a) A bruxa e as vacas195
O título A bruxa e as vacas é bem explícito e remete, desde a primeira observação e sem hesitação, para o universo rural e sobrenatural. M erece uma referência a clarificação que lhe subjaz em comparação com os clássicos contos de fadas. Por exemplo, As duas irmãs, O gato das Botas, Rapunzel, Branca de Neve… em nada nos deixam antever que intrigas vão ser tratadas, enquanto nestes contos de tradição oral os títulos traduzem desde logo o problema a desenvolver, pois a inclusão da nome “bruxa” convoca à narrativa acontecimentos ligados à magia e ao mal.
A fórmula de abertura conta-se, à semelhança do Era uma vez funciona como uma porta de saída da realidade e de entrada para o imaginário. No entanto, ela não permite um grande afastamento pois, para tornar o episódio mais verosímil, há uma localização geográfica precisa. Esta história passou-se exactamente “na aldeia de Espinhoso, Vinhais”, não foi num pais distante, mas numa localidade bem conhecida. O nome próprio da aldeia cria um clima de maior proximidade o que confere à narrativa uma tónica de realismo. É talvez uma estratégia subtil de advertência para comportamentos menos aceitáveis. A proximidade destes fenómenos sobrenaturais, o facto de, muitas vezes, o narrador/contador ter participação neles e o castigo final sobre quem praticou o mal e que vivia “naquela aldeia”, leva a que não se queira seguir o exemplo da história. O espaço geográfico, por não gerar dúvidas, afasta-se do espaço impreciso vinculado aos contos de fadas tradicionais.
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Em A bruxa e as vacas conta-se uma história passada há muitos anos, com dois amigos que “regressavam a casa, numa noite de luar, vindos do forrobodó numa aldeia vizinha” (pág.77). Ao espaço fechado da segurança da casa que os aguarda contrapõe-se o espaço aberto, inseguro do caminho a percorrer. São espaços naturais passíveis de conduzir ao desconhecido, à aventura, ao imprevisto.
As duas personagens denunciam um comportamento tipicamente masculino, a diversão ou o “forro” nocturno. O lexema “forrobodó” introduz alguma influência
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estrangeira, pois é uma palavra bastante utilizada no Brasil como sinónimo de grande diversão. M as não é uma noite qualquer a escolhida pelos dois amigos. É exactamente uma noite de luar. Ora o luar está ligado ao fascínio da lua cheia, dos sonhos, do inconsciente, elementos que nos transportam para a ambiguidade e para a revelação. As bruxas e as feiticeiras também gostam da noite e mais ainda da lua cheia. É durante a noite que elas nascem ou renascem vestidas de mistério e anonimato.
O percurso entre aldeias também se encontrava, pelo menos outrora, vinculado à passagem por montes e matos sem iluminação, o que inspirava medos e trazia à lembrança perigos inesperados. Deduzimos que os espaços onde o luar não entrava seriam plenos de sombras fantasmagóricas, de trevas assustadoras. A antítese luz/trevas é intensa.
É neste espaço aberto de passagem que o conflito se instala quando os dois amigos encontram “roupas de mulher deixadas nuns urgueiros à beira do caminho” (pág.77). Os urgueiros (urze) à semelhança da casa (conto A bruxa e o sapateiro), da clareira (A dança das bruxas), da adega (As bruxas na adega do tio João Morais) ou dos penedos (A Menina e a madrasta) são locais de organização de espaço onde o sobrenatural, o encantamento se manifesta. Interferir sobre eles é uma acção que terá consequências para quem tiver a coragem de o fazer. Funcionam como uma fronteira entre luz e sombra, interior e exterior.
Os urgueiros196 são arbustos que ladeiam os caminhos e que podem também dificultar a passagem ou esconder algo. As roupas de mulher pousadas, de noite, em urgueiros são denunciadoras de trans gressão. Indiciam, também, à semelhança do conto A bruxa e o sapateiro, erotismo, nudez feminina. Pressupõe o elemento água para um possível banho ou actividades nocturnas ilícitas. Entre o medo e o fascínio, os dois amigos dão-se conta de que nem ali, nem nas proximidades do caminho que percorrem, há indícios de rio ou açude que pudesse justificar as roupas perdidas.
