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Sexo: feminino. Idade: 40 anos. Estado civil: casada.

Cidade/ estado/ país onde nasceu: Três Lagoas/ Mato Grosso do Sul/Brasil. Grau de instrução: curso superior incompleto.

Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, que progride), um personagem, água, uma animal (pássaro, peixe, réptil, mamífero), fogo.

Escreva aqui a história do seu desenho.

Um dia já cheguei morar em um lugar distante, úmido, sujo, estava no fundo do poço, hoje com ajuda de uma amiga fui procurar ajuda e, estou feliz comigo mesma, com a vida e com minha família, meu trabalho. Em um lugar feliz.

Minha vida hoje é maravilhosa cheia de vida e benções. Responda de modo preciso as seguintes questões:

1. Sobre que idéia você centrou a sua composição? Na minha vida. 2. Você foi exemplarmente inspirado? Sim.

3. Entre os nove elementos do teste de sua composição identifique:

a. Os elementos essenciais em torno dos quais você constituiu o desenho: A vida (sol, pois brilha).

b. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? Monstro, queda (porque é um atraso).

c. Como acaba a cena que você imaginou? Linda, cheia de vida.

d. E se você tivesse que participar da cena composta onde estaria? O que faria? Em uma fazenda.

4. No quadro seguinte você deve especificar:

a. Por meio de que você representou os nove elementos do teste (coluna A). b. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações. (coluna

B).

c. O que simboliza para você, cada um dos nove elementos do teste. (coluna C). Elemento A. Representado por: B. Função/papel C. Simbolizando

Queda Personagem Atraso de vida Perda

Espada Não respondeu Não respondeu Não respondeu

Refúgio Fazenda Não respondeu Sossego

Monstro devorante

Não respondeu Não respondeu Não respondeu

Cíclico Sol Brilhar O dia

Personagem Eu Passagem de vida Passagem de um

momento

Animal Cachorro Cuidar Latir

Fogo Chamas Queimar Renascimento

6.3.1. – Registros pinçados da fala.

Meu tio morava sozinho em uma fazenda muito longe, vinha para a cidade de bicicleta, provavelmente ele tinha algum problema de saúde, foi até o posto de saúde, passou mal. O SAMU o levou até o hospital, foi até o hospital, na época eu trabalhava em um consultório de dermatologia, chamei minha patroa para que ela fosse até o hospital para vê-lo, após exames ela disse que meu tio estava com Leishmaniose e pressão alta.

Internei-o, mas ele tinha que fazer o tratamento de modo adequado, porque os remédios são muito fortes, só que ele não queria ficar com ninguém, nessa época meus filhos eram pequenos e ele batia neles.

Na época minha tia o levou para casa dela, mas ele era muito agressivo e qualquer coisa ele queria bater em todos. Quando ela me disse o que realmente estava acontecendo eu conversei com minha chefe e perguntei o que ela achava de alugar um quarto para ele, onde eu iria todos os dias cuidar dele, mas ela referiu que isto não daria certo, pois ele não para em casa, gosta muito de sair de casa. Foi então nesse momento que ela me sugeriu interná-lo em um asilo.

No outro dia fui até o asilo, pude ver como tudo funcionava, o único empecilho era que meu tio não era aposentado, mas a funcionaria do asilo me disse que arrumaria tudo para aposentá-lo, foi então que assinei todos os papeis necessários. Hoje faz seis anos que ele está no asilo, faz o tratamento de modo adequado, o visito de vez em quando, porque na correria do dia a dia bem como no trabalho não consigo visitá-lo sempre.

Ele morava sozinho na fazenda, não tinha amizades, gostava muito de ficar andando pela rua, não tem filhos, é católico, gosta muito de ler a Bíblia, tem duas irmãs e um irmão, uma mora aqui na cidade, porém ele não combina com ninguém, na época sua irmã alugou um quarto para ele morar, mas ele não aceitou. Hoje ela vai até o asilo, mas ele não conversa com ela. A única pessoa que ele gostava ainda gosta é de mim.

Após conversar com minha tia, concluímos que morar com ela não iria dar certo, pois um dia ele iria acabar machucando ela. Morar comigo também não iria dar certo, pois ele é

muito agressivo e como tenho dois filhos. Foi então que tomamos a decisão de interná-lo, pois sempre íamos ao asilo e víamos como todos são bem tratados.

