3.4 Særskilde ordtypar
3.4.3 Kortavleidde verbalabstrakt
O diálogo Palavras Simples tem o subtítulo de Um diálogo e, ao longo da leitura, se apresenta como tal, através da característica desse estilo: a troca verbal entre duas personagens. Este texto possui uma envergadura maior do que o diálogo anterior. Foi publicado em duas (2) colunas do jornal O Rebate, e apresenta maior complexidade na defesa de ideias anarquistas.
Esse texto aborda uma conversa entre um carpinteiro e um operário anarquista que dialogam sobre diversos pontos relacionados à militância anarquista. O Carpinteiro informa que trabalhou na cidade de Pelotas durante um ano e meio. Ao ser questionado pelo Anarquista, afirma que não foi sócio do Sindicato de Classes Várias, pois não era um sindicato exclusivamente de carpinteiros. O Anarquista ressalta que isso não era um empecilho e que houve uma tentativa organizativa por parte de um grupo de carpinteiros, redigindo um manifesto que convidava a todos para se engajar na organização de sua classe. O Carpinteiro se defende dizendo que teve acesso ao convite, mas julgou já ser representado por chefes do Rio de Janeiro e de Porto Alegre. A seguir, conversam sobre as diferenças entre o socialismo e o anarquismo, sobre as leis, sobre os deputados que representavam o povo e sobre o ideal da nova sociedade anarquista.
Com relação as personagens, percebe-se ao ler o texto que se trata de uma troca verbal entre um carpinteiro e um operário anarquista que participa das lutas operárias. O texto oferece esboços de personagens para defender as ideias propostas.
Pavis (2008) destaca que uma personagem é definida por uma série de traços que a distingue das outras, como a sua personalidade e as suas características físicas e morais. Logo, ela pode se definir como: “herói/vilão, mulher/homem, criança/adulto, enamorado/não-enamorado, etc. Tais traços binários fazem dela um paradigma, um cruzamento de propriedades contraditórias” (Pavis, 2008, p.287). No diálogo analisado, Santos Barbosa apresenta de forma esquemática as personagens, dividindo-as nos dois principais tipos de operários que existiam naquele período: o militante engajado e o trabalhador alienado politicamente. Este foco no perfil geral das personagens, e não em suas características mais pessoais, retrata um traço estilístico dos diálogos de Santos Barbosa: o foco na mensagem a ser passada.
Nesse texto, bem como no anterior, o autor simplifica a apresentação espaço-temporal, ou seja, não traz para o diálogo detalhamentos cenográfico-espaciais ou a definição de tempos possíveis para a realização da conversa. Da leitura do texto se retira a informação de que as personagens estão na cidade do
Rio de Janeiro. Mas eles se reportam à cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde o Carpinteiro tinha trabalhado durante um ano e meio. A partir desse tópico se desenvolve o diálogo, que vai abordar alguns pontos nevrálgicos para o movimento anarquista.
Nas primeiras linhas, vem à tona a questão da necessidade dos operários se fazerem associados às organizações anarquistas. Esta é uma das principais características para o sucesso da atuação anarquista através das associações – ou sindicatos -, visto que era destacada a necessidade de estar no meio dos operários, reuni-los, para assim articular e propagar a militância, conforme salienta o anarquista Malatesta:
É preciso que os anarquistas continuem ingressando nos sindicatos antes de mais nada para difundir o anarquismo entre os operários e depois, porque esta é a única forma de que chegue o dia – pelo qual todos esperamos – em que poderemos ter a nossa disposição grupos capazes de assumir o controle da produção. É preciso filiar-se aos sindicatos, finalmente, para lutar com energia contra essa odiosa atitude mental que faz com que os sindicatos não sintam o menor entusiasmo para defender nada além dos seus próprios interesses particulares (1986, p. 204).
A filiação ao sindicato era muito importante e deveria ir além das lutas por melhores condições de vida e salários. O anarcossindicalismo defendia o uso das associações para potencializar o alcance anarquista entre os operários e promover a luta em prol da revolução social.
Com relação à cidade de Pelotas, o diálogo aponta a Liga Operária, também denominada de Sindicato de Classes Varias, como sendo o espaço apropriado para a participação dos trabalhadores que desejarem mudar sua realidade. O Carpinteiro, porém, mesmo sabendo desse sindicato, informa
não ser associado, sob a justificativa de que a Liga Operária de Pelotas não era uma sociedade especificamente de carpinteiros. Esta divisão de organizações de acordo com a categoria dos trabalhadores era muito comum, conforme salienta Farinha Neto: “os sindicatos serão organizados por ofício, por indústria ou por ofícios vários, neste último caso apenas com o objetivo de facilitar e provocar a formação de outras associações de resistência” (2007, p.27).