Nesta indecisão sobre o que pensar, decidem esperar junto às roupas pois “quem as deixou não há-de tardar a vir por elas” (pág.77).
Esta espera parece ser uma atitude correcta da parte dos dois homens. Alguém poderia precisar de ajuda. M as, se associarmos este espaço aberto indefinido, a noite de luar, as roupas de mulher e os urgueiros forma-se um quadro de imagens que nos
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Urgueiros, torga ou urze. Torga é um a designação nortenha para urze, planta brava de m ontanha que se prende às rochas. Pode ser de cor branca, arrocheada ou cor de vinho.
aporta uma característica tipicamente masculina: a curiosidade sobre a nudez feminina, remetendo, de novo, para o conto A bruxa e o sapateiro.
Os dois amigos esperam a coberto e a descoberto da noite de luar. Quem virá procurar estas roupas? Que mulher sai sozinha de noite e larga as suas roupas em qualquer caminho? O que andará ela a fazer? Neste impasse, formulam-se interrogações que em nada devem favorecer a imagem das donas da roupa. Nos padrões sociais masculinos, é impossível que uma mulher de bem se comporte desta forma.
Esta espera paciente que não se sabe quando terminará evidencia não uma característica masculina mas do carácter feminino. Parece-nos que a narrativa inverte os estereótipos comportamentais atribuídos à mulher. Não tiveram pois de esperar muito tempo. Como por encanto ou magia vêem surgir uma “mulher emboligada numa nuvem de pó” (pág.77). Emboligada é uma expressão transmontana que significa coberta, tapada. A bruxa veste de escuro e anda tapada com um vestido longo, xaile e um chapéu que lhe cobre o rosto. O lexema parece aludir também a algo que amortalha o corpo, que aprisiona, que o priva da liberdade. Será um esconderijo? Uma prisão?
Com a “nuvem de pó”, recuperamos o mito da Deusa/Bruxa Lilith feita à imagem de Adão de pó e excrementos e que se rebelou contra ele e contra Deus197. O pecado original presente nos textos bíblicos vincula-se a Lilith, arquétipo das forças incontroláveis. A “nuvem” aparece nos textos bíblicos, no Êxodo quando M oisés, depois de ungir e vestir Arão e os seus filhos, termina o tabernáculo. Nessa altura (Bíblia Sagrada, 1993: 103), a nuvem cobriu a tenda da congregação. “M oisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela […]. Quando a nuvem se levantava de sobre o tabernáculo, os filhos de Israel caminhavam avante, em todas as suas jornadas; se a nuvem porém não se levantava, não caminhavam, até ao dia em que ela se levantava”.
Os dois amigos esperaram que a nuvem de pó se dissipasse para que fosse possível identificar o que se escondia no seu interior. Perante os seus olhos surge uma mulher (nua?) que “logo a reconheceram” (pág.77). A dissipação da nuvem pode recordar-nos o vapor/fumo que se libertava dos corpos ao expirar do último suspiro nas fogueiras da Inquisição. Será aquele um local de expiação? Seriam aqueles homens delatores?
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As aldeias, como espaços sociais de dimensões reduzidas, comportam este risco ou benefício: todos se conhecem. Talvez por esse motivo, os dois amigos identificaram logo a mulher. Até este momento da narrativa, salvaguardando o título, nada nos diz que esta mulher é uma bruxa ou que esteja associada a acontecimentos menos claros. M as os dois amigos desconfiam. E sobre essa desconfiança obrigam a mulher, a troco das suas roupas, a confessar a maldade que eles pensavam ter sido perpetrada por ela. É uma crença ideológica e que marcou uma época. Pensar-se que toda a mulher que fosse diferente estaria ligada ao universo do interdito.
