4.2 D AGSONE D RAMMEN
4.2.6 Korridor Sundland vest
Areia desenvolveu e abrigou inúmeras famílias, “gente opulenta” e de “boa linhagem”16, entre as quais, a família Santos Leal, que cresceu como proprietária de terras,
políticos e comerciantes. Os primeiros registros que se tem sobre a família Santos Leal
16 A esse respeito, consultar a tese de autoria de MARIANO, Serioja Rodrigues Cordeiro. Gente Opulenta de Boa
Linhagem: família, política e relações de poder. 2005. 284f. Tese (Doutorado em História) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2005.
datam do início do Século XIX e surgem com José Antônio dos Santos Leal17 e Maria dos
Santos Leal, pais de doze filhos, dos quais se destaca Joaquim dos Santos Leal, chefe da irmandade, senhor de terras em Areia, comandante da Guarda Nacional e líder da facção Liberal e revolucionário da insurreição Praieira18.
Não se pode dizer que Areia seja o berço dos Santos Leal, contudo se pode afirmar que essa cidade foi, por muitos anos, o lugar privilegiado da família. O Brejo de Areia, como era conhecido nos Séculos XVIII e XIX, era habitado pelos índios Bruxaxá, da nação Cariri. Ao que tudo indica, a povoação de Areia, fundada por portugueses, surgiu nos idos do Século XVIII, embora os primeiros registros de sua história, a que tive acesso, datem do começo do Século XIX. Expulso de sua terra, o homem nativo cede lugar ao colonizador português. Essa cidade, foi firmada na categoria de Freguesia19, desde 1814, através do Alvará de 22 de junho do
mesmo ano, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição (ROHAN20, [1870?], f. 151). O
17 Oriundo, provavelmente, da cidade do Recife/PE, exerceu as atividades de mascate. Ao estabelecer-se na
cidade de Areia, no inicio do Séc. XIX, tornou-se comerciante e dono de terras. Veio a falecer em 1834, tendo sido membro da câmara municipal e revolucionário de 1824, na Confederação do Equador.
18 Apesar de autores como Marson (1980); Machado (1983); Mariz (1946); Barros (1973); Quintas (1967) e Fiúza
(2002) denominarem o evento de movimento, revolta ou rebelião, para fins deste estudo, adotei a expressão insurreição, compreendendo-a como uma contraposição à ordem vigente estabelecida pelo poder dominante (BRAVO, 2000). Segundo Marson (1980), a insurreição foi motivada pelas restrições impostas pela Inglaterra no que diz respeito ao tráfico intercontinental de escravos, resultando, assim, em uma prática de contrabando por parte dos senhores de engenhos. Agregue-se, ainda, a esse fato a questão do monopólio de terras, comercial, industrial e artesanal, desencadeando a insatisfação popular e de parte da elite proprietária de menores posses, da região norte de Pernambuco, contra os latifundiários da Zona da Mata e os comerciantes portugueses, além da permanente disputa entre conservadores e liberais, com a participação de paraibanos, como Joaquim José dos Santos Leal (Major Quincas), que era tio-bisavô de José Simeão Leal. A esse respeito, consultar as obras de Mariz (1946); Marson (1980) e Fiuza (2002). Joaquim José dos Santos Leal envolveu-se politicamente com o partido liberal, porém sua trajetória pessoal foi marcada, também, por seu trágico envolvimento com Carlota Lúcia de Brito, levando-o à prisão. O casal foi julgado e condenado pelo assassinato de Trajano Alípio de Holanda Chacon, liderança conservadora em Areia. Transferido logo após o veredicto para Fernando de Noronha, Joaquim José dos Santos Leal cumpriu pena até a morte. Cego, envergonhado, traumatizado e triste, sofria as consequências de suas ideias liberais e de sua insólita aventura amorosa (ALMEIDA, 1980). A partir de então, a família Santos Leal sofreu com os vestígios desse acontecimento. Alguns membros deixaram a cidade de Areia, espalhando-se pelo estado. O caso Carlota inspirou, em 1982, o primeiro longa metragem, em cores, produzido na Paraíba por Machado Bittencourt, baseado nas representações construídas por ALMEIDA, Horácio de. Brejo de Areia: memórias de um município. 2. ed. João Pessoa: Editora Universitária, 1980. A esse respeito, consultar a página 40 do Laudo Técnico do Acervo Machado Bittencourt, realizado no ano de 2006 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba (IPHAEP), através da Coordenadoria de Assuntos Históricos, Artísticos e Culturais (CAHAC), sob a Coordenação das historiadoras e arquivistas, Laudereida Eliana Marques Morais e Maria da Vitória Barbosa Lima.
