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8 ANALYSE

8.4 Samspill og kommunikasjon i prosjektene

8.4.3 Detaljledelse

Historiadores, antropólogos e cientistas sociais como Darcy Ribeiro, Roberto da Matta, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes tiveram papel importante em definir e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas dimensões. Nas suas diferentes posições político- ideológicas, todos concordaram que a característica marcante da cultura brasileira está na rica

diversidade, resultado do processo histórico-social e das dimensões continentais da sua

territorialidade. (FERNANDES, 2005, p. 179).

A vasta diversidade cultural do Brasil e sua pluralidade étnica permitem na visão de Darcy Ribeiro considerar que não haja uma cultura brasileira única e, sim “culturas brasileiras”. Como descreve em seu livro O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil: “Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos. A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos.” (RIBEIRO, 1995, p. 227)

Não obstante a colonização do Brasil por povos da comunidade européia, a influência marcante da cultura tida como dominante não conseguiu, de todo, apagar as culturas indígena e africana. Muito pelo contrário, o colonizador europeu deixou-se influenciar pela riqueza da pluralidade cultural de índios e negros. (FERNANDES (a), 2005). O resultado desta confluência gerou características próprias importantes e diferenciadas nas cinco regiões do país, e inclusive dentro de cada região em particular.

A diversidade cultural pode ser enfocada tanto sob o ponto de vista das diferenças existentes entre as sociedades indígenas e as não-indígenas, quanto sob o ponto de vista das diferenças entre as muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil. Mas está sempre relacionada ao contato entre realidades socioculturais diferentes e à necessidade de convívio entre elas, especialmente num país pluriétnico, como é o caso do Brasil.

Há décadas a discussão no Brasil em torno da identidade étnica tornou-se fato presente em virtude das mudanças ocorridas por diversas etnias indígenas, chegando até mesmo a serem extintos alguns ritos, modificadas e esquecidas algumas línguas e características próprias em conseqüência do processo violento que sofreram ao entrar em contato com o não índio. “Entre os acontecimentos relacionados ao contato violento que modificaram seus estilos de vida e fizeram com que não vivessem mais como entes, estão a espoliação de suas terras, a depopulação causada por doenças e por conseqüência, o desarranjo na sua organização tribal”. (RIBEIRO (b), 1996, p. 499).

Cunha (1986, p. 69), compartilhado por diversos pesquisadores da área, explica a fusão das culturas quando fala que “a cultura original de um grupo étnico, na diáspora ou em situações de intenso contato, não se perde ou se funde simplesmente, mas adquire uma nova função essencial e que se acresce às outras, enquanto se torna cultura de contraste: este novo princípio que a subtende, a do contraste, determina vários processos”.

As mudanças ocorridas em várias sociedades indígenas no que diz respeito à identidade étnica, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais às dos outros membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem modernas tecnologias não fazem com

que percam sua identidade étnica e deixem de ser indígenas.

É necessário reconhecer e

compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isto significa o respeito pelos direitos coletivos especiais de cada uma delas e a busca do convívio pacífico, por meio de um intercâmbio cultural, com as diferentes etnias”. (CRUZ, 2003, p. 124).

O conceito de identidade é relativamente novo na história da humanidade. Surge no Iluminismo e vai conquistando espaço na medida em que as discussões sobre a individualidade ganham importância. Primeiramente, era considerada um eu imutável. Depois veio a idéia de um sujeito que se estrutura a partir de relações com outras pessoas. Por último, a idéia da concepção de indivíduo pós-moderno, na qual a identidade não é fixa ou permanente.

Stuart Hall (1999, p 11) explica que “a identidade preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’- entre o mundo pessoal e o mundo público de que projetamos a ‘nós próprios’ nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornado-os ‘parte de nós’, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade então costura (ou, para uma metáfora médica, ‘sutura’) o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis”.

Neste sentido, Hall (1999) conceitua identidade em três momentos. Primeiramente, compreendendo o indivíduo como possuidor de um núcleo interior que emerge no momento do nascimento e apesar de se desenvolver com ele, permanece idêntico, sem alterações no decorrer de sua existência.

A segunda definição entende que o mesmo núcleo interior que nasce com o indivíduo, modifica no decorrer do desenvolvimento por meio dos diálogos constantes e das transformações culturais. Na terceira definição, a identidade é provisória e que o sujeito é

sempre outro no decorrer de sua existência. Desta forma, Both (2000, p. 156) afirma que “as identidades não são pré-estabelecidas, mas resultantes das iniciativas culturais e de suas reformas construídas”.

A identidade vista como um processo em permanente construção e transformação libera o indivíduo para as escolhas sociais e culturais que a sociedade coloca à disposição. A interferência da cultura na construção dos significados e a modulação da identidade, bem como a ressonância pessoal desta, dependem da qualidade das experiências vividas no contexto cultural do indivíduo.