Meu relacionamento com ele é ótimo. Eu fico com pena dele, mas não tem outro jeito, ele não combina com ninguém, é agressivo, se ele continuasse morando na fazenda iria morrer. Vontade de tirá-lo do asilo eu tenho, mas colocá-lo onde?

Quando minha mãe vem, sempre o visita. Uma vez eu disse para minha mãe que o dia em que eu fosse para a casa dela em Campinas eu iria levar meu tio, ela sempre dizia que era para eu levá-lo.

Tenho casa própria, trabalho, estudo à noite e faço depilação. Não teria tempo de cuidar dele. Eu o acho uma pessoa boa. Na época pensei que ele era esquizofrênico, mas pelos exames que ele fez, apenas indicava Leishmaniose. Não tenho como cuidar dele. Esse foi o principal motivo, acho que no asilo ele é bem cuidado e é o melhor para ele e para todo mundo.

6.3.2. – Análise mítica do protocolo AT-9 complementado com a fala da Dona Gigi. Gigi é uma senhora de 40 anos, casada e que possui curso superior incompleto. A pessoa internada no asilo é seu tio, não refere a idade de seu tio.

Gigi aceitou prontamente efetuar o teste e registra em seu protocolo AT-9 o elemento personagem com postura ereta, em pé, o que segundo as orientações do criador do teste, Yves Durand, para análise do mesmo, pode indicar a presença de um imaginário com estrutura heróica, assim como a luminosidade do sol a brilhar, imagem que Gigi representa/atribui ao elemento cíclico, no quadro do teste. O sujeito-autor deste protocolo deixa ver o movimento na narrativa da história do desenho, identificando-se com o personagem “Eu” com função de passagem de vida simbolizando passagem de um momento. Bachelardianamente remete à topofilia – lugar feliz, depois dos percalços superados. Mas não atribui imagens, função nem simbolismo aos elementos de luta: espada e monstro. Ignora no quadro do teste estes dois elementos característicos ou endereçadores de um imaginário com estrutura heróica.

Na narrativa do AT-9 oferece uma situação negativa de vida que com ajuda de uma amiga muda e a positividade surge (no desenho coloca o cachorro para cuidar e alertar/latir).

Os elementos essenciais para ela foram a vida, o sol, (pois brilha, esquizomorfia) enquanto os elementos a eliminar são o monstro, a queda (representada pelo personagem, com função de atraso de vida, simbolizado negativamente perda). Na narrativa ela fala ter tido uma

vida obscura, no fundo do poço, mas que se recuperou, mesmo assim a simboliza como perda. Seu desejo é de sossego, paz (fazenda).

Conforme os registros no quadro do teste, a cena imaginada acaba de forma positiva: “linda” e “cheia de vida”. Para ela, se tivesse que participar da cena: estaria “numa fazenda”, imagem que é registrada no quadro do teste para representar o elemento refúgio ao qual ela não registra função, mas simboliza, misticamente, como “sossego”.

Aos elementos complementares do teste Gigi atribui, ao elemento água, a imagem de “rio” (água que corre e se modifica: movimento) com função de “criar peixes” (ciclicidade/reprodução) simbolizando “limpeza” (esquizomorfia). O elemento animal está representado pela imagem do “cachorro”, com função de “cuidar”, simbolizando o “latir”. O elemento fogo, com imagem de “chamas”, é para queimar, mas simboliza para Gigi “renascimento” (ciclicidade).

No desenho aparece uma árvore cheia de frutos (reprodução, ciclicidade/temporalidade), com o personagem do mesmo tamanho dela de braços abertos, o registro de um sol brilhando, o animal, dito cachorro e a água com pato e peixes.

Este protocolo, realizado com Gigi, apresenta, de início, um micro universo mítico místico com o refúgio evidenciado como busca de sossego em uma fazenda. O desenho não condiz exatamente com o discurso do teste, o que pode estar a deixar ver laivos de desestrutura.

Quanto à esquizomorfia/heroísmo, uma presença aparece no sol a brilhar, no simbolismo atribuído ao elemento água: “limpeza” e na função negativa do elemento fogo: “queimar”, apesar dos elementos espada e monstro terem sido ignorados.

