Uma das críticas que Meishu-Sama fez da educação do seu tempo é que ela tinha embutida dentro de si uma proposição que os filósofos chamam de “realismo ingênuo”, isto é, acreditam naquilo que veem, aquilo que existe. Com isso não se questionam as razões do que existe, o que está por detrás da aparência e nem as possibilidades de mudança, pois não conseguem ver a realidade além do que existe e é visto. Esse comportamento é bastante na- tural da trajetória humana porque é expressão do senso comum. Meishu-Sama critica essa postura da educação, que ele chama de “educação materialista” dizendo: “O fato se deve à educação materialista que desde o berço lhes veio sendo ministrada. Nossa missão é conver- tê-los, isto é, reeducá-los. (2000, p. 201)
Para ele, ao se criar uma visão unilateral do que acontece ao redor do indivíduo, também se cria a possibilidade de tornar suas decisões absolutas, encarando-as como verda- des. Ao surgir esse comportamento deixa-se de reconhecer o que se apresenta ao mundo. Consequentemente, enfrenta-se uma educação de mão única, em que o educador é proprietá- rio do conhecimento.
A ambiguidade de possíveis olhares sobre o mesmo problema é ignorado, prevale- cendo “o que o professor ensinou como verdade absoluta”. Visto sob este formato, é retira- do do educando a capacidade de obter uma consciência crítica.
A educação tradicional transmite ao indivíduo uma concepção sofisticada do que é o mundo ao redor dele. As determinantes do processo de conhecimento fazem parte da ampli- tude no qual o cidadão está inserido. Estando ele “capacitado” pelo conhecimento adquiri-
do, torna-se outra pessoa, que participará nos mais diversos campos da sociedade, como elemento de reprodução do conhecimento.
Meishu-Sama denomina como “escola tradicional” esta escola onde o processo edu- cativo é desenvolvido tendo como premissa a repetição do que aprendeu em sua formação. Como uma das decorrências do papel do educador é projetar no educando seus conhecimen- tos, tem-se na educação tradicional e, portanto, repetitiva, a criação de um sistema vertical de ensino, em que, como dissemos anteriormente, o educador é o detentor do conhecimento e o educando, simples receptor.
De acordo com Mizukami: “...é um ensino caracterizado por se preocupar mais com a variedade e quantidade de noções/conceitos/informações que com a formação do pensa- mento reflexivo.” (1986, p. 14) Quando se tem reduzido o termo Educação, se é necessário ressignificar a palavra como “espaço aberto a integração nos mais diversos campos de co- nhecimento”.
Para Paulo Freire, “...a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante.” E prossegue: “Eis aí a concepção ‘bancá- ria’ da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de rece- berem os depósitos, guardá-los e arquivá-los.” (1983, p. 66)
Para o educador Paulo Freire, a educação bancária torna o educando simples objeto de repetição e não sujeito da ação. Na formação deste, não existe o livre pensar, mas sim o livre repetir. Qualquer menção à criticidade é coibida diante da manutenção da falsa forma de educar.
Meishu-Sama diz que “nossa missão é extirpar do homem essa irracionalidade, trans- formando-o em verdadeiro ser pensante, numa verdadeira obra de reforma humana” (2000, p. 58) A irracionalidade a que Meishu-Sama se refere é o lado violento do homem contem- porâneo que ele chama de animalesco, como diz “ ...já não é possível eliminar o caráter a- nimalesco do homem através da educação materialista. O ensino ministrado até hoje, como se pode ver pelos seus resultados, não passa de uma técnica para encobrir esse caráter”. (2000, p. 49)
Ao fazer essa afirmação, ele define qual o trabalho atribuído ao religioso, qual seja, desenvolver sua capacidade de compreender sua missão, por meio da educação e se trans- formar em um ser capaz de ser exemplo. Como diz, um ser isento de doença, pobreza e con- flito. Para essa completude, a intervenção da educação contribui muito, pois por intermédio
dela, esse homem pode atingir todos os benefícios inerentes ao ser humano, como saúde, prosperidade e paz.
