4.2 D AGSONE D RAMMEN
4.2.7 Korridor Pukerud
Ia Alfredo Simeão dos Santos Leal vivendo em sua cidade natal até contrair matrimônio, na primeira década do Século XX, com a areiense, Maria de Almeida Leal, irmã de José Américo de Almeida, filha de Josefa dos Santos Leal e de Inácio Augusto de Almeida e cujos avós maternos eram D. Maria Emília dos Santos Leal e Matias Soares, pais também do Monsenhor Walfredo Soares dos Santos Leal. Do relacionamento matrimonial entre Alfredo Simeão dos Santos Leal e Maria de Almeida - D. Maroquinhas, como era conhecida – nasce o primeiro filho, José Simeão Leal, na cidade de Areia, em 13 de novembro de 1908. Foi batizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, no dia sete de Janeiro de 1909, sendo seus padrinhos o tio, político e escritor, José Américo de Almeida, e Nossa Senhora, conforme cópia do batistério, pertencente ao AJSL.
Parochia de N. S. da Conceição de (Areia) (1937)
Certifico que a flª 29 do livro nº 33 de assentos de Baptizados do Archivo desta Parachia sob o nº 20 se encontra o teor seguinte, Aos sete de janeiro de 1909 na Matriz, Baptizei solenimente O...(José) nascido a 13 de novembro do ano findo. Filho legítimo de Alfredo Simião dos Santos Leal e Maria de Almeida dos Santos Leal, sendo seus padrinhos Dr. Jose Américo de Almeida e N. S. do que para constar mandei fazer este assento que assigno,
Vigo Cª odilon benvindo;
E nada mais continha o dito assento que fielmente fiz copiar do Original a que mi Reporto; Eu fide parochi
Areia, 2-VII-937 Pr. Antônio Costa, Vigário.
O ano de 1908 projetou significativas mudanças para o estado da Paraíba, principalmente por marcar uma nova cisão no domínio alvarista. A primeira ocorrera em 1904, quando José Peregrino, então Presidente do estado, pretendeu indicar Antônio Simeão dos Santos Leal, chefe de polícia do seu governo, para sucedê-lo, à revelia de Álvaro Machado, líder maior situacionista. Essa nova cisão surgia com a indicação de João Machado, irmão de Álvaro Machado, pois este não queria passar pelo mesmo desgaste que sofrera em 1904, ao indicar alguém fora do seu círculo familiar. Apesar dos enfretamentos ao nome de João Machado, ele é eleito para o governo da Paraíba, para o exercício de 1908 a 1912.
Os anos de 1912 a 1915 são conhecidos como o período de transição da oligarquia alvarista para a epitacista, pois, nessa época, os dois grupos viviam sob a mesma bandeira
do Partido Republicano Conservador da Paraíba (PRCP)31.
Mas, em 1915, com as eleições federais para a Câmara dos Deputados e o Senado, houve um rompimento definitivo, saindo vitorioso, nas eleições e no estado, Epitácio Pessoa, pois Castro Pinto renunciou, e assumiu o governo o irmão de Epitácio, Antônio Pessoa.
A oligarquia epitacista iria dominar a política paraibana até 1930, quando se dá seu encerramento com os acontecimentos provocados pela morte de seu sobrinho, João Pessoa, e pelo Movimento de 1930. Entre esses processos políticos e sociais narrados, nasce Maria das Neves Leal, única irmã de José Simeão Leal, apelidada de Nevy, que, adulta, casou-se com Pedro Cordeiro, nascendo-lhe três filhos: Ieda Leal Cordeiro, Lúcia Leal Cordeiro e Antônio Alfredo Leal Cordeiro.
A família Santos Leal mudou-se, em 1919, para a capital, estando José Simeão Leal com 11 anos de idade. Como muitas outras famílias, Alfredo e Maroquinhas deixaram suas raízes e foram para a capital em busca de uma nova estrutura social, econômica, política e cultural, passando a residir na Rua Capitão José Pessoa, inicialmente na casa de nº 98, em Jaguaribe e, em seguida, na casa de nº 177, como mostra o registro imagético número 4, da casa onde residiram até a morte.