Esta mulher é real. Foi identificada pelos dois amigos e se estava ali aquelas horas da noite sem roupa só poderia personificar um ser direccionado para o mal. É sobre esta dúvida que os dois amigos obrigam a mulher, a troco das suas roupas, a confessar o que tinha andado a fazer.
A narrativa parece evocar o tempo da Inquisição quando as prisões de muitas mulheres acusadas de bruxaria assentavam em suposições e desconfianças. Perante os Inquisidores e a troco da promessa de não serem mortas na fogueira, elas acabavam por confessar todos os crimes. M uitas delas começaram a acreditar que eram mesmo bruxas e que mereciam os castigos impostos.
Esta reflexão pode ser observada a seguir, quando a narrativa refere que “a mulher, para reaver as roupas e livrar-se da vergonha, lá acabou por confessar que tinha ido fazer mal às vacas do Fulano” (pág.77). Foi obrigada a desfazer o mal feito e só depois é que pode reaver as suas roupas.
Este final é um pouco estranho pois a bruxa não tem poder para desfazer o próprio mal. Tem que ser outra mulher a dar o antídoto. Talvez o conto possa sugerir a ideia de que, às vezes, as mulheres são obrigadas a confessar não importa o quê porque são sempre vistas como culpadas de qualquer coisa.
O aparecimento da vaca198 como vítima justifica-se por ser um dos animais mais importantes no contexto rural. O seu trabalho e o facto de constituir fonte de alimentação primordial atribuem-lhe um valor quase incalculável. A sua morte colocava muitas famílias na miséria. Por outro lado, uma das acusações de bruxaria era precisamente o poder que as bruxas detinham de fazer com que os animais não fossem à pia, matando-os à fome.
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O capítulo XIV do Malleus Malleficarum , obra já referida, tem com o título “Eis aqui as Várias Maneiras pelas quais as Bruxas Infligem Males ao Gado”.
Em toda a narrativa, nem uma única vez foi referido ser esta mulher uma bruxa mas o título, sendo a abertura do conto, orienta os leitores/ouvintes para concluírem que o seu comportamento considerado “fora da norma” era de imediato vinculado a mulheres que pactuavam com o mal. Esta narrativa destaca a figura feminina e seus problemas de afirmação. Os homens referenciados são conotados com um modelo ideológico conservador que não permitia “liberdades” femininas que pudessem perturbar a ordem estabelecida e pôr em causa o seu domínio.
O conto actualiza o problema das mulheres violadas física ou psicologicamente, obrigadas a manter o silêncio para não serem estigmatizadas ou verem a sua honra posta em causa na praça pública. Não vai longe o tempo em que o testemunho de uma mulher, em tribunal, não tinha forma jurídica, sendo mesmo rejeitadas como testemunhas.
b) O sapateiro e a bruxa199
Com a mesma similitude e interpretação poderemos analisar a estrutura do conto O sapateiro e a bruxa pois o tema e os sentidos são próximos do anterior.
Pode-se associar ao período da caça às bruxas quando a Inquisição perseguia mulheres que apresentavam comportamentos diferentes da norma.
Tal como no conto anterior, o título, como indicador temático de uma obra, antecipa o tema desde essa leitura primeira, criando algumas expectativas referentes ao conteúdo do texto. Ele vai ser interpretado, à luz de algumas indicações sobre os mundos possíveis nele presentes. Que teia se esconderá por trás das duas personagens? Que fio os une: um sapateiro e uma bruxa?
A narrativa inicia-se contando que “havia um sapateiro que andava a trabalhar de terra em terra e costumava ir consertar sapatos e botas a casa dos clientes” (pág78). Desde logo se nos afigura que esta ocorrência terá sucedido num tempo psicológico pois a forma verbal havia sugere-nos um tempo possível e uma situação geográfica idêntica.
A palavra havia envolta em magia e mistério, assemelha-se a contam os mais antigos… há muito tempo atrás… o que equivale ao Era uma vez... a fórmula mágica para crianças e adultos que tudo suspende no tempo e que é permanentemente actualizável. Por conseguinte, “el niño que sabe que empiezan a contarle un cuento,
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porque oye la fórmula inicial ‘Érase una vez’, adopta la dispositión de entender lo que se le diga de uma determinada forma” (Cervera ,1993:73).
