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8 ANALYSE

8.4 Samspill og kommunikasjon i prosjektene

8.4.8 Kontroll og tillit

Os índios Kaiwá, grupo predominante entre os três subgrupos da etnia Guarani encontrados no Brasil, Guarani-Ñandeva, Guarani-Mbya e Guarani-Kaiwá pertencem ao tronco

lingüístico Tupi-Guarani e utilizam um dialeto1 específico dentro deste tronco, além de segundo

Almeida (2003, p. 07) “despenderem vigorosa energia em manter sua língua viva sem arrefecer, mesmo em situações de alto grau de escolarização e de relações interétnicas”.

Na língua Guarani, Kaiwá significa habitante da mata (Kaa = mato e awa = homem) ou

“KA’A O GUA”, ou seja, os que pertencem a floresta alta, densa, o que é indicado pelo sufixo “o” (grande).” Como na aldeia em que vivem não há mais floresta grande, alta é aconselhável utilizar a grafia sem o “o” e portanto a KAIWÁ.O nome é encontrado na literatura com grafias diferentes, entre elas, Cayua, Hayova, Caiua, Caygua, Caaygua, Caa-owa, Kaiowa e Kaiwá. Devido ao estilo de vida, dentro das matas e situação nômade eram chamados por alguns historiadores de índios “Guarani Monteses ou Primitivos”. (GRESSLER, 1988 e ALMEIDA, 2001). Monteiro (2003, p. 31) coloca que “a designação Kaiwá vai se tornando mais nítida por volta do Século XIX, quando os autores já fazem uma diferenciação mais explícita entre Kaiwá e os outros grupos Guarani”.

Segundo informações do Conselho Indigenista Missionário – CIMI (2001), o povo indígena da etnia Kaiwá, juntamente com a etnia Ñandeva, ocupava há mais de 200 anos 25% do território do atual Estado de Mato Grosso do Sul, o que corresponde a 8,7 milhões de

1Dialeto é uma variação regional de uma língua nacional. Alguns países são notórios por terem em seu território, além da língua padrão nacional, uma série de dialetos, variantes regionais da língua principal Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Dialeto. Acesso em 28 de agosto de 2006.

hectares, que se estendia ao Norte até os rios Apa e Dourados e ao Sul até a Serra de Maracaju e os afluentes do rio Jejui atingindo cerca de cem quilômetros de extensão Leste-Oeste em ambos os lados da Serra Amambai.

A composição das aldeias freqüentemente se alterava devido ao espírito nômade de seus integrantes. Gressler (1988) coloca que sempre existiu entre os Kaiwá uma locomoção constante, que se intensificou com o ciclo da erva-mate devido à procura de trabalho nos ervais da região.

A base organizacional do índio Guarani, principalmente do Kaiwá é o fato de residirem

tradicionalmente em Tekoha 2 que abrigavam os Te’yi, ou seja, famílias extensas que eram

unidades econômicas auto-suficientes que, quando reunidas com a vizinhança, formavam as

aldeias. As famílias viviam em casas grandes denominadas de Ogajekutu ou Ogaguas.3

O poder político dos Kaiwá estava diretamente relacionado às lideranças religiosas. Essas lideranças ficavam a cargo dos chefes de família extensas e quanto maior a família maior era o prestígio de seu líder. Prestígio este, que segundo Gressler (1988, p. 49) “era ampliado se o líder fosse um grande Pai (chefe religioso), contador ou curador”.

Os índios da etnia Kaiwá foram considerados por vários historiadores, conforme o relato de Almeida (a) (2001), os que mais tentaram evitar o contato com o “civilizado”, ou seja, com o colonizador. Esta etnia também sempre foi conhecida pelo seu caráter amistoso e por sua

independência.

Com a definição precisa dos limites de fronteira pela Comissão Mista Brasil/Paraguai entre os dois países, após a Guerra do Paraguai em 1870, o território ocupado pelos índios

2 Tekohá – Aldeia, lugar para realizar o modo de serSegundo Almeida(2003:10), o Tekoha seria uma unidade política, religiosa e territorial, que deve ser definida em virtude das características efetivas materiais e imateriais – de acessibilidadeao espaço geográfico por parte dos Guarani. .

Kaiwá, constituído de terras férteis e produtivas passou a ter parte pertencente ao Brasil e outra parte ao Paraguai, dividindo desta forma, em dois países um povo que antes não conhecia fronteiras. A demarcação de divisa entre os dois países nesta parte do território era feita apenas por postes de cimento por se tratar de fronteira seca, sem presença de rio. (SEREJO, 1986,)

Em dezembro de 1882, o Governo Imperial concedeu por meio do Decreto N. 8.799 à Companhia Matte Laranjeira de propriedade de Thomaz Laranjeira – comerciante que havia trabalhado voluntariamente durante a Guerra do Paraguai como aprovisionador das tropas brasileiras – o direito de explorar os ervais nativos do Cone Sul, atual Estado do Mato Grosso do Sul. A área era constituída de um milhão de hectares de ervais e mais de três milhões e meio de hectares para a criação de gado. Segundo Bianchini (2000, p.125) “os índios da etnia Kaiwá representaram a maior força de trabalho destes ervais”.

Em 1910 foi criado o Serviço de Proteção aos Índios – SPI, subordinado ao Ministério da Agricultura. Na cidade de Campo Grande foi instalada uma das primeiras inspetorias regionais que se destinava a atender as populações indígenas localizadas então no Sul do Mato Grosso e no Estado de São Paulo.

Entre os anos de 1915 e 1928 o Governo do Brasil criou oito Reservas Indígenas4

na região. O objetivo da Política Indigenista Oficial ao demarcar as Reservas, segundo Brand, (1997, p. 177) era o de “confinar os índios em áreas demarcadas e transformá-los em pequenos produtores rurais, auto-sustentáveis e úteis ao progresso nacional, desocupando desta forma outras áreas de interesse para a expansão econômica do país”.

Diversos autores como Serejo (1986) e Almeida (2001) confirmam este interesse quando escrevem que, em 1940, o presidente Getúlio Vargas criou a Marcha para Oeste com o

4 A primeira Reserva demarcada foi a de Amambai, em 1915, posteriormente a de Dourados em 1917 e a de Caarapó em 1924. Em 1928 foram criadas as Reservas Limão Verde, Pirajuí, Porto Lindo, Takuapery e Sossoró.

propósito de desbravar uma parte do Brasil, até então desconhecida e isolada do contexto nacional. Também tinha como propósito, realizar obras de infra-estrutura para permitir sua ocupação por não-índios e integrar economicamente o Centro-Oeste ao Norte e Sul do País.

O espaço cedido para abrigar milhares de índios em cada Reserva Indígena era igual ou

inferior aos 3.600 hectares oferecidos para cada colono5 investidor que tivesse interesse em

participar do projeto Marcha para o Oeste conforme a Resolução do Estado do Mato Grosso N. 725 de 24 de setembro de 1915.

Brand (1997) coloca que muitas destas Reservas foram assentadas em locais que eram acampamentos da empresa Matte Laranjeira, o que barateava os custos e facilitava a utilização desta mão-de-obra. Esta situação interferiu no sistema econômico dos índios, criando necessidades de consumo novas ao remunerá-los muitas vezes, com produtos industrializados, utensílios e objetos dispensáveis, que nada significavam para o modo de ser tradicional, mas que fascinavam por ser novidade.

O estilo de vida e sua cultura fizeram com que os Kaiwá se afastassem dos contatos com os brancos e ficassem vivendo em matas fechadas. Este processo de resistência à interação cultural e social foi considerado o principal empecilho dos Jesuítas, que por diversas vezes, tentaram “civilizar” estes índios, mas não tiveram o êxito esperado, pois como Almeida (2001, p.154) explica ao citar Koenigswald, “a liberdade era considerada por eles como seu bem maior e qualquer intromissão dos brancos, como restrição de seus direitos”.

O modo de vida que os jesuítas tentavam impor aos Kaiwá foi descrito por Koenigswald (1908 apud ALMEIDA, 2001, p. 155), da seguinte maneira: “A religião, forçada sobre eles nos aldeamentos pelos missionários com suas muitas rezas, as regras de consórcio monogâmico e a

vestimenta, o trabalho aumentado e a tutela restante é totalmente contra o caráter desses filhos da natureza, independentes, e, portanto, não se deve admirar que o número dos aldeados se torne cada vez menor e muitos deles, mesmo os lá nascidos, tivessem voltado para as selvas”.

A sistemática de aldeamento gerou duas classes de índios, os aldeados, submetidos ao processo de confinamento e desaldeados, índios dispersos ou ocupantes de áreas tradicionais que resistiram ao confinamento.

Laraia (2002, p. 85) cita Tylor para conceituar cultura como “um complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Complementando este conceito, relaciona as contribuições de Kroeber como a questão de que a cultura determina o comportamento do homem e justifica suas realizações, pois, adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais de aprendizado do que agir através de atitudes geneticamente determinadas.

Neste mesmo sentido, segue explicando que “o homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquirida pelas numerosas gerações que o antecederam”.

Baseado neste conceito, Lima (1995, p. 74) coloca que, com o propósito de disciplinar e integrar os índios à sociedade, o Serviço de Proteção do Índio – SPI, “ao ignorar os costumes e tradições milenares de um povo culturalmente diferenciado, causou danos irreparáveis aos Kaiwá, desarticulando-lhes a economia e cultura e suprimindo-lhes o direito de continuar a serem índios”. 6

6CONCEITO DE ÌNDIO DE ACORDO COM A LEI 6.001/73 – ESTATUTO DO ÍNDIO – ART. 3º, ÍTEM I – “Índio ou silvícola é todo indivíduo de origem e ascendência pré- colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional”.

O Estado, ao implantar o sistema de Tutela e proteção, interferiu no sistema de vida dos Kaiwá, impondo-lhes uma nova ordenação espacial. Neste sentido, Almeida (2001, p. 156) diz que “as aldeias não representavam um lugar ocupado por índios no sistema tradicional, e sim uma área determinada, que coincidia ou não com uma ocupação indígena efetiva segundo seus

padrões tradicionais de ocupação territorial”. Complementando, Gressler (1988, p.145) comenta

que “o problema maior na região não era simplesmente o fato de doar terras aos índios, mas, principalmente, recrutá-los para essas terras, tendo em vista a enorme dispersão em que os grupos indígenas do Sul do Mato Grosso viviam”.

Atualmente, no Brasil, os índios Kaiwá são encontrados exclusivamente no Estado do Mato Grosso do Sul, em um contingente estimado entre 13.000 e 15.000 pessoas, distribuídos em mais de duas dezenas de áreas conhecidas.