O movimento está bem presente na mudança de vida no tempo. O elemento cíclico se representa com a imagem do “sol a brilhar”, simbolizando o “dia” (a claridade, a luz). O elemento personagem, assumido por Gigi como “eu” está impregnado de movimento, “passagem de vida” e “passagem de um momento”, no tempo, na vida. As imagens e as constelações de imagens estão se deslocando de um pólo aglutinador a outro, indo do Místico ao Heróico de forma Disseminatória Diacrônica.

Indo à entrevista concedida por Gigi encontra-se a evidência da superação renascimento de um momento/fase de vida ruim, superado com a decisão, não só dela (ajuda de uma amiga) de colocar o idoso no asilo; afastá-lo ou se afastar dele, alegando o “temperamento agressivo” do mesmo: “ele não combina com ninguém”, “é arredio”, “batia nos meus filhos”) a doença do idoso (Leishmaniose e pressão alta) e a falta de tempo de Gigi “correria do dia a dia, trabalho o dia todo”.

Portanto visto pelo teste e pela entrevista estamos diante de um imaginário sintético/dramático; disseminatório.

6.4. – Protocolo nº4 – Protocolo AT-9 Dona Mia. Nome/ Pseudônimo: Mia.

Sexo: Feminino. Idade: 53 anos. Estado civil: casada.

Cidade/ Estado/ País onde nasceu: São Paulo/ SP. Grau de instrução: Oitava série.

Você tem 30 minutos para fazer um desenho com os seguintes elementos: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorante, alguma coisa cíclica (que gira, que produz, que progride), um personagem, água, uma animal (pássaro, peixe, réptil, mamífero), fogo.

Escreva aqui a história do seu desenho.

O meu personagem é Jesus, temos em nossa vida a palavra de Deus (a Bíblia é a espada). O demônio é o maior monstro que temos em nossas vidas, quando não temos Jesus em nossas vidas, quando carregamos em nós uma cachoeira de lágrimas. Jesus nos ouve e se temos fome ele nos dá o peixe como alimento, Jesus é nosso refúgio e dentro do nosso coração temos o fogo do espírito santo.

Responda de modo preciso as seguintes questões:

1. Sobre que idéia você centrou a sua composição? No monstro e em tudo. 2. Você foi exemplarmente inspirado? Sim.

a. Os elementos essenciais em torno dos quais você constituiu o desenho: Jesus, espada, fogo, peixe.

b. Os elementos que você teria vontade de eliminar. Por quê? O monstro, porque é horrível e feio.

c. Como acaba a cena que você imaginou? Não respondeu.

d. E se você tivesse que participar da cena composta onde estaria? O que faria? Não respondeu.

4. No quadro seguinte você deve especificar:

a. Por meio de que você representou os nove elementos do teste (coluna A). b. O papel, a função, a razão de ser de cada uma de suas representações. (coluna

B).

c. O que simboliza para você, cada um dos nove elementos do teste. (coluna C). Elemento A. Representado por: B. Função/papel C. Simbolizando

Queda Cachoeira Porque leva tudo que

é ruim

Porque leva tudo que é ruim

Espada Bíblia Mostrar a verdade Mostrar a verdade

Refúgio Montanha Alcançar os objetivos Alcançar os

objetivos Monstro

devorante

Demônio Destruir, acabar

roubar

Destruir, acabar roubar

Cíclico Redemoinho Destruição Destruição

Personagem Jesus Salvador de todos nós Salvador de todos

nós

Água Cachoeira Porque leva tudo que

é ruim

Porque leva tudo que é ruim

Animal Peixe O alimento O alimento

Fogo O espirito santo Que queima Que queima

6.4.1 – Registros pinçados da fala.

Meu pseudônimo é Dona Mia, sou ex nora da Dona Jujú, fui casada com o filho dela que já faleceu. Nós cuidávamos da minha sogra, levava tudo o que ela precisava, foi então que uma vizinha dela, que trabalha no asilo, perguntou se nós concedíamos aposentá-la.

