4.2 D AGSONE D RAMMEN
4.2.4 Korridor Vest for Nybyen
José Simeão Leal ocupou parte de sua vida exercendo funções não apenas públicas, o que implica certa dificuldade de classificar, em definitivo, o fundo documental, principalmente quando se leva em consideração que, na teoria arquivística, os arquivos são classificados de acordo com a origem de seus documentos, sem prescindir do processo de acumulação de seu titular. Nesse caso, em especial, apesar de haver classificado o arquivo de José Simeão Leal como fundo privado pessoal, não posso desconsiderar a sua atuação pública, atividade que ocupou a maior parte de sua vida. Essa questão fez com que eu encontrasse, por entre os documentos estritamente pessoais, outros de caráter público, pertencentes a instituições em que exerceu suas atividades, a exemplo do conjunto de atas que retrata a criação da primeira Escola de Design Industrial no Brasil, localizada no estado do Rio de Janeiro.
Perscrutar todo o acervo requereu uma investigação minuciosa, intensa, por entre ilhas de papel velho e embolorado, com o objetivo primeiro de identificar as fontes que chegaram à cidade de João Pessoa/PB, compondo o fundo arquivístico José Simeão Leal. No sentido de recuperar o elenco de fontes acumuladas e preservadas ao longo da existência do titular, e para ter a certeza de que nada havia se espalhado da documentação oriunda do Rio de Janeiro, em fins de 1996, iniciei, com auxilio de historiadores, arquivistas e bibliotecários12, uma busca nas instituições-memória da cidade. Esse contato foi desafiante
para compreender as características de um dado momento histórico ou de diversos momentos na história econômica, social e cultural do País, nos quais busquei alargar, com novos dados, o pensamento de uma época.
Pensando, como Guimarães Rosa, que o real não está na saída nem na chegada, mas se dissipa para nós no meio da travessia, elaborei esta indagação: Qual a contribuição do acervo José Simeão Leal, acumulado ao longo de uma vida, e com que densidade se insere na literatura e cultura brasileiras? Para ir ao ponto, foi preciso ampliar o domínio da observação, da crítica, da história e da memória sobre esse acervo e, com isso, apurar o quanto ele é emblemático da escrita tomada em seu sentido mais geral - uma escrita que comporta abstinência, memorizações, meditações, silêncio e escuta de outro, enfim, uma escrita de si, como diria Foucault (1992).
Como já afirmei, José Simeão Leal foi um dos principais articuladores do processo editorial público, no campo da literatura e da cultura nacional no Brasil e no exterior, de forma intensa, e suas referências têm origem na experiência familiar e na convivência com grandes intelectuais de seu tempo, conforme veremos em momento mais adequado, por meio de depoimentos dos principais expoentes da literatura e das artes em geral. Também exerceu a profissão de médico, professor, adido cultural, editor, artista plástico e escultor. Com efeito, o arquivo pessoal José Simeão Leal testemunha uma existência profícua de seu passado, uma imagem que ele havia construído de si mesmo através do acúmulo, da organização e da conservação de seus documentos, livros e pinturas, principalmente do seu
12 Laudereida Eliana Marques Morais, Maria da Vitória Barbosa Lima, Kelly Cristiane de Queiroz Barros, Regina
Mota, Giuliana Marques Morais, Alberto Sabino, Rosane Coutinho Pereira Lacet, Silmara dos Santos Lima, Maria Rodrigues da Silva e Francisco Pereira Júnior.
desejo tácito de mantê-los e, posteriormente, doá-los à Paraíba, recriando, talvez, o “templo de sua própria memória”, para usar a expressão de Abreu (1996, p. 67), e solidificar sua autoimagem de intelectual.
Assim, José Simeão Leal induziu, em termos, a elaboração de sua posteridade, ao preservar seus documentos pessoais e ordenar acontecimentos que balizaram sua vida, estabelecendo seu lugar social no campo das letras e da cultura. Construiu, ainda, continuidades, linearidades e rupturas em sua trajetória. Em suma, a força, mesmo que despretensiosa, de acumular seus documentos, coerentemente, pareceu almejar seu lugar, marcar relações, permitindo conhecer seus pares, delimitando uma espécie de esboço autobiográfico de seu próprio fazer. Um fazer marcado por tensões e incoerências, silenciado por uma escrita fragmentária que revela seu caráter de homem público, de médico, por via do diploma superior, de propulsor da arte e da literatura. Foi materializando os registros de seu fazer cotidiano que José Simeão Leal se permitiu, depois de morto, reconstituir, nas sombras das lembranças e do esquecimento, “o dizível e o indizível, o memorável e o imemorável”, como disse Venâncio (2003, p.17).
Para trilhar os caminhos percorridos por José Simeão Leal, precisei recorrer ao levantamento bibliográfico para verificar o que já haviam produzido sobre ele e seus feitos, caminho que me permitiu fazer interrogações e, a partir daí, inferir novas questões sobre o objeto em estudo, possibilitando atribuir novos sentidos, novas ressignificações.
A investigação inicial revelou que nada havia de extensivo, substancial e concreto sobre a personagem, exceto algumas poucas publicações impressas e outras acadêmicas. A primeira indicação foi a obra de Herman Lima, História da caricatura no Brasil, editada em 1963, pela editora José Olympio, no Rio de Janeiro, que retrata um portrait-charge de José Simeão Leal, desenhada pelo caricaturista Alvarus (Álvaro Cotrim). Apesar de a obra trazer a ilustração, a menção está voltada muito mais para o caricaturista do que para o caricaturado.
Ainda em relação a José Simeão Leal, uma rápida referência foi encontrada no Dicionário Literário da Paraíba, organizado por Idelette Muzart Fonseca dos Santos (1994), que alude ao seu nome na galeria dos folcloristas, ladeados por Coriolano de Medeiros, Altimar Pimentel, Ademar Vidal, entre outros.
Em nível acadêmico, encontrei a Dissertação de Patrício Araújo Duarte, aqui já referida, em que, apesar de registrar traços da vida de José Simeão Leal, o pesquisador não
deu conta de sua efetiva trajetória, principalmente por limitar sua atuação na Revista Cultura, mais especificamente, quando pensado sob a perspectiva do indivíduo e da sociedade na qual estava inserido. Encontramos mais outras menções ao seu nome na dissertação de Regina Álvares Correia Dias, intitulada O Ensino do design: a interdisciplinaridade na disciplina de projeto em design, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção, da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2004, que o menciona como um dos membros da comissão de elaboração da nova estrutura curricular da Escola de Desenho Industrial no Brasil (ESDI), juntamente com os professores Flávio Aquino, Carl Heinz Bergmiller, Alexandre Wolnner, entre outros.
Outras rápidas menções a José Simeão Leal ocorreram nos trabalhos de conclusão de curso de graduação em Biblioteconomia, também já referidos. O primeiro, da autoria de Josefa Lopes de Souza (2001), voltou-se para a elaboração do diagnóstico fisicoambiental, com vistas a identificar o nível de temperatura e de umidade a que estava submetido o acervo, além de traçar um mapeamento das condições de conservação física dos documentos. O segundo, da autoria de Cecília Rima Dutra, apresentado em 2004, analisou, como corpus da pesquisa, 21(vinte e uma) cartas passivas, extraídas do arquivo pessoal de José Simeão Leal, concebendo-as na condição de registro documentário, veículo informacional e cultural. Assim, objetivando compreender suas relações sociais e culturais, procedeu a um levantamento biográfico dos correspondentes para avaliar o contexto em que se inseriam suas relações culturais. Em face dessa articulação, a autora percebeu a atuação dinâmica de José Simeão Leal no contexto cultural brasileiro e fora dele, bem como sua relação com os intelectuais identificados. Seu pensamento sobre a cultura e a arte fora ressaltado nesse trabalho.
O terceiro, datado de 2005, de autoria de Perpétua Emília Lacerda Pereira, consistiu em reconstruir seu perfil de leitor, através da História Oral, para mostrar a relação entre José Simeão Leal e um amigo íntimo. As declarações revelaram pontos interessantes de sua convivência com o leitor José Simeão Leal, assim como possibilitaram traçar, em linhas gerais, suas práticas de leitura.
Outros trabalhos, em formato de artigos científicos, foram publicados na Revista Eletrônica Biblionline, como resultado dos TCCs já mencionados. Ressalte-se, todavia, que a revista prioriza colaborações inéditas, originadas de Trabalhos de Conclusão de Cursos (TCC) de Graduação em Administração, Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da
Informação, Gestão da Informação e Museologia, sendo vinculada ao Departamento de Ciência da Informação/UFPB13.
Outras referências foram encontradas, na obra O livro no Brasil, de Laurence Hallewell, que se refere a Tomás Santa Roza como o maior produtor gráfico de livros no Brasil e, sobretudo, como revolucionário, devido ao aspecto físico de obras editadas pelo Governo Federal, referindo-se ao Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura, principalmente a partir de 1947, com a colaboração de José Simeão Leal14.
A outra se verifica na obra de Brito Broca, intitulada Vida literária no Brasil (2004, p. 17), prefaciada por Francisco de Assis Barbosa, escritor e crítico literário, que testemunha o esforço de José Simeão Leal em prol da produção literária nacional, ao assinalar que, “não fosse a insistência de José Simeão Leal, diretor do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, jamais teria sido publicado o livro que lhe daria notoriedade” [referindo-se a Brito Broca] e, por essa razão, chamou Simeão Leal de pai do livro, na primeira edição, e de tio, na segunda, publicada por José Olympio. Essas referências permanecem até a quarta e última edição, publicada em 2004.
Há, também, a Revista Poesia para todos, publicada pelas edições Galo Branco, com a finalidade de divulgar a obra de poetas brasileiros, sob a responsabilidade editorial de Waldir Ribeiro do Val, que, na seção homenagem do ano V, volume 6, lista os 140 títulos dos Cadernos de Cultura criados e editados por José Simeão Leal. Para Waldir Ribeiro do Val (2004, p. 69), “todos os que viveram no Rio [de Janeiro], nas décadas de 50 e 60 do último século, desejaram ou colecionaram algumas dessas valiosas pequenas publicações”.
13 Disponível no Endereço eletrônico: http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/biblio. ISBN: 1809-4775. Nesse
periódico, foram veiculados dois artigos de interesse: o primeiro, publicado com o mesmo título do TCC, apresentado ao Curso de Biblioteconomia, já mencionado anteriormente, José Simeão Leal: na tessitura da história cultural brasileira, de autoria de Cecília Rima Dutra e Bernardina Maria Juvenal Freire, editado no v.1, n.1 de 2005. O artigo toma como corpus analítico parte das correspondências recebidas por José Simeão Leal, no período que compreende os anos de 1944 a 1991. Metodologicamente, adotou-se uma abordagem descritiva, por vezes comparativa, associada às contribuições da Análise de Conteúdo, na perspectiva bardaniana. Os resultados revelaram que José Simeão Leal extrapolou as relações, em nível nacional, sobretudo se considerarmos o desempenho desse intelectual no campo das artes, da cultura e da informação. O segundo artigo, Memórias de leitura: prática leitora em José Simeão Leal, escrito por Perpétua Emília Lacerda Pereira e Bernardina Maria Juvenal Freire, publicado no v. 2, n. 2, 2006, revelou traços, gestos e costumes de um modo peculiar de ler, individualizado e, ao mesmo tempo, extensivo. Os resultados conferem certa legibilidade possível em suas práticas leitoras.
14 Nas duas edições da obra, O Livro no Brasil, de autoria de HALLEWELL, Laurence, o nome de José Simeão
Leal aparece, erroneamente, grafado como José Simões Leal. Para conferir, consultar a página 378 da 1ª edição, datada de 1985, e a página 463, da 2. ed. revista e ampliada, datada de 2005.
Os Cadernos de Cultura eram pequenos livros de bolso de assuntos variados, indo da literatura às artes plásticas, passando por folclore, teatro, sociologia, antropologia. Nesses pequenos Cadernos de Cultura, destinou alguns volumes para publicar a poesia brasileira, intitulando- os 50 Poemas escolhidos pelo autor, iniciando a Série com o poeta Manuel Bandeira, em 1955. Em meados de 2007, o crítico e ensaísta José Roberto Teixeira Leite publicou a obra Di Cavalcanti e outros perfis, editada pela Edifieo, em que o autor revela, através de flagrantes instantâneos, momentos de convivência com personalidades da cultura brasileira, dentre as quais, destaca José Simeão Leal. O livro memorialístico do autor, escrito em pequenas crônicas, consegue fundir um retrato diário a uma linguagem literária. Todavia, por se tratar apenas do recurso da memória pessoal, o autor confunde-se em relação a algumas datas referentes a José Simeão Leal, como, por exemplo, a de sua morte, que ocorreu em 1996, e não, em 1999, como registra.
A obra contradiz, ainda, a relação pessoal entre José Simeão Leal e Celso Cunha. Havia entre ambos uma proximidade amigável, inclusive, residiam no mesmo edifício. A quantidade de cartas e de cartões trocados entre eles revela uma convivência amigável, respeitosa e divertida, em que a boa provocação perfilava a relação. Os comentários, encontrados na crônica do crítico Roberto Teixeira Leite, de que havia certa animosidade entre José Simeão Leal e Celso Cunha, são passíveis de correção, pois se trata de rememorações puramente pessoais.
As lacunas registradas na obra de Teixeira Leite podem ser frutos de duas questões básicas: a primeira, pelo modo silencioso com que José Simeão Leal encarava a vida, fugindo de repórteres, e a ausência de escritos próprios. A outra remete, provavelmente, à falta de contato dos pesquisadores com o seu arquivo pessoal que, apesar de doado em 1996 ao Estado da Paraíba, ainda não foi aberto ao público por falta de tratamento técnico e espaço físico adequado. Apenas as cartas, as pinturas e os inéditos estão disponíveis ao público, por estarem sob custódia no NDIHR/UFPB e terem sido organizados por ocasião da elaboração desta tese.
Operacionalmente, tomei o Arquivo pessoal de José Simeão Leal como fonte autobiográfica de pesquisa e, por consequência, uma fonte histórica e literária, em que se incluem documentos pessoais, objetos de uso pessoal, medalhas, moedas, objetos de registros pessoais, esculturas, produção artística, fotografias, fitas de rolo, partituras, documentos manuscritos e impressos, dos quais, 180 (cento e oitenta) pastas suspensas com documentos diversos, contendo: correspondências manuscritas e datilografadas - tanto ativas quanto
passivas - totalizando 2007 (duas mil e sete) unidades, cartões e telegramas; 34 (trinta e quatro) caixas de polionda; 2.667 (dois mil, seiscentos e sessenta e sete) volumes bibliográficos, dos quais, 308 (trezentos e oito) contêm dedicatórias de outrem para José Simeão Leal; 333 (trezentos e trinta e três) quadros de sua própria produção, quase todos desenvolvidos com técnica mista; 05 (cinco) esculturas em ferro, além de um conjunto de fotografias ainda em processo de contagem e organização.