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Ao se refletir sobre o contexto teatral e histórico, bem como sobre a vida e a obra de Mario Prata, mais especificamente, sobre a obra FC, tem-se em mente a ideia de posicionar tal texto em um campo literário. Trata-se, pois, como quer Maingueneau (1996), em O contexto da obra literária, de abrir a possibilidade de articular esses elementos à temática desenvolvida na obra, bem como de detectar as estratégias utilizadas pelo autor para engendrar um posicionamento.

A estrutura de um texto teatral denuncia a sua função: a representação. O gênero em questão se constrói para esse fim, muito embora possa ser lido como obra literária, como o caso de FC. No mesmo ano em que foi encenada, a obra é comercializada em livrarias brasileiras. Mas em princípio tem como destino o palco. Disso decorre a sua estrutura: a ausência de narrador e a presença de diálogos a conduzir a ação dramática. Além disso, é construída em dois planos de textos. O primeiro, texto principal, é realizado por meio de diálogos; o segundo, pelas rubricas contendo a listagem dos personagens, os nomes dos personagens no início de cada fala, informações sobre a

estrutura da peça e orientações sobre os movimentos, os gestos e, às vezes, sobre a entonação de voz. Acrescido a isso, há um enredo conduzido pelas falas dos personagens e nele a marcação de tempo e de espaço.

João da Neves (1997), em Análise do texto teatral, discrimina esses elementos na seguinte ordem: as circunstâncias dadas, o diálogo, a ação dramática, os personagens, a ideia, os andamentos e as atmosferas.

No caso de FC, há dados pré-textuais: uma apresentação da obra, feita por Ruy Guerra, com a data de novembro de 1979, e uma ficha técnica informando sobre os principais responsáveis pela encenação. Os dois planos de texto se dão da seguinte forma: no primeiro, uma página inicial com a indicação dos seis personagens, e abaixo dela a apresentação do espaço cênico como ―a ‗sala de espera‘ de um local de tortura. Pode ser uma espécie de escritório, ou um porão, ou um gabinete, ou uma sala com cara de sala de dentista, ou uma sala qualquer. Enfim uma ‗sala de espera‘‖ (PRATA, 1979, p. 3). Só depois disso o texto propriamente dito inicia-se com as rubricas, ainda em primeiro plano, indicando como devem se portar ou estão se portando os personagens, e, na sequência, as falas (segundo plano).

Se, na análise de FC, tomarmos as indicações de estrutura textual do texto teatral como sugere Neves (1997), teremos as circunstâncias dadas como um elemento para se iniciar uma reflexão sobre o texto teatral. Ora, o texto em questão revela essas circunstâncias logo no início, ao descrever o espaço cênico indicando uma sala de tortura. Trata-se de um espaço em que um tipo de ação como essa pode ser realizada: uma delegacia brasileira. Pelo ano em que a peça foi escrita e pelo transcorrer da narrativa por meio das falas dos personagens que alternam ações em sequência, pode-se ler o período vivido pelo Brasil da ditadura civil-militar bem como uma de suas práticas: a tortura.

O texto teatral em questão foi feito para ser encenado em um só ato. Contudo, a ação dramática combina uma série de pequenas ações (em que há clara troca de clima) que podem assim ser divididas:

1) Abertura: momento inicial em que Herrera conversa ao telefone com um amigo e conta em pormenores sobre como torturou um cavalo até que este

lhe obedecesse, bem como sobre sua intenção de assistir a um jogo de futebol;

2) Na sequência: Rosemary e Baseado interrompem a ligação e avisa que acabaram de matar o prisioneiro;

3) Debate sobre a forma como morreu o operário e sobre de quem é a culpa: ambos se negam a se posicionar como culpados;

4) Cena em que Baseado mostra um transeunte, enfatizando a facilidade que teriam para fazê-lo falar sob tortura e como ninguém daria por falta dele (há nesse momento uma mudança de clima);

5) Volta ao conflito sobre a culpa pela morte do operário;

6) Corte para a descrição da biografia de Rosemary (o Rosemiro dos Anjos); 7) Herrera insiste em assistir ao jogo mesmo que seja pelo rádio;

8) Primeiro contato com Piedade por telefone e enfoque na menção ao fato de Piedade ser homossexual;

9) Herrera atende a uma ligação do proprietário da fábrica e o convida a uma visita à delegacia;

10) Piedade chega e começa os preparativos para transformar o assassinato em suicídio: preparação dos documentos legais, do corpo, das fotografias;

11) Piedade vai até o rádio que Herrera usaria para assistir ao jogo e coloca Vivaldi que deverá tocar até o fim;

12) Ligação de Piedade ao chefe e informação sobre um ―material irrecuperável‖: um morto;

13) Corte para a biografia de Baseado;

14) Conversa de Piedade com Rosemary em que ela percebe que ele tem medo do que fez;

15) Digitação dos documentos por Piedade e, na sequência, por Herrera; 16) Corte para a biografia de Herrera;

17) Diálogo entre Piedade e Doutor, que faz uma visita à delegacia e fica sabendo do que houve, dos materiais utilizados para tortura, tornando-se cúmplice do ato;

18) Corte para a biografia de Doutor;

20) Rosemary é assassinado dentro da delegacia por Dodói com o auxílio de gatos, animais que causavam pânico nele;

21) E finalmente: chocolates são oferecidos por Doutor a Piedade, a Herrera e a Baseado.

Os cortes mencionados são apartes que interrompem os diálogos, sendo que, por meio de mudança na iluminação, como indicado nas rubricas, um personagem se dirige ao público contando a biografia de outro personagem.

Para que esse conjunto se dê, uma série de pequenas ações acontece por meio da movimentação dos personagens, que em FC são sete, aqui dispostos por hierarquia: Doutor (proprietário da fábrica de chocolate), Piedade (agente responsável pelo serviço de inteligência), Herrera (chefe do departamento local), Baseado (subordinado a Herrera), Rosemary (subordinado a Baseado) e Dodói, que, de acordo com as rubricas, é ―um quase débil mental‖ (PRATA, 1979, p. 52), utilizado como arma pelo departamento. Além, é claro, do cadáver: personagem que aparece pelas falas dos outros, mas principalmente por ser a referência do corpo assassinado de que trata o texto teatral. São mencionados mais três personagens que não aparecem, mas que funcionam como receptores dialogantes: o amigo de Herrera, um superior à Piedade e um funcionário do departamento de comunicações: Picuinha. Percebe-se que o nome de cada personagem revela algo.

Doutor é o proprietário da fábrica de chocolates Bem-me-quer. Ele foi responsável pela denúncia do operário da fábrica aos agentes responsáveis pela sua tortura até a morte. Trata-se de um homem distinto, civilizado, de boas maneiras, cujo único desejo é que o trabalho da fábrica de chocolates continue, sem interrupções ou reclamações sobre baixo salário, horas extras não pagas ou algo do gênero. E ele faria qualquer coisa para garantir que seu desejo se realizasse. Em um dos apartes (cortes) que o texto teatral apresenta, faz-se a apresentação de alguns dados