19 Ver documento da CONSULTA da Mesa de Consciência e Ordem, Rio de Janeiro 29 de janeiro de 1813, pertencente
ao Arquivo Nacional.
20 Henrique Beaurepaire Rohan, presidente da Província da Parahyba do Norte, entre os anos de 1856 a 1858,
escreveu o manuscrito intitulado Chorografia da Parahyba do Norte, provavelmente, na década de 1870. Os originais encontram-se na Biblioteca Nacional com a localização seguinte: 4, 3, 23.
processo de sua criação se inicia em 1811, quando da solicitação, através de um requerimento ao ajudante Antônio José de Barros, administrador do Patrimônio da Capela de Nossa da Conceição, da sua divisão da freguesia da Igreja Matriz de São Pedro e São Paulo de Mamanguape, e a criação de uma nova freguesia na dita capela para atender às almas dos fregueses lá existentes. A povoação foi instalada em 30 de agosto de 1818, sob o comando solene do Ouvidor Geral, André Pereira Cirne, ecoado pelos aplausos da população que assistia ao ato e, em seguida à escolha, em assembleia, dos vereadores que, a partir daquele momento, conduziriam os destinos da nova Vila (ALMEIDA, 1980). E, muito depressa, havia Areia de passar à frente de todas as outras vilas já existentes, favorecida por circunstâncias climáticas e de solo fértil, tornando-se fornecedora de rapadura, cereais, legumes, farinha de mandioca, polvilho, aguardente, algodão, gado vacum, café em menor escala, entre outras especiarias, transformando-se no “celeiro dos sertões” (ROHAN, [1860?], f. 54); (FIUZA et al., 1998, p. 18), e centro de comércio, um verdadeiro “oásis da redenção”, na visão ufanística de Almeida (1980, p. 36). A Vila se desenvolveu e foi elevada à condição de cidade pela lei provincial nº 2, de 18 de maio de 1846.
Na Terra dos Bruxaxá, frutificaram as letras e os ideais libertários de seus filhos. Essa ‘pequena grande’ territorialidade provinciana teve, ainda no Século XIX, um cotidiano pontuado por florescimentos políticos, intelectuais, culturais e educacionais que diferenciaram seu lugar na estrutura vigente de uma sociedade marcada por atrasos herdados do período colonial. De outro modo, essa cidade lança-se sob um ativismo cultural, educacional e político, rompendo, em alguns momentos, as imposições do regime imperial. Nesse lócus, têm-se os primeiros registros da família Santos Leal.
Cidade bucólica de arquitetura colonial, Areia encontra-se na zona intermediária entre o Agreste e o Sertão. Mostra-se exuberante em sua vegetação que, extensa, cobre a terra feroz. É no final do Século XIX que entra no cenário político o paraibano Antônio Simeão dos Santos Leal, tio paterno de José Simeão Leal. Nasceu na cidade de Areia, em meio às reminiscências ainda conflituosas da família Santos Leal, em 11 de maio de 1874. De refinada educação, Antônio Simeão dos Santos Leal exerceu atividades de mascate no interior da província, mas se firmou como comerciante em sua cidade natal, em sociedade com seu pai. Todavia, não descuidou de sua formação básica, buscando dar-lhe continuidade. Ingressou no Lyceu Paraibano por volta de 1893, através do curso preparatório que o levaria à Faculdade de Direito na cidade de Recife e se tornou bacharel em 1896, aos 22 anos de idade. Pouco antes mesmo de sua formatura, ele retornou à cidade de Areia para exercer,
por nomeação, o cargo de Promotor Público, depois ocupou o cargo de Juiz de Direito da Borborema (atualmente cidade de Cuité). Foi nomeado, ainda, Presidente da Comissão Judiciária, encarregada de instaurar inquérito, na cidade de Princesa Izabel, em um crime de homicídio praticado contra um médico local.
De atuação jurídica passageira, Antônio Simeão Leal logo seguiu a tradição de seu tio-avô, Joaquim José dos Santos Leal, envolvendo-se na política em 1895, levado pelo primo, Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal. Com apenas 21 anos, tornou-se, na República, um líder respeitado do Partido Republicano da Paraíba. Sua forte e corajosa atuação traz à cena a família Santos Leal, fazendo-a ressurgir das cinzas. Assim, ressaltou, ainda mais, o passado esquecido, um poder sucumbido, pois, ligado por laços de parentesco, aliou-se ao alvarismo, na luta contra os Cunha Lima, em Areia, do Partido Autonomista21.
