2.1 Teori
2.1.2 Kontorklynger
Para fazer um exame das culturas populares contemporâneas é preciso primeiro se livrar da pretensão de autonomia absoluta no sentido de atribuir às mesmas um sentimento de pureza ou de auto-suficiência em relação às indústrias culturais (CANCLINI,1998). Por outro
lado, Canclini não acredita que a autonomia dos campos culturais se dissolva nas práticas capitalistas, mas afirma que atualmente se subordina a elas com laços inéditos.
Apesar da cultura popular geralmente ser tratada por duas perspectivas metodologicamente contraditórias: uma enfatiza a autonomia desta e a outra que insiste em
sua dependência da cultura dominante (CHARTIER, 1995), quando se trata da forma que
adquiriu a cultura global, percebemos que é necessário admitir que novos formas de dominação precisam ser compreendidas (ORTIZ, 2008). Apesar dos costumes serem
transmitidos de uma geração para outra, e a cultura hegemônica só penetrar e se estabelecer através do jogo de mediações (BRITTOS,1999), a única saída para quem resiste deverá ser
pactuar para sobreviver (ADORNO,2002).
Assim, para investigar a cultura popular torna-se necessário situar sempre no espaço de enfrentamento dois conjuntos de dispositivos: enquanto de um lado está presente o mecanismo da dominação simbólica (representações e modos de consumo globais) que tentam se impor sobre uma cultura que inferioriza, por outro lado estão também presentes as lógicas de uso e modos de apropriação do que é imposto. Pois, é preciso considerar que as formas populares da cultura se estabelecem nas práticas do cotidiano, o que não se manifesta através dos produtos em si, mas sim nos modos de usar os produtos (ADORNO, 2002; CHARTIER,
1995).
A cultura de massas provém dos temas que tomaram forma nos Estados Unidos e foram divulgados pelos meios de comunicação (ADORNO,2002;MORIN,2007). Esses modelos
impuseram-se mundialmente apesar dos conservadorismos e das diferenças econômicas das diversas culturas com a extraordinária força que lhe é peculiar. Desse modo, a cultura de massas “é cosmopolita por vocação e planetária por extensão” (MORIN,2007, P.16).
Porém, a hegemonia depende de abrigar em seu cerne as manifestações culturais populares, tradicionais e locais, uma vez que para se realizar, a comunicação precisa que haja mediadores entre o pólo comunicador e o receptor (MORIN,2007). Jameson (2004) avalia que
um conteúdo social e histórico genuíno deve ser primeiro introduzido e, ganhando alguma expressão inicial, pode então ser objeto de bem-sucedida manipulação e contenção. É que toda obra produzida hoje “(...) contém como impulso subjacente (...) nosso imaginário mais
profundo sobre a natureza da vida social, tanto no modo como a vivemos agora, como naquele que - sentimos em nosso íntimo - deveria ser” (JAMESON,2004,p.25). A cultura de
massas é assim difundida pela universalização e dela se alimenta de forma sistêmica. Ela recebe e devolve provocando o sistema de mundialização, o desenvolvimento técnico e econômico (ADORNO,2002).
A cultura cosmopolita de massas busca a universalização de um homem moderno, cujas práticas e valores estão ligados à mercadologia da indústria cultural (ADORNO,2002).
Para o autor a prática da indústria cultural realiza um trabalho ideológico capaz de desenvolver um estado de falsa consciência na medida em que a indústria cultural está técnica e economicamente fundida à propaganda. Por essa razão, o desenvolvimento da cultura de massas está diretamente relacionado ao surgimento e aperfeiçoamento dos aparatos tecnológicos de comunicação que, por sua vez, desenvolvem uma falsa identidade do universal e do particular demonstrando que são apenas os negócios que constituem a ideologia dominante (DEL.MASSO, 2008).
Assim, além das questões de mediação e de hegemonia, outro deslocamento conceitual é necessário à compreensão do espaço da recepção da cultura de massas: situa-se na concepção de poder (ADORNO, 2002; BRITTOS, 1999; CASTELLS, 2008; DEL. MASSO, 2008;
1999; JAMESON, 2004; ORTIZ, 2008). O poder desloca-se para uma ação de mediação nas
zonas de tensão da dominação, uma vez que um poder impassível não se mantém. Para ganhar expressividade, o poder assume uma linguagem persuasiva e busca a compreensão e assimilação de suas mensagens utilizando mediadores pertencentes à cultura local, ou ainda apoiando-se na diversão, gerando um sentimento de identificação e conquistando a coordenação da interação (ADORNO,2002;DEBORD,1997;HALL,2006; ORTIZ, 2007).
Nesse sentido, é preciso considerar que ao mesmo tempo em que a cultura de massas é produzida para massa no sentido de controlá-la, a cultura popular se fortifica em sua
resistência num movimento sistêmico (CASTELLS, 2008). Para Castells o universalismo da
globalização promove o ressurgimento dos nacionalismos que se constroem a partir das ações e reações sociais. O nacionalismo contemporâneo para o autor tende a ser mais cultural que político, pois é baseado em memórias, história e destinos comuns. O nacionalismo cultural busca regenerar a comunidade nacional por meio de criação, preservação ou fortalecimento da identidade cultural de um povo que se sente ameaçado.
Contudo, a referência estrangeira torna-se parte da vida cotidiana, no momento que pertence ao que Ortiz denomina de tradição da modernidade-mundo. Nesse sentido, é preciso entender que além do universo simbólico específico das formas de civilização que co-existem na atualidade ser fruto da integração dos processos de mundialização e de globalização, a cultura global é um movimento que segue dois caminhos: desterritorializa tornando abstrato o espaço (categoria social por excelência), e preenche o vazio de existência deixado por ele com objetos globais, fabricando-o reconhecido e familiar, ou seja, parte da tradição (ORTIZ, 2008).
Foi o uso dessa estratégia e o apóio da distribuição de objetos idênticos, que permitiu à cultura se mundializar, impregnando os espaços desterritorializados e enchendo-os de familiaridade. Isso é possível porque “A mundialização não se sustenta apenas no avanço tecnológico. Há um universo habitado por objetos compartilhados em grande escala. São eles quem constituem nossa paisagem, mobiliando nosso meio ambiente” (ORTIZ,2008, p.107),
formando a cultura material que nos representa.