A trajetória de José Simeão Leal vai construindo-se permeada por três atividades básicas: a de comerciante, de seu pai Alfredo, a de político, de seu tio e padrinho, José Américo de Almeida, e a cultural, abraçada no passado, tanto pelo seu tio, Antônio Simeão Leal, irmão de seu pai, quanto por parte de seu tio, José Américo, irmão de sua mãe. Ambos,
31 Partido criado em 1910, por Álvaro Machado, para que o antigo Partido Republicano da Paraíba (PRP) fosse
incorporado ao Partido Republicano Conservador Nacional, criado também em 1910, para apoiar a candidatura de Hermes da Fonseca para a Presidência da República.
Fotografia 4: Residência dos pais de José Simeão Leal Foto: Kehrle, Luis Carlos
Fotografia 3: José Simeão Leal e Maria das Neves Leal (irmã) Foto: AJSL
com vocação literária e política, atuantes no campo das letras e da cultura. O primeiro atuando no campo político, comercial e das letras e funda o Jornal Cidade de Areia, em sua terra natal. E o segundo, eminentemente, no campo político e literário.
Como seus pais e tios, José Simeão Leal cursou as primeiras letras na cidade de Areia. De família letrada, sua mãe também sabia ler e escrever, dote que a auxiliava no acompanhamento obstinado da educação dos filhos, iniciando os estudos de José Simeão Leal, ainda dentro de casa e, em seguida, nos grupos escolares da cidade natal. A educação formal era reforçada, ainda, pelas longas e indefinidas horas de leitura conjunta, o que contribuiu para a formação de José Simeão Leal como leitor perspicaz e arguto. Todavia, Alfredo e Maroquinhas sempre estiveram preocupados com a formação e a educação dos filhos, levando-os à capital, por ocasião da conclusão do ensino básico do primogênito.
Produto de uma educação tradicional, pautada na estrutura política das velhas oligarquias, alvarista, epitacista e depois americista, José Simeão Leal foi educado nos melhores colégios que a Paraíba tinha na época. Saiu da pequena cidade de engenhos com destino à capital paraibana e, por influência do pai, ingressou, em 1925, aos dezessete anos de idade, no Colégio Lyceu Paraibano, onde cursou o preparatório, obtendo grau sete32. Na
ocasião, descobriu o grande amigo de uma vida inteira, Tomás Santa Rosa Júnior. A amizade, alimentada por razões pessoais e intelectuais, levou-os a partilharem experiências em diversas correspondências, até a separação definitiva, causada pela morte de Tomás Santa Rosa, em 1956. Além deste, José Simeão Leal também manteve amizade próxima com Ademar Vidal, Celso Furtado, Mário Pedrosa, entre outros.
Aprovado em Medicina na Universidade do Recife, após cursar o primeiro ano, transferiu-se, em 1927, para o Rio de Janeiro, para a Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro33, acompanhado dos primos Aderbal e Ney Almeida. Possivelmente, foram
32 Conforme Livro de Atas de 1920 a 1928, página 01, miolo do livro, pertencente ao Arquivo do Colégio Lyceu
Paraibano – João Pessoa/PB.
33 A Faculdade de Medicina foi criada pelo príncipe regente D. João, por Carta Régia, assinada em 5 de novembro
de 1808, com o nome de Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia, cuja funcionalidade se restringia ao campo estritamente profissionalizante. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi criada no dia sete de setembro de 1920, com o nome de Universidade do Rio de Janeiro, reorganizada em 1937, quando passou a se chamar Universidade do Brasil. Em 1965, passou à denominação de Universidade Federal do Rio de Janeiro, prevalecendo até o momento atual. Vários estudos foram desenvolvidos sobre a história da UFRJ. Reportamo- nos aqui, especialmente, às obras de: FÁVERO, Maria de Lourdes de A. Universidade do Brasil: das origens à construção. Rio de Janeiro: UFRJ: INEP, 2000.; CUNHA, Luiz Antônio. A Universidade Temporã: o ensino superior da colônia à Era Vargas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.; SCHMIDT, Benício Viero, OLIVEIRA, Renato de, ARAGON, Virgilio Alvarez (Orgs.). Entre escombros e alternativas: ensino superior na América Latina. Brasília: UNB, 2000.
em busca de melhores condições de estudo e de apoio familiar, considerando que morava naquela cidade seu tio e padrinho, José Américo de Almeida. Outro motivo poderá ter sido a efervescência cultural que se instalara na capital do país, tanto que José Simeão Leal começa a se envolver com o meio cultural local.