Aceitamos a idéia e logo que saiu a aposentadoria compramos várias roupas e tudo o que ela precisava, depois de um tempo, Dona Juju começou a ficar agressiva. Novamente a mesma vizinha conversou comigo e perguntou se eu aceitaria interná-la no asilo, porque eu não conseguia cuidar dela do jeito que ela estava.

Sinto-me mal, porque gostaria que ela ficasse comigo e ao mesmo tempo sou feliz, porque ela é bem cuidada lá, minha filha tem ido visitá-la e tem visto ela muito bem cuidada, eu a visitava, mas parei, porque ela sempre quer ir embora comigo.

Fico triste, porque gosto muito dela, gostaria de poder ficar com ela, cuidar do jeito que ela merece, mas não tem nenhuma possibilidade de acontecer isso, porque ela começou a ficar agressiva, devido a esclerose. Foi isso que me falaram.

A decisão de asilar foi dessa vizinha, ela perguntou para mim e acho que a Dona Juju concordou na época. Nem posso te falar porque ela estava com a mente ruim, por causa da esclerose.

A família da Dona Juju sou eu e meus quatro filhos, ela tinha dois filhos, o meu marido que faleceu e o outro filho dela está desaparecido, ou seja, ele não conta.

Eu convivi com a Dona Juju por cerca de vinte anos, morava em minha casa ela e meu sogro. Certa vez ela pegou o martelo e tentou matar meu filho, porque ele mexeu no rádio dela, mas fora este episódio ela é uma ótima pessoa. Quando meu sogro faleceu, Dona Juju foi morar com um homem que não era nosso parente, apenas conhecido. Nunca quis morar conosco, mesmo assim sempre íamos até sua casa levar frutas.

Hoje sou casada com outra pessoa, moram comigo minhas duas netas, minha filha mais nova, meu marido e minha atual sogra vem passear aqui, mas não mora comigo. Eu não trabalho, apenas ajudo a terceira idade em Água Clara, estado do Mato Grosso do Sul. Quando estou em casa faço crochê e cuido de uma criança, não tenho empregada e a casa é própria.

Nós íamos até a casa da Dona Juju para cuidar dela, tenho foto e tudo, ela fazia tudo sozinha.Só era agressiva, gostava de ficar no quintal com os animais, não deixava ninguém entrar no quintal dela, só ficava em casa.

Ela não era muito sociável, ninguém visitava sua casa, apenas eu e minhas filhas. Minha filha mais velha visitava muito a Dona Juju, depois começou a trabalhar e devido ao serviço não tenho tempo de visitá-la, já eu não vou porque ela quer vir embora e isso machuca.

Ela não tinha religião, só chingava. Ela era bem de saúde, o único problema era essa agressividade, na época ela não tomava remédio, passou a tomar medicamento depois que foi para o asilo.

Ela é aposentada, agradeço a essa vizinha que conseguiu aposentá-la. Não penso em tirar ela do asilo, porque ela está bem, quando ela morava sozinha, ficava mal arrumada e com a casa suja. Hoje quando vamos até ao asilo, ela sempre está limpa, com comida na hora certa, com a cama e o guarda roupa limpos. Então, porque eu iria tirá-la da casa do idoso, sendo que ela está bem?

Quando ela foi para a casa do idoso, ela levou consigo todas as suas bonecas, menos a televisão, imagina você cada um levar sua própria televisão?

Ela tem vontade de vir embora, acho que quer sair para poder ter a vida que ela tinha antes.

Agradeço a eles que estão cuidando dela, em vista de muitos asilos que a gente tem visto nas reportagens que batem, que judiam, aqui ela é bem cuidada.

6.4.2. – Análise mítica do protocolo AT-9 complementado com a fala da Dona Mia. O fato dos elementos do teste estarem identificados, no desenho, por escrito, encaminha para a possível presença de um imaginário com dificuldade de estrutura.

Mia é ex-nora de dona Jujú, a idosa institucionalizada em uma ILPI. Mia tem cinquenta e três anos e já está casada outra vez, após sua viuvez do filho de Jujú; cursou até a oitava série do ensino fundamental, antigo primeiro grau.