Projetou-se para fora dos limites municipais, assumindo a chefia de polícia local e, posteriormente, do estado, cargo que, na Primeira República, tinha grande prestígio. Figurava entre as posições públicas mais influentes do governo22, na administração do Desembargador
José Peregrino de Araújo (1900-1904), tornando-se o homem de confiança e predileção sucessorial.
A esse respeito, relata Trigueiro (1982, p. 27-28): “Peregrino [José Peregrino de Araújo] tomou-se de encantos por seu Chefe de Polícia e quis fazer dele o seu sucessor na Presidência do Estado. Para isso, foi ao extremo de reformar a Constituição. [...]”. Essa ideia foi considerada como inoportuna por Álvaro Machado, que via na atitude do Presidente uma ameaça ao seu prestígio e contestação da sua autoridade. Em face dessa interpretação, Álvaro Machado retorna do Rio de Janeiro para o estado e se candidata ao cargo, deixando Antônio Simeão Leal com a vice-presidência. A manobra política adotada por Álvaro Machado “visou menos à eleição do que ao impedimento de Antônio Simeão Leal ao Cargo” (TRIGUEIRO, 1982, p. 24), considerando a falta de confiança que lhe depositava. Eleito, Álvaro Machado, engenhosamente, faz outra manobra política, pois se destituiu do cargo e passou às mãos de Walfredo Soares dos Santos Leal, que, por sua vez, deixa sua vaga na Câmara dos Deputados, e é substituído por Antônio Simeão Leal, cuja atuação nquela Casa legislativa só teve fim
21 Segundo Gurjão (1994), na Paraíba, entre os anos de 1892 e 1908, havia dois partidos políticos: o Partido
Republicano da Paraíba, sob a liderança de Álvaro Machado, cujos partidários eram conhecidos como alvaristas. Era a coligação dominante; e o Partido Autonomista, que fazia oposição, liderado por Venâncio Neiva, cujos partidários eram denominados de venancistas.
com sua morte, em 13 de novembro de 1921, aos 47 anos, deixando viúva Amélia Regis, única herdeira, com quem contraíra matrimônio em 1901.
De abnegada qualidade política, Antônio Simeão Leal conquistava as pessoas, todavia “transigiu Simeão e esse é um ponto de fraqueza na sua carreira, amoldando-se aos estilos da política do tempo, ou – quem sabe – de todos os tempos” (PEREIRA, 1974, p. 19). A partir de então, passou a caminhar sozinho. Ele fazia seu próprio percurso político e se reelegeu sempre pela oposição23, situação galgada por suas posições e sua maneira polida
de conduzir os assuntos políticos. Ainda segundo Pereira (1974), o deputado era um excepcional servidor do povo paraibano. Servia a todos, indistintamente, independentemente de ser seu adversário ou não. Essa maneira amistosa de servir foi, aos poucos, permitindo seu livre trânsito entre todos os correligionários e futuros correligionários, como comumente tratava seus opositores. Referindo-se ao Deputado Antônio Simeão Leal, Almeida (1980, p. 177) assinalou que, dos políticos da Paraíba, ele foi o mais popular, “sem preocupar-se jamais em cultivar personalidade encantadora. Com esse dom de espírito, nascido da bondade natural, prendia amigos e desarmava inimigos”. Tinha como princípio não alegar favores nem cobrar recompensa, pois “nada fazia com objetivos políticos”.
Sobre o assunto, acrescenta Mariz (1945, p. 12):
Este Simeão, Antonio Simeão dos Santos Leal, era também outra bela expressão d´alma da família areiense. Quando eu era estudante, começava a garatujar bobagens na imprensa e adotava como próprios os pontos de vista e combates de Artur Aquiles, fui inimigo de Simeão. Tinha horror ao que me parecera sua responsabilidade nas perseguições contra os Cunha Lima e no empastelamento de jornais da Capital. Ataquei-o muito, ataques a que em minha jactância juvenil eu atribuía muita importância e dos quais ele talvez nunca
23 Entre os anos de 1908 e 1912, os partidos políticos paraibanos eram denominados de Partido Republicano
Conservador da Paraíba, sob a liderança dos alvaristas e venancistas, e de Partido Democrático, constituído por dissidentes e velhos liberais inconformados com o conservadorismo do Partido Republicano. Os anos de 1912 a 1915 ficaram conhecidos, na historiografia política paraibana, como o período de transição do domínio alvarista para o epitacista. Em 1912, morre Álvaro Machado e surge, como a grande liderança local, Epitácio Pessoa. Em 1915, Epitácio Pessoa torna-se a liderança máxima do partido e do estado, sob a insígnia do Partido Conservador Paraibano, uma das facções do Partido Republicano Conservador, na Paraíba. A família Santos Leal e outras, como a dos Machado e dos Milanez, permanecem no Partido Republicano Conservador da Paraíba, agora como oposição aos epitacistas. A esse respeito, consultar Gurjão (1994) e Lewin (1993).