Para Carl Rogers, o “ensino centrado no aluno” propõe relações interdinâmicas e seu resultado vai além da expectativa, desenvolvendo a personalidade do educando, libertando-o do “cabresto” e conduzindo-o ao conhecimento, desenvolvendo sua capacidade de reflexão.
Deste modo, o professor torna-se um hábil e criativo personagem na história da for- mação do educando. Não parte dele a construção do conhecimento, mas sim do conteúdo das experiências construídas pelo aluno, em que ele se torna o mediador do processo. Afi- nal, o indivíduo é a partir das experiências por ele vividas nas relações, experiências estas adquiridas no espaço que habita, um ser em permanente transformação.
Segundo Morin: “A missão da educação para a era planetária é fortalecer as condi- ções de possibilidade da emergência de uma sociedade-mundo composta por cidadãos pro- tagonistas, consciente e criticamente comprometidos com a construção de uma civilização planetária”. (Educar na era planetária, 1981, p. 98)
Para compreender o papel do cidadão “sujeito” é necessário oferecer a ele possibili- dade de manifestar seu pensamento, apresentar suas críticas e opinião. Ao fazê-lo, este ho- mem se compromete com o mundo e se torna parceiro da construção de um mundo melhor para todos.
Para Mizukami, “o homem é considerado como uma pessoa situada no mundo. É único, quer em sua vida interior, quer em suas percepções e avaliações do mundo. A pessoa é considerada em processo contínuo de descoberta de seu próprio ser, ligando-se a outras pessoas e grupos.” (1986, p.38)
Como seres sociais, há necessidade de se estar junto, partilhar ideias, falar/ouvir, buscar reciprocidade, o que não acontece hoje, na educação tradicional. No aprendizado se faz necessário, para se atingir outras formas de saberes, perceber de onde possivelmente nascerá o educando capaz de enxergar, no outro, a si mesmo.
Ao compreender a dinâmica do sistema educacional atual, se é possível perceber as necessidades de alteração deste, que está engessado, para aquele, que é transformador, co- meça-se por fazer uma única pergunta: Por quê?
Este questionamento contribui para a “desaprendizagem” dos exemplos, antes dito como perfeito e sinalizados como eficazes, limitadores do processo de descobertas do co-
nhecimento. Antes, dominadores, modelos teóricos capazes de definir o “certo e o errado”. Ao experienciar novos modelos, o indivíduo percebe que os resultados necessariamente não são os mesmos. Contudo, por estar inserido no processo que massifica e é determinante do conhecimento, se faz mudo, torna-se conivente com este e, mais tarde, o reproduz. A repeti- ção, como parte da educação sistêmica, contribui muito para a sustentação da educação tra- dicional.
A ausência de programas capazes de permitir que o indivíduo pense, questione, dis- cuta, alimenta o processo de repetição, mesmo que os estudantes tenham os meios acima.
Nas últimas décadas tem-se visto uma pequena alteração no alimento de expectativa, quanto à educação contemporânea e já se percebe uma preocupação mais acentuada quanto ao processo educacional e seus resultados. Resultados estes desastrosos, bastando para isso certificar-se do alto índice de reprovação nas escolas. Não se espera que a mudança aconte- ça a curto prazo, mas gradualmente, através de experiências adquiridas pelos próprios indi- víduos, dentro do sistema educacional.
Estabelecer critérios para criar determinantes responsáveis por suprir a capacidade de pensar do educando, modela o resultado, reafirmando a proposta da educação formal. Muitas vezes estes próprios modelos quando aplicados apresentam resultados, por comple- xos, levando o educando a internalizar seus questionamentos diante do sistema. A isso, Meishu-Sama chama de pseudoverdade. Em suas palavras:
“Desde tempos remotos fala-se a respeito da Verdade, mas parece que sobre a Pseudoverdade, ou melhor sobre a verdade aparente, ninguém fala. [...] A Verdade e Pseudoverdade existem na Religião, na Filosofia, na Arte e até na Educação”. (2000, p. 34)
Com o afastamento da Verdade, criou-se uma verdade aparente, que Meishu-Sama chama de pseudoverdade. Segundo ele, o responsável por esse afastamento foi o próprio homem. Ao dizer isso, ele introduz a ideia de que esse fenômeno foi provocado pelo distan- ciamento da Natureza. Ao negligenciá-la o homem criou paradoxos interpretativos da ver- dade.
Contudo, como identificar o que é a Verdade e o que é a Pseudoverdade? Para o reli- gioso, Verdade é o estado natural das coisas: “Como vemos, a Grande Natureza ensina ao homem a importância do tempo. Em seu estado original, ela é a própria Verdade, e por isso serve de modelo a todos os projetos do homem. Eis a condição vital para o sucesso”. (2000, p. 447)
Dentro deste princípio, cabe à educação tornar o homem modelo para a sociedade, contribuindo para sua formação. Uma das propostas principais é educar o ser humano a ser moral, social e integralmente humano.
Assim, para Mizukami, o propósito da educação é que o aluno desenvolva sua per- sonalidade e, pelo conhecimento, possa adquirir sua autonomia intelectual, já que a lógica é construída. Sendo assim, a educação é essencial na formação e desenvolvimento do ser hu- mano.
Segundo o pensamento de Meishu-Sama:
“Quanto à educação, também está muito distante do seu verdadeiro ca- minho. Seu real objetivo é formar homens íntegros, isto é, homens que façam da justiça o seu código de fé, e se esforcem para aumentar o bem estar social, contribuindo para o progresso e a elevação da cultura. Na situação atual, porém, até mesmo os que se formam nas melhores esco- las superiores praticam crimes e outras ações que prejudicam a socieda- de. Urge fazer algo para modificar essas condições.” (2000, p. 282) Ao pontuar a reflexão sobre educação, Meishu-Sama apresenta o que para ele é o principal objetivo dela, ou seja, a justificativa para sua existência é a formação de homens honestos, capazes de contribuir com ideias, conceitos, projetos para o desenvolvimento da cultura.
Para Piaget, que vê na educação, um conjunto indissociável:
“... não se pode formar personalidades autônomas no domínio moral se por outro lado o individuo é submetido a um constrangimento intelectu- al de tal ordem que tenha se de limitar a aprender por imposição sem descobrir por si mesmo a verdade: se é passivo intelectualmente, não conseguiria ser livre moralmente”. (1986, p. 69)
Para uma educação alcançar resultados expressivos na formação do educando, é ne- cessário que provoque questionamentos, desperte nos alunos interesse pela pesquisa, o es- clarecimento de suas dúvidas, levando-os a buscar novos perfis na compreensão da realida- de.
Deste modo, a educação deveria promover no aluno o interesse em despertar e ir mais além. Aprofundar sua capacidade de apreender, de motivação, de análise no contexto em que está inserido, para conhecê-lo e tornar possível uma vida melhor para todos. É neste ponto que a observação deve se voltar um pouco para a ética. A educação não é uma sim- ples maneira de transferir conhecimento para os educandos. É, antes, um método de forma-
ção, inclusive moral, do indivíduo, um conjunto de atitudes capazes de transformá-los em um ser social.
Ao pensar escola como meio de aprendizagem, deve-se pensar qual a finalidade da escola. Que indivíduo estará sendo formado por esta escola? Tornar-se-á um cidadão? Sabe- rá ele, qual papel é necessário ser desenvolvido como tal, diante ou dentro da sociedade?
Hoje, percebe-se ser bem maior a preocupação quanto à formação do educando (meio) do que com sua formação moral/cidadã (fim). O homem pode até capacitar-se a de- senvolver projetos, mas é incapaz de se desenvolver como projeto. Sendo este último, proje- to de vida saudável, qualidade de vida ideal. O excesso da capacitação do meio faz apagar a concretude do fim. Poder-se-ia afirmar que tanto meio como fim têm peso e medida.
Ao observar que, seguindo os padrões comuns de aprendizagem, o educando não obtém resultados tão favoráveis, um questionamento precisa vir à tona. Quais os mecanis- mos utilizados que não atenderam às necessidades do indivíduo? Ou que padrões de conduta o cercam fora do espaço escolar? Em qual tipo de vida e relação está o educando inserido? Para atender às especificações dos meios de aprendizagem parece haver mais estudos do que na formação para o fim: tornar o ser, cidadão.