As relações de poder estabelecidas numa determinada sociedade constituem-se das diferenças de identidade. Na teoria de Foucault, (apud BOTH, 2000, p.132) “somos corpos totalmente marcados pela história, porém, com autoridade individual para desafiar suas determinações refletindo-se no discurso social. Continuando seu raciocínio, somos sujeitos da e para a construção social”.

A identidade apresenta uma dimensão coletiva, além dos aspectos estritamente individuais, que se refere á integração do homem como sujeito do processo de construção da história, e a memória, como fator de resgate da história compartilhada, é o esteio da identidade. Faleiros (1999, p.103) complementa este conceito quando relata que “o resgate da identidade se produz por meio de um processo sócio-afetivo de relações complexas envolvendo mitos, valores, sentimentos, poderes e discriminações”.

A dinâmica do viver do ser humano é baseada em múltiplas raízes: familiares, étnicas, regionais, nacionais, religiosas, partidárias, ideológicas, que ao entrecruzar-se formam uma totalidade. (NEVES, 2000). Ao considerar a identidade como um construto contínuo e dependente dos valores sociais, cabe lembrar o conceito de Larrain (apud BOTH, 2000, p.158)

que define a identidade no envelhecimento como “o resultado de suas experiências sociais através da linguagem e da comunicação”.

Neste contexto, a identidade existencial no envelhecimento assume um entendimento voltado para a experiência cultural e singular. A base da formação desta identidade é construtiva, com as influências históricas e comunitárias atingindo diretamente sobre o indivíduo.

A identidade pessoal é construída no contexto social organizado no qual a pessoa está inserida; no mundo estruturado de representações, significados, relações e práticas sociais. Santos (1994, p. 129) faz referência à velhice como “uma etapa do desenvolvimento humano que possui papel social, valores e expectativas específicas que interagem na construção da identidade dos sujeitos idosos”.

O idoso constitui sua identidade transitória no contexto cultural em que ele está inserido. A valorização deste indivíduo é o reflexo do seu espaço social, do papel que ele assume frente à comunidade em que vive.

André (2003) realizou estudo com os velhos do povo Kibumdu na Angola, continente Africano onde constatou a presença do velho contador de história como um ponto cultural importante na construção da identidade de cada um dos idosos. Faz parte naquela sociedade o velho na função de avô e de guardião da cultura e do saber do seu povo.

A sabedoria e a intimidade se transformam no idoso, ficando estes, muitas vezes, sem objetos mediadores, colocando a identidade em situação de fragilidade. Quando isto acontece, por aposentadoria ou por inibição de participação social pela sua comunidade, o idoso perde o

sentido social da vida, apresentando aspectos de depressão e desilusão. O passado, neste caso surge como uma fonte de reelaboração da vida do idoso.

O sentido social da vida é fato a ser investigado nas mudanças sociais que o idoso enfrentou no processo individual de envelhecimento. A vulnerabilidade na velhice está diretamente relacionada ao conceito da identidade do idoso. Identidade que se define no paradoxo de ser ao mesmo tempo semelhante e diferente e a sua formação depende da interação entre o psicológico e o social. Goldstein (2003, p.85) afirma que “as diferenças entre as pessoas em razão de suas distintas histórias de vida acentuam a medida que as pessoas envelhecem, pois trata-se de experiências individuais e únicas que são construídas durante o ciclo da vida”.

A identidade construída no decorrer dos anos é o reflexo da vivência pessoal e social e do contexto no qual o idoso está inserido. Neste sentido, o idoso pertencente a uma etnia indígena e residente em Aldeia possui uma identidade própria e diferenciada dos idosos residentes em período urbano.

A construção da identidade reflete numa dinâmica constituída da identificação das similitudes e a afirmação das diferenças que situam o ser humano em relação aos grupos sociais que o cercam. Delgado (2006, p. 51) coloca que “o homem possui múltiplas raízes: familiares, étnicas, regionais, nacionais, religiosas, partidárias, ideológicas e culturais”.

Esta totalidade é composta de processos diversificados que define a identidade e o seu enraizamento, fazendo o próprio homem, sujeito reconhecedor de suas identidades, por meio de sua integração na dinâmica sincrônica da vida em coletividade.

A convivência em sociedade ou mais precisamente em uma aldeia indígena, que traz o conceito de coletividade fortemente enraizado no cotidiano, ocasiona o compartilhamento de

experiências e define a construção da identidade de um povo ou de uma etnia como é o caso dos índios Guarani-Kaiwá da aldeia Jaguapiru em Dourados, Estado do Mato Grosso do Sul.