deu fé ou nunca haja sentido a dor de nenhum. Mas se deu e sentiu, desdenhou, revelou, por cálculo, por experiência, por bondade, como fazia com os de todo mundo. Por isso todo mundo acabava rendido ao seu coração, digamos mesmo, ao seu encantamento.
Esse encantamento parece fluir como característica familiar dos Santos Leal, a exemplo de Joaquim José dos Santos Leal, Antônio Simeão Leal e, na geração seguinte, José Simeão Leal. Todos com boa retórica e capacidade de envolver as pessoas pela afetividade. Em relação a Antonio Simeão Leal, Mariz (1945, p. 164) expressa:
Mas Simeão era a simpatia em pessoa. Tratar com ele era arriscar-se à fascinação que se desprendia de qualquer força envolvente da sua personalidade. Foi assim que o vi anos depois de minha ogerisa e oposição, tão contente em me conhecer, tão admirado, tão disposto a me servir, se eu tivesse precisado dele. Que Simeão tinha mania de servir, de ser útil aos paraibanos que o procuravam aqui ou no Rio [de Janeiro], onde alcançou muitas relações e muito prestígio nos ministérios e nas altas rodas políticas. Gostava de agradar, de enleiar os conterrâneos. [...] Simeão não era destes, servia mesmo, trabalhava devotadamente, acompanhava o amigo nas repartições, arranjava o emprego, comprava a passagem do conterrâneo pobre, lembrando-se de qualquer voto ou obséquio, esquecendo, perdoando, desprezando qualquer passado de divergência e de amargura24.
Para além de político e jurista, Antônio Simeão Leal dedicou-se, em 1899, à carreira editorial, fundando o Jornal Cidade de Areia, de teor político, que teve pouca duração25. No
jornal, exerceu, provavelmente, atividades de editor (ALMEIDA, 1980), atividade que, em 1947, seria seguida por seu sobrinho José Simeão Leal, com uma significativa diferença, considerando que a carreira de editor do sobrinho foi assumida por ocasião da ocupação do cargo de Diretor de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, na cidade do Rio de Janeiro.
24 A descrição feita por Mariz (1945, p. 164) parece ter sido ratificada pelo poder público, que o homenageia com o
nome de rua, nas cidades de Campina Grande e Santa Rita, e com uma Praça Pública, na cidade de João Pessoa/ PB. Essa ressalva se torna importante pela persistente confusão que faz, ao dizer que as homenagens correspondem a José, quando, na verdade, correspondem a Antônio Simeão Leal, seu tio, a exemplo da notícia veiculada no Jornal A União, datado de 11 de novembro de 2008, por ocasião das comemorações alusivas ao seu centenário de nascimento.
25 Apesar das buscas nos arquivos da Paraíba e de outros Estados, não foi localizado nenhum exemplar desse
Enquanto Antônio Simeão Leal abraçou a carreira política, seu irmão, Alfredo Simeão dos Santos Leal seguiu outra tradição familiar, tornando-se comerciante em Areia, dono de seu próprio estabelecimento. Registra Almeida (1980, p. 176) um episódio ocorrido nas dependências do comércio de Alfredo Simeão dos Santos Leal:
Poucos meses depois de haver [Antônio] Simeão Leal assumido a Chefatura de Polícia [...]. Era comandante do destacamento local o tenente Garcez, oficial que tinha fama de truculento, sobretudo quando se achava embriagado. Em tais condições procedia com a irresponsabilidade de louco. Em janeiro de 1901, ao cair da tarde de um sábado, já bastante bêbado, entrou no estabelecimento [comercial] de Alfredo Simeão, fez compras e foi saindo sem falar em pagamento. Advertido pelo comerciante, sentiu-se ofendido e, tomado de súbita cólera, sacou de uma faca, não se dando de que investia furiosamente contra o irmão do Chefe de polícia [do Estado]. Acontece que na loja estava também Pedro Simeão [terceiro filho de Laurinda], rapaz resoluto, que trabalhava de caixeiro para o irmão. De um salto, atracou-se com o Garcez, tomou-lhe a faca e ainda aplicou-lhe fortes cachações.