O sapateiro, à semelhança de muitas outras profissões mais humildes, não tinha um local fixo para trabalhar. Por esse motivo, deambulava de terra em terra, de casa em casa. Quando as famílias achavam que já tinham sapatos e botas em quantidade que justificasse a sua permanência em casa, solicitavam a sua presença.
Ao ligar-se a uma profissão de gente simples, dá-nos referências, através dos não ditos sobre a sua condição social e a forma de angariar meios de subsistência. Será um homem humilde que devido à sua profissão ambulante e de permanência periódica na casa dos clientes, adquire um estatuto privilegiado, conhecer o que está para lá da porta de entrada e ultrapassar a fronteira, inacessível a desconhecidos.
Esta forma de vida “errante” aproxima-o da outra personagem – a bruxa. Também ela era chamada a casa das pessoas para fazer os seus “trabalhos” e “consertar” algumas situações físicas ou psicológicas. Por ter a entrada facilitada, na vida doméstica dos outros, estas mulheres foram diversas vezes transformadas em “bode expiatório” de situações que corriam mal e por isso associadas a bruxaria negra.
Um dia, este homem foi solicitado para arranjar calçado “em casa de uma mulher que vivia sozinha” (pág. 78).
Na breve caracterização das personagens está ausente o nome próprio, a idade e traços físicos. Ele é referido como o sapateiro, o homem; ela, como a cliente, a mulher, a bruxa, tal como acontece nos contos de fadas onde bruxas, gigantes, reis e rainhas não têm nome próprio, facilitando, na teoria de Bettelheim, as projecções e as identificações.
Viver sozinha, como esta mulher, pode ser uma atitude voluntária mas o facto de esse celibato ser aqui mencionado pode remeter para algo inusitado, de mal, entre o género feminino. Relacionando a ficção com a realidade, comprovamos que, na Idade M édia, uma das características para se suspeitar de que se estava em presença de bruxas, era o facto de viverem sozinhas e afastadas das povoações. Às mulheres de bem, estava ligado o matrimónio e a família. A cultura popular oral guarda ainda alguns preconceitos a este respeito. Dizia-se que mulher a viver sozinha, solteira, viúva ou estrangeira era conotada com magia, bruxedo, feitiçaria. Era herege. Vivia, por isso, na margem de um sistema político, religioso e social que impunha o seu afastamento e punição. Diz o povo que mulher não pode viver sozinha, tem que casar
cedo e ter muitos filhos; ter homem que olhe por ela. Ainda hoje persistem muitos destes preconceitos. Às mulheres que viviam na margem destes modelos patriarcais, era-lhes imposta uma morte social que se traduzia na privação de direitos e isolamento.
M as como refere a narrativa, este sapateiro é convidado a entrar na intimidade da cliente. Sendo este um pedido formulado pela mesma, cria-se um clima de normalidade, equilíbrio e confiança. No entanto, esta invasão permitida outorga-lhe o direito de descobrir segredos e contactar com dois importantes microcosmos: a casa e o pé. O pé, na sua nudez, assume-se como um fetiche carregado de jogo e erotismo.
Nas crianças, a descoberta do pé é um jogo lúdico frequente. Nos adultos, é um símbolo sexual. Na história da Gata Borralheira, o pé desempenha um papel importantíssimo. É a sua medida certa que lhe proporciona uma mudança radical de vida. De empregada humilhada passa a princesa. Andar de sapatos significava também tomar posse do solo que se pisava. Era tão grande o valor do pé e do calçado que havia um costume antigo em Israel referente a casos de res gate, onde uma sandália de um parente da vítima a ser resgatada, servia para validade da transacção. Na mitologia, encontramos o deus Hermes, protector das fronteiras e dos viajantes. “É um deus calçado, porque ele tem a posse da terra em que está (Chevalier e Gheerbrant, 1997:585-586). Transpondo esta significação para o conto, podemos inferir que este humilde trabalhador é um viajante e ao transpor a fronteira das casas toma posse do espaço que pisa. A expressão popular «andar com os pés assentes na terra» alude à capacidade racional, de reflexão mas também remete para a sua oposição “andar com a cabeça no ar” que será o sonho, a irrealidade. Parece pois haver uma premonição de que aos sapatos/terra se contrapõe o voo/ar.
