hans, que ao contrário dos prisioneiros, que participam voluntariamente com a canção de seus iguais, não é tão espontâneo para a recitação do poema, fato marcado pelo seu sorriso final um tanto acanhado.

O léxico formado no poema por palavras como repouso, calam, espera e descansarás traz a si a presença da morte em um futuro breve, o que antagoniza com as narrações, poemas e canções dos prisioneiros, que, muitas vezes, funcionam como contraponto à espera da morte e possuem a marca do pretérito. É interessante notar que algumas das palavras referentes à morte são direta ou indiretamente ligadas à palavra pássaros. Entre elas encontram-se: repouso e calam.

Junto à função artística, podemos observar questionamentos sobre o conceito da matéria que pode levar ao belo, à mercadoria, ou à barbárie. Exemplo são os cristais:

MULHER: O sinal para que lancem os cristais pelos respiradouros. /.../

JOALHEIRO: Cristais...

MULHER: A cor é azul... a cor dos cristais é azul-ametista.

JOALHEIRO (apreensivo, sem acreditar): As ametistas são pedras muito bonitas mas... (IDEM, 263)

/.../

JOALHEIRO (tom ingênuo e comovido): Eu fiz uma linda peça rendilhada uma vez... vários pontos azuis (lembra-se do azul dos cristais

e continua num tom de voz angustiado) e um ouro filigranado, muito difícil (IDEM, 268).

A ciência como instrumento ou representação da racionalidade iluminista, que prevê um discurso lógico e uma história de progressão evolutiva, é também relativizada. Assim, há inversões discursivas, pois a ciência, a arte e a fé se misturam e se encontram abaladas em um mesmo cenário. As frases ditas pelo Estudante parecem ser exemplares: “É como uma oração... no laboratório teu trabalho deve ser como uma oração, você compreende? Não espere respostas imediatas, entendeu? /.../ eu preciso te falar bem claro, não espera resposta... entrega-te... como uma oração” (IDEM, 294).

Este caldo discursivo, junto à precariedade que leva ao delírio, produz conceitos científicos abobalhados, relativizando a própria racionalidade ao contrapor um conteúdo vago à sua estrutura, formalmente lógica:

ESTUDANTE: /.../ se um leão vive de zebras e as duas espécies são mantidas estáveis na população, então deve existir cerca de dez quilos de zebra para cada quilo de leão. Como as zebras comem capim, deve existir dez quilos de capim para cada quilo de zebra, e portanto cem quilos de capim para cada quilo de leão. Simples ele dizia, simples, este é um exemplo de uma cadeia de alimento e invariavelmente cresce como uma pirâmide (IDEM, 265).

É este mesmo discurso que alude, mais uma vez, ao símbolo circular ligado a ações de devorar e aprisionar, verbos estes já utilizados para aludir aos soldados e a deus, mas que também podemos estender à linguagem fechada, ao discurso que se esvazia e à própria ciência que se instaura com os poderes totalitários, que relativizam todos os

discursos e práticas - sejam elas ligadas à lógica, à arte ou à publicidade - em favor próprio98.

O Estudante ainda fala sobre as ratazanas como objetos de estudo, o que mais uma vez alude à condição dos prisioneiros e à frieza científica, que, em sistemas como o nazismo, é capaz de cometer imoralidades e crueldades a favor de experimentos perversamente científicos, juntando lógica e extermínio:

ESTUDANTE (delirando): As ratazanas... o laboratório... era impossível deixar de ter piedade... ela tinha piedade... (voz alta) mas a piedade é um grande sono! Os que têm piedade adormecem (IDEM, 292).

/.../

ESTUDANTE: mas você devia ter... olha, elas não sentem nada, as ratazanas não sentem nada, você não vai poder estudar, se pensar assim.