Depois do episódio, o tenente foi ao quartel, encheu-se de armas e soldados e foi, furioso, em busca da família Simeão Leal. Bateu à porta do sobrado, ameaçando lavrá-lo a bala e espada. A portas fechadas, sem reação alguma, encontravam-se Francisco Simeão Soares da Costa, seus filhos, Alfredo Simeão dos Santos Leal e Pedro Simeão dos Santos Leal, e D. Sinhá, de resguardo de uma filha. O fato desastroso comoveu alguns moradores, que foram tentar demover o tenente da ideia, mas ele os recebeu com a mesma ira: “o alucinado oficial correu com todos a golpes de espada e ameaças de fuzilamento” (ALMEIDA, 1980, p. 176), efetivando a promessa, lançando sobre a casa rajadas de bala. Movido por uma momentânea insanidade, o Sr. Pedro Domiciano Marinho, caixeiro-viajante de outro comerciante da cidade, por nome de Belízio Zumba, abriu a porta do estabelecimento, situado em frente ao sobrado dos Santos Leal, em que ficou recolhido para observar melhor o sangrento espetáculo, conforme sugere a narrativa:
Teve a imprudência de deixar acesa a luz do estabelecimento, [...]. O reflexo da luz interna chamou a atenção de Garcez que, num movimento rápido, pegou o infeliz moço e mandou açoitá-lo com tanta estupidez até vê-lo estendido na calçada, como morto (ALMEIDA, 1980, p. 177).
A distração despretensiosamente provocada pelo caixeiro-viajante pode ter sido a causa da salvação da família encurralada no sobrado. No dia seguinte, o tenente veio escoltado e preso para a Capital.
Na sua forma de ser, Alfredo Simeão dos Santos Leal dedicava-se ao comércio, no qual se vendia todo tipo de mercadorias, centralizando os negócios no casarão da águia ou das onze portas, como era denominado, localizado no centro da cidade de Areia, como mostra registro imagético, comércio para a época considerado de grande porte.
Fotografia 1: Fachada frontal da Casa Comercial de Alfredo Simeão Leal, à época na cidade de Areia/PB.
Fonte: Arquivo pessoal do Sr. Walfredo Silva (Sr. Vavá – Areia/PB) Foto: Freire, Bernardina
Fotografia 2: Fachada frontal da Casa Comercial de Alfredo Simeão Leal na cidade de Areia /PB em 2008.
Fonte: Arquivo pessoal do Sr. Walfredo Silva (Sr. Vavá – Areia/PB) Foto: Freire, Bernardina
Na capital, Parahyba, continuou sua vida de comerciante ao lado do primo e farmacêutico Augusto de Almeida, atuando no ramo de medicamentos, em sociedade igualitária26 com ele. Além de sócio, Augusto de Almeida recebia um pró-labore pelas funções
de farmacêutico. Assim, inaugurou, em 31 de julho de 1924, o estabelecimento comercial denominado de Pharmacia Pasteur e Drogaria Pasteur, situada à Rua Maciel Pinheiro, 225, tendo como capital inicial o valor de 150:000$000 (cento e cinquenta contos de réis), obrigando-se cada um dos sócios a quantia de 75:000$000 (setenta e cinco contos de réis). Teria a sociedade a duração de cinco anos, podendo se desfazer dela qualquer um dos sócios, desde que pagas e cumpridas todas as cláusulas contratuais27.
26 Sociedade igualitária, com a razão social Almeida & Simeão, registrado na Junta Comercial, em 14 de agosto de
1924.
A Sociedade não durou muito. Foi desfeita em 01 de abril de 193228, por interesse
de Augusto de Almeida, passando para o sócio plena e geral quitação sobre o motivo da sociedade em distrato. Cada um passou a tocar o próprio negócio. Alfredo Simeão continuou com a drogaria29, agora situada à Rua Maciel Pinheiro, número 218. Ao que tudo indica,
ele necessitou contrair empréstimo ao Banco do Povo, obrigando-se a pagar uma quantia mensal no valor de 1:080$000 (hum conto e oitenta mil réis), aumentando ainda mais as despesas. Todavia, demonstrava ser um homem de atitudes comedidas, e a sua esposa,