A Liga Operária de Pelotas, na década de 1910, era uma associação que congregava operários de ofícios diversos:
[...] seu novo estatuto [datado de 1914] transformou-a numa associação de classes várias, para aquelas categorias do operariado ainda não organizadas, adotando a organização sindicalista que tem por base os métodos de ação direta (greve, sabotagem, boicote, label) lutando pela conquista dos direitos do proletariado e sua completa emancipação (Loner, 1999, p. 187).
No entanto, além dessas categorias não organizadas, Beatriz Loner (1999) coloca que a Liga, após mudar sua orientação ideológica optando pelo anarquismo, também servia de sede para a atuação de várias associações e grupos:
[...] servindo sua sede, a Casa do Trabalhador, como base para todas as atividades sindicais e anarquistas da cidade. Nesse sentido, a própria localização geográfica de sua sede, em pleno coração central da cidade, com seus salões amplos, permitindo mais de uma reunião ao mesmo tempo e a construção de um palco-salão, permitiram potencializar as atividades culturais e organizatórias e impulsionar as lutas operárias num ritmo até então nunca alcançado em Pelotas (Loner, 1999, p 185- 186).
Após a referência à ausência de uma associação específica de sua categoria, o Carpinteiro acrescenta mais um
elemento para justificar sua não associação à Liga: “Tinham-me dito que haviam lá chefes idos daqui do Rio de Janeiro e de Porto Alegre...”. Esta fala expõe outro aspecto fundamental para os anarquistas. Segue, assim, a resposta: “Chefes? Como podia ser isso se nós combatemos toda a espécie de chefias”. O Anarquista demonstra sua indignação com a alegação feita pelo Carpinteiro e afirma: “O chefe goza de prestígio e autoridade e o orientador de estima e companheirismo”. Neste trecho, Santos Barbosa expõe uma ideia central da doutrina anarquista: a defesa da igualdade entre os homens, e o repúdio à hierarquização dada a partir das relações de chefia. O Anarquista rebate, afirmando que quem iria expor na cidade de Pelotas eram orientadores do movimento e não lideranças-chefias. O papel do orientador é o de informar os operários, estimular o companheirismo e a solidariedade da classe trabalhadora, e não colocá-la em papel de submissão, comandando-a.
O próximo assunto abordado é o mais pulsante desse diálogo. Ingressando em um debate ideológico efervescente no período em questão, o Anarquista acusa o socialismo e outros partidos políticos de serem oportunistas, não servindo à causa operária.
Carpinteiro - E precisamos nós de anarquismo ou de socialismo para nos associar?
Anarquista – O socialismo tal qual se define atualmente é simplesmente um partido como outro qualquer, e portanto, nada temos de esperar desse sistema...
A década de 1910, conforme já destacada, foi um período de ascensão do anarquismo frente ao socialismo. Sendo assim, no início da década, a presença de representantes da social-democracia nas associações significava um risco para os militantes anarquistas. Santos Barbosa retrata aqui a necessidade de reforçar, nos meios operários, a disputa ideológica presente no dia a dia das associações. Desta maneira, o autor busca manter a hegemonia do movimento operário em consonância com as concepções libertárias. A principal crítica
direcionada aos militantes socialistas era o seu envolvimento na política partidária, como a tentativa de alcançar cargos do governo e, assim, trazer o poder para as mãos operárias. De acordo com Sílvia Petersen:
Enquanto os socialistas consideravam a luta político-partidária uma das vias para a derrubada da sociedade capitalista, a vertente sindicalista do anarquismo considerava que o sindicato e suas lutas de caráter econômico seriam experiências fundantes da futura sociedade ácrata, recusando a participação política e a luta pelo domínio do Estado, vias que apenas instaurariam outro tipo de poder (2001, p.147-148).
Ao questionar o socialismo e os partidos, o Anarquista expõe, também, que:
Anarquista – [...] Jamais o operariado conseguiu melhorias vindas de cima. Um operário no parlamento corromper-se-á incontinente. Passará a ser um deputado e nada mais. Nunca mais se lembrará dos seus antigos companheiros.
A não participação operária nos cargos do governo era uma questão muito defendida pelos libertários. Ao se manter longe de cargos políticos, o operário tinha mais condições de garantir a sua firmeza de princípios e a sua fidelidade à causa operária. Do contrário, se voltaria contra os seus companheiros, conforme destaca o anarquista Proudhon46 (1986, p.101): “temer
46 Pierre-Joseph Proudhon (francês; 1809-1865) - Inspirou a corrente
denominada mutualismo. Os mutualistas sustentam que a nova sociedade deveria ser baseada na cooperação entre as associações, sem o poder coercitivo do Estado. Proudhon acreditava na possibilidade de uma mudança social através da criação de cooperativas e abolição da propriedade, considerada por ele um furto. Participou de barricadas, sendo, inclusive, preso (Costa, 1980; Woodcock, 1986).
o povo é um mal que aflige todos aqueles que estão do lado da autoridade; para os que estão no poder, o inimigo é o povo”.
A seguir, Santos Barbosa expõe para seu leitor os “pseudos-amigos” da classe operária, naquele momento:
Carpinteiro – Então os deputados Mário Hermes e Maurício Lacerda, autores do projeto operário, não são nossos amigos? Anarquista – Qual, meu caro. O que eles são é bastante espertos, isso sim. Depois das últimas greves...
Essa acusação está diretamente vinculada a conjuntura política do período. Mario Hermes e Maurício Lacerda eram deputados federais que sofriam críticas constantes por tentarem tirar proveito dos trabalhadores. O primeiro, filho do presidente Marechal Hermes da Fonseca, organizou, em 1912, um Congresso Operário que entre as resoluções decidiu pela criação de um partido político operário que se denominaria Confederação Brasileira do Trabalho (CBT). Esta foi a tentativa do deputado de estimular a colaboração dos sindicalistas com o governo e transformar as organizações sindicais em órgãos de assistência, excluindo o caráter resistente dos mesmos. O Congresso realizado por Mario Hermes, embora tenha contado com o apoio oficial do governo, não teve boa recepção nos meios operários, contando com poucas participações significativas (Andrade, 199_). Mário Hermes continuou a tentativa de conquistar o apreço dos operários em 1915, quando propôs um projeto de lei de diminuição da jornada de trabalho para oito horas diárias como tempo regular de trabalho, e doze horas como tempo máximo. Essa foi mais uma tentativa do deputado de cativar o operariado, respondendo aos movimentos grevistas que se intensificavam, reivindicando a redução da jornada de trabalho. No entanto, não obteve sucesso, teve sua proposta recusada pelo Congresso, devido à influência empresarial (Ramos Filho, 2009). Segundo Ramos Filho (2009), no ano de 1917, o deputado Maurício Lacerda também propôs um projeto de lei que reduziria da jornada de trabalho, mas, assim como o deputado Mário Hermes, não obteve sucesso.
As partes finais do diálogo defendem os ideais anarquistas, e os temores com os tempos de guerra:
Anarquista – [O anarquismo] Quer que os trabalhadores conquistem pelas suas próprias mãos, aquilo a que tem direito e que lhes foi roubado pela classe rica. Orienta o operariado a fim de que este se emancipando dos preconceitos religiosos, sociais e patrióticos, e prepare ao lado de todos os homens de bem, a grande revolução social, que virá redimir a humanidade do princípio de autoridade e tantos outros males humanos, sociais, físicos e morais... se a atual guerra europeia não nos fizer retrogradar um século.
Neste ponto há a defesa da necessidade da luta da classe operária como único meio de alcançar com efetividade as demandas dos trabalhadores. O Anarquista defende ser necessário recuperar o que foi roubado pela classe rica. Importante salientar que, em contrapartida à necessidade de enfrentamento na luta por justiça, nesta mesma fala há, também, o realce de uma importante bandeira anarquista que é a aversão ao militarismo. O posicionamento contrário ao confronto sem propósito que “a título de defender a pátria, se organizava e se efetivaria [...], para a desgraça da família proletária” (Rodrigues, 1969, p. 229). Nesse sentido, embora não seja o foco do diálogo, há uma rápida referência à Primeira Guerra Mundial, que é exposta como um possível retrocesso para a humanidade.
Na sua fala final, o Anarquista defende a igualdade conquistada pela força de trabalho de todo ser humano:
Anarquista - Quer o anarquista uma nova sociedade em que todos trabalhem na medida de suas forças e consumam segundo as suas necessidades. Quem não trabalhar morrerá de fome e não como hoje que uns comem sem trabalhar e outros trabalham sem comer.
Apesar do título do texto sugerir algo simples, ao analisar a intenção dessa conversa observa-se que vários pontos importantes da ideologia anarquista foram abordados, visando à instrução do público-alvo – neste caso, o operariado. Santos Barbosa é mais um daqueles trabalhadores que se esforçavam para incentivar o operariado a se envolver nas atividades de seus sindicatos, contribuindo para o crescimento da causa operária.