Na avaliação do teórico alemão, o Poder Legislativo16é
Constituído pelas leis enquanto tais, na medida em que carecem de determinações complementares, e pelos assuntos interiores que são, graças ao seu conteúdo, completamente gerais. Este poder faz parte da Constituição, que ele mesmo supõe e que, por conseguinte, está fora das determinações que provêm de si mesmo, embora o seu ulterior desenvolvimento dependa do aperfeiçoamento das leis e do caráter progressivo da organização governamental geral (HEGEL, 1976, p. 270). Dessa assertiva inferimos que a Constituição não está sob determinação do poder legislativo, embora este tenha contribuição essencial para o desenvolvimento do Estado através do aprimoramento das leis. Ademais, ele mostra a necessidade do poder monárquico (do príncipe) consultar o poder governativo (órgão legislativo composto pelas assembleias) e conhecer as carências particulares para legislar em torno delas.
Hegel delimita uma dupla relação tal instância poder possui em relação ao sujeito: a primeira se refere às garantias asseguradas pelo Estado e, portanto, ao papel deste perante a sociedade e às leis civis em geral, essenciais para priorizar a coletividade às particularidades e, portanto, estabelecer uma superação do bem privado ao público. O segundo se refere aos deveres de todos os sujeitos em relação ao Estado referentes às tributações enquanto condição necessária à manutenção material do Estado.
Com o objetivo de acentuar a necessidade de fortalecimento da relação entre o poder do príncipe e o poder legislativo, Hegel faz referência à história das sociedades
16 O elemento universal é o legislativo (gesetzgebendeGewalt), (Filosofia do Direito, §§298-320; Enc. III, § 544). O povo como um todo (exceto camponeses e trabalhadores) está representado nesse ramo do Estado, não como indivíduos particulares, mas como membros de “estados” (Stände). Os Estados são grupos profissionais, em vez de classes sociais ou econômicas. E tal como Durkheim, Hegel os considera como instituições que medeiam as relações entre indivíduos atômicos e o governo, e preparam os homens para a vida no Estado. Para ele existem três estados: (i) a nobreza rural e hereditária, que tem assentamento como indivíduos numa câmara alta, (ii) a classe mercantil e (iii) a classe “universal” de servidores civis (incluindo professores, etc.), que através de suas “corporações” elegem representantes para uma câmara baixa (As “câmaras” também são chamadas Stände) (INWOOD, 1997 p. 124).
33 grega, feudal, Oriental e egípcia, afirmando que a esta última faltou “aquele fator de liberdade subjetiva” (HEGEL, 1976, p. 272), por isso não houve uma relação harmônica entre o poder legislativo e a vontade do monarca, o que impediu o “caminhar da Razão” do Estado e a sua participação no processo de evolução da história. Isto, porém, não interferiu nas decisões do monarca, porque estas não se subjugam às contingências das particularidades dos indivíduos. Cabendo às Assembleias de Ordem “trazer até a existência o interesse geral, não apenas em si, mas também para si” (HEGEL, 1976, p. 272). Lideradas pelos deputados, estas assembleias são importantes para aproximá-los da realidade das “massas”17 e fazê-los conhecer as necessidades coletivas da sociedade
civil. Aqui, Hegel mostra a relevância dos “estamentos”, comunidades, associações e corporações, considerando-as como órgãos
de mediação, as assembleias de ordem situam-se entre o governo em geral e o povo disperso em círculos e indivíduos diferentes. Delas exige a sua própria finalidade, tanto o sentido do Estado, e a dedicação a ele, como o sentido dos interesses dos círculos e dos indivíduos particulares. Simultaneamente significa que tal situação é uma mediação comum com o poder governamental organizado, de modo que, o poder do príncipe não apareça como extremamente isolado nem, por conseguinte, como simples domínio ou arbitrariedade, e assim que não se isolem os interesses particulares das comunas, das corporações e dos indivíduos. Graças a essa mediação, os indivíduos não se apresentam perante o Estado como uma massa informe, uma opinião e uma vontade inorgânica, poderes maciços em face de um Estado orgânico (HEGEL, 1976, p. 275).
Esta função de mediação exercida pelas assembleias coloca o monarca em contato com a sociedade e com os interesses das comunas, corporações e indivíduos, e permite a participação de todos na universalidade racional do espírito absoluto representado pelo Estado, do contrário, estaria sujeito ao fracasso, conforme os ocorridos em momentos anteriores da história. Eis o que observa Dri sobre a questão,
A racionalidade –Vernünftichkeit– do Estado exige a existência dos estamentos e suas corporações, associações e comunidades como ‘meio termo’ –Mitte– do silogismo que é o conceito ou a ideia desenvolvida. Efetivamente, a dialética universal abstrato-particular-universal-concreto é o silogismo maior-menor-conclusão, mas não o silogismo da lógica formal
17A expressão “massa” designa, com mais correção do que o termo corrente “todos”, a universalidade empírica. Se é imediatamente evidente que, pelo menos, as mulheres, as crianças, etc., não estão abrangidas nesses “todos”, mais evidente é ainda que não se deve empregar esta rigorosa expressão para o que é algo de inteiramente indeterminado (HEGEL, 1976, p. 273).