Ainda estudante de Medicina, em 1932, foi convocado para combater os paulistas, na denominada Revolução Constitucionalista, pela Paraíba, para formar o batalhão de estudantes das áreas de Medicina, Engenharia e Direito. Na ocasião, disse José Simeão Leal: “mamãe não quer que eu vá”, no entanto, contrariando a vontade materna, embarcou, às 4 horas da manhã do dia 26 de agosto, no vapor “Campos”, saindo do Rio de Janeiro com destino ao campo de batalha em São Paulo, Setor Sul, onde serviu nas colunas dos generais Waldomiro de Castilho Lima e Cordeiro de Farias.
O movimento de 1932, ou a Revolução Constitucionalista, como a denominam os paulistas e historiadores, representava a oposição de uma facção da classe dominante que foi desalojada do poder e que lamentava a perda de espaço político, ocorrido em Outubro de 193034 (CARONE, 1990?).
A participação de José Simeão Leal no movimento armado de 1932, após 32 dias de combate, foi descrita pelo Major Guilherme Falconi, na obra Soldados da Paraíba, editada em 1933. Em sua narrativa, assegura o autor: “quero narrar-vos como aconteceram os fatos, sem desejo preconcebido de rasgar a tela em que se vai desenhando um outro quadro para o futuro” (FALCONI, 1934, p.2). E continua:
Fotografia 5: José Simeão Leal Foto: AJSL
34 O movimento de 1930 constituiu-se um divisor de épocas. Ele não serviu apenas para marcar um período, o
término da República Velha ou Primeira República (1889-1930), mas apresentou uma realidade que revela a falência do sistema político e econômico, até então, vigente no Brasil. A esse respeito, consultar Boris Fausto (1987, p. 112). Frações dissidentes da classe dominante, descontentes com os rumos da política federal, investem no pretenso ideário de reorganizar o país, ao modo de seus representantes políticos, nas pessoas de Getúlio Dornelas Vargas (Rio Grande do Sul), Antonio Carlos (Minas Gerais) e com posterior adesão de João Pessoa (Paraíba). O episódio, que provoca o embate político e a união de lideranças de diferentes regiões contra o governo federal, é iniciado com a indicação de Júlio Prestes (São Paulo), feita por Washington Luis, para encabeçar a chapa governista, como candidato a Presidente da República nas eleições de março de 1930. Assim, a indicação de São Paulo destruiu o acordo da política “café com leite”, o que possibilitou o surgimento da coalizão oposicionista, a Aliança Liberal, que lança como candidatos Getúlio Dornelas Vargas, para Presidente, e João Pessoa, como seu vice.
Quatro civis serviram no 1º provisório. Todos inesquecíveis, no tocante a sua profissão. Como ele, o acadêmico de medicina José Simeão Leal, caracterizado por um desassombro tal que me inquietava. Anexou por insistência sua, um posto de socorro, à linha de resistência. Nas horas vagas, víamos-lo sobre as árvores observando o inimigo e, quando por sobre as florestas, as granadas passavam farfalhando, invectiva de chata a artilharia inimiga” (FALCONI, 1934, p.87).
Findada a revolta dos constitucionalistas paulistas, José Simeão Leal retorna, em fins de 1932, ao Rio de Janeiro, para dar continuidade aos seus estudos. Nesse mesmo ano, Augusto de Almeida e Alfredo Leal enviaram para os respectivos filhos, Ney e Simeão, um telegrama datado de 09/08/1932, falando de que fora cogitada a possibilidade de conseguirem para os dois uma colocação na função de Tenente-médico da Polícia no estado da Paraíba. Apesar da possibilidade, e sem maiores explicações, os pais, no mesmo telegrama, aconselharam a não aceitarem essa possibilidade, caso ela fosse ventilada.