O facto de esta mulher viver só, pode ser uma decisão natural feminina, sem que daí se tirem conclusões acerca de um possível comportamento atípico.
Supõe-se também que ainda é dia quando o sapateiro entra em casa da cliente dado que eram profissões que não se desempenhavam de noite. No universo rural, onde a indústria e o comércio estavam ausentes, destina-se a noite para descansar dos trabalhos que o campo exige.
Ainda é dia, portanto. A lareira está apagada, o que de forma simbólica transmite a ideia de que os impulsos quentes femininos estão adormecidos. Esses
momentos de tranquilidade doméstica são aproveitados, pelo sapateiro, para tirar as suas dúvidas sobre a hipótese que formulou no início, de esta mulher ser ou não uma bruxa. E comportando-se, não como um trabalhador, mas como alguém que domina o espaço foi à procura de algo. O quê? Que procurava ele numa casa estranha?
Ora quem procura deve saber o que quer. É assim que descobre “num vão de pilheira junto à chaminé um frasco de unguento que ela tinha escondido” (pág. 78) e constrói uma quase certeza que o leva “desconfiar de que a mulher era uma bruxa” (pág.78). A ideia de descobrir o fruto proibido traduz um jogo de sedução que pode ser associado ao mito bíblico de Eva, definida como a responsável por levar Adão a comer da árvore proibida. A maçã no Éden, o unguento neste conto, capacita para o conhecimento do corpo.
Nenhum objecto é colocado, nos contos, por acaso. Ele tem sempre uma função importante e específica. Então que creme será este? E como sabia este estranho que o frasco estava bem escondido numa pilheira (onde estão muitas coisas em pilha, monte) perto da chaminé?
A chaminé, na sua verticalidade, une os dois mundos que aqui se vão retratar: o superior/ar/voo e o inferior/terra/calçado. Ela, que conhece os segredos do fogo, foi a confidente e zeladora de um segredo feminino. Este frasco de unguento200parece pois adquirir a função de objecto mágico, já que, supostamente, as bruxas necessitavam desse creme para efectuar o seu voo nocturno em direcção ao Sabat. A composição deste creme mágico é descrito no M alleus e, mais tarde, no início do século XVII, um dos mais ferozes perseguidores de bruxas, o cientista e juiz Pierre De Lancre, afirmava também que “o êxtase constituía um fenómeno natural provocado pelos ingredientes (escrupulosamente enumerados) dos unguentos da feitiçaria” (Ginzburg, 1995:127). O M alleus refere ainda que era no silêncio profundo da noite que as bruxas percorriam “grandes distância na procura de amantes ou de parceiras ilícitas” (2005:129).
Por outro lado, vamos encontrar a ambivalência, sagrado profano, dos pés e do unguento nos textos bíblicos (onde está presente também o fantástico e o sobrenatural) quando uma mulher se aproxima de Jesus “trazendo um vaso de
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Segundo Brasey (2007:16) “ quel que soit le véhicule utilisé sem ble qu’il ne puisse acquérir ses facultés m agiques que grâces à l’onguent spécial cité plus haut, et sans lequel les balais les m ieuxprofilés seraient incapables de s’élever pareux-m êmes du sol. Mieux encor, le balais ne serait en réalité qu’un artifice inutile, un pur élement décoratif. Si les sorcières volent, c’est uniquem ent grâce à ce fam eux onguent dont elles s’enduisententièrem ent le cors après s’être dévêtues’’. O m esm o autor refere que Apuleio, no século II a. C. na sua obra o Asno de ouro conta a história da bruxa Pam phile e do uso do unguento. Em anexo colocarem os uma receita de unguento.