34 como é expresso pelo entendimento –Verstand– que o abstrai e paralisa, mas sim como ele é captado pela razão –Vernunft– que o torna a pôr em movimento (DRI, 2006, p. 241).
Vê-se aqui uma função importante do Poder Legislativo (e dos que participam deste poder): a de auxiliar o monarca em suas decisões, por isso os servidores devem superar a individualidade sujeitando-a a razão universal do Estado. Esta classe universal, ou, mais
precisamente, a que se consagra ao serviço do governo, tem no universal o fim da sua atividade essencial. No elemento representativo do poder legislativo, as pessoas privadas atingem significado e eficácia política. Não pode ela, portanto, aparecer como uma simples massa indiferenciada nem como uma multidão dispersa em átomos, mas apenas como aquilo que é, quer dizer, como dividida em duas partes: a que se baseia numa situação substancial e a que se baseia nas carências particulares e no trabalho que as satisfaz. Só assim se unem verdadeiramente no Estado o particular real e o universal (HEGEL, 1976, p. 276).
Portanto, sem a mediação do poder legislativo, o povo (a “massa”) seria apenas uma multidão “informe com movimentos e ações apenas elementares, irracionais e selvagens” (HEGEL, 1976, p. 277). É, pois, neste elemento representativo que “se encontra o aspecto dinâmico da sociedade civil, que só por intermédio dos deputados pode manifestar-se” (HEGEL, 1976, p. 279). Com efeito, a sociedade civil só possui existência real através da mediação, pois a própria natureza dos indivíduos possui determinações que os levam à universalidade, bastando que os órgãos de mediações promovam a conciliação destes indivíduos com o Espírito Absoluto: o Estado. Por isso os deputados eleitos devem conhecer as dificuldades e necessidades do povo.
A assembleia, que representa a maior maturidade no processo de participação e decisão do povo, é o fundamento do poder legislativo, nela os deputados eleitos pela “massa” se dividem em duas câmaras para diminuir “as possibilidades de o elemento representativo se opor diretamente ao governo” (HEGEL, 1976, p. 283) e, com isso, colaboram com as decisões do próprio governo. Tal divisão será estruturada a partir de suas câmaras, de modo a constituir uma hierarquia orgânica e regimentada.
A primeira câmara (composta pelos deputados) é formada por membros das
associações, comunidades e corporações, e sua função “reside principalmente num estado de espírito, pois a capacidade e o conhecimento das instituições e interesses
35 políticos e sociais só se adquirem na direção de assuntos, nas funções de autoridade e nas funções públicas” (HEGEL, 1976, p. 281). A segunda (composta pela nobreza) é a classe que garante o pleno cumprimento da constituição, na qual “é a ordem da moralidade natural que se funda na vida familiar e, do ponto de vista da substância, na propriedade de raiz” (HEGEL, 1976, p. 278). Esta última classe detêm um notório patrimônio particular, proveniente da lei da primogenitura e independente dos bens do Estado. Já em relação à sociedade civil é formada por três tipos de classes: a substancial (dos proprietários de terra); a do povo (colocada pela mediação); e a dos burocratas (cujas ações devem obedecer às leis civis).
Estabelecendo um parecer final a respeito do poder legislativo, o autor alemão deixa um breve parecer sobre a questão da liberdade de imprensa e da opinião pública, evidenciando que estas sempre estarão limitadas à ordem e corroboração às determinações do Estado, a fim de subsumir toda e qualquer particularidade à coletividade. Toda a manifestação de opinião pública, representada pelos meios de comunicação, é um elemento basilar ao Estado com o intuito de contribuir para a formação dos indivíduos enquanto partícipes de algo maior. Neste sentido, Hegel deixa claro sua repulsa aos excessos que essas manifestações irrefletidas podem acarretar à ordem interna do Estado, cabendo a este transformar suas vontades em deveres dos indivíduos; e os direitos destes, em deveres do Estado. Nesse cenário,
A liberdade de comunicação (...), a satisfação daquele instinto irreprimível que é o de dizer e de ter dito a sua opinião, obtém uma direta garantia nas leis e disposições administrativas que previnem ou punem os seus excessos; sua garantia indireta está na inocuidade que se funda na constituição racional, na solidez do governo e também na publicidade das assembleias representativas (HEGEL, 1976, p. 287).
Discutida a composição interna do Estado com base nas leis e nas relações destas com os indivíduos, é importante saber: como se dá a relação entre as nações e como cada Estado impõe sua soberania externa?
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