Mia conta que dona Jujú - que tem um temperamento forte, é agressiva - tentou matar um dos filhos dela com um martelo. “A gente não podia com ela do jeito que ela tava”. Mia se culpa e se desculpa por não poder cuidar de dona Jujú, por ter colocado a idosa no asilo, por não ter condições de abrigá-la. Ela se culpa por entender ser de sua responsabilidade cuidar da ex-sogra idosa e não poder fazê-lo. Ela diz sentir-se mal com a situação: “gostaria que ela ficasse comigo”.

[...] O sentimento inconsciente de culpa baseia-se na idéia de que é conseqüência de algo, de um ato, de um pensamento, ou que surge em face de alguma coisa que fizemos ou deixamos de fazer; (...) seríamos os causadores daquilo que nos leva, depois, a nos sentirmos culpados.

Os autores assumem (p.20) que “o sentimento de culpa nos leva à permanente sensação de sofrimento somada à ausência de um sentimento interno de responsabilidade, esse sim, fundamental a um bom desenvolvimento da pessoa”. Guedes e Walz (2009, p.20) dizem ainda que a tradição, os ensinamentos recebidos na infância, a cultura ocidental, as religiões em geral e a oposição real entre os conceitos de culpa e de responsabilidade, tidos comumente como sinônimos, sustentam a idéia da culpabilidade e a dificuldade de tratar do assunto.

Mia é bastante religiosa e se projeta no teste AT-9 em “Jesus – Salvador de todos nós”, mas ela não salva a sogra do asilo pelos motivos expostos. Ela diz, misticamente, que a “decisão de asilar foi” de uma senhora e “eu e meus quatro filhos concordamos”. A sua responsabilidade se dilui sendo dividida, ou mesmo atribuída, a outros.

Mia representa no teste, o elemento espada com a imagem da “Bíblia”, atribuindo-lhe a função e simbolismo de “mostrar a verdade”, “porque leva tudo que é ruim”. Ela não luta, mas aceita a decisão do outro. Imagina o elemento monstro do teste e o representa com a imagem do “demônio” com função de “destruir, acabar, roubar” e o simboliza como “destruição, roubo”.

Ao analisar este protocolo AT-9, na sua parte pictórica, compatibilizando-a com a narrativa do desenho, a constatação da coerência mítica fica dificultada. Trata-se de um imaginário com representação simbólica, ao que tudo indica pela religiosidade do sujeito autor. Na narrativa, parte semântica do teste, Mia alude a Jesus como refúgio, mas no quadro do teste representa o personagem como Jesus e o refúgio como montanha, que não aparece no discurso. Ela parece se esconder ou quem sabe se amparar na religião. Mia não responde às últimas questões do teste, não diz como acaba a cena que deveria ser imaginada e nem seu desejo de participação na cena, seu desejo final em relação ao imaginado: “o que faria?”

Na sua entrevista, Mia deixa ver que ajudava dona Juju até ela ficar mais agressiva com a doença. Aconselhada por uma pessoa, a internou. Pode-se constatar, na sua fala, que a decisão de asilar a idosa não foi sua, mas ela aceitou a idéia. Hoje ela diz sentir-se mal com o fato, mas diz também que está feliz porque a sogra “está bem tratada no asilo”. Quem afirma este estado é sua filha que visita mais a internada. Mia confessa: “cheguei a ir lá. Parei de ir porque ela queria vir embora ...isso dói”.

Mia refere-se a dona Jujú como “uma pessoa boa”, ela “chegou a morar na minha casa quando seu marido ainda estava vivo”; ao ficar viúva quis morar sozinha, mas “a gente sempre ia lá [...] quando essa mulher vizinha viu as atitudes dela”. Mia confessa: “eu não tinha possibilidade” de cuidar dela; conta que trabalha fora e que “ajuda à terceira idade”.

O imaginário de Mia se deixa ver com uma coerência mítica fraca, com laivos de desestrutura, mas pode-se perceber a característica positiva, a idéia de vida (leva o que é ruim, mostra a verdade; alcance dos objetivos; salva) sobrepondo-se a negativa idéia de morte (destruição; roubo; queima).

As desculpas estão evidentes:

a) falta de possibilidade (ocupada a cuidar do neném, trabalho fora, crochê etc); b) temperamento agressivo da idosa;

c) doença “a gente chega e fala com ela”. Ela diz: “olha eu tenho um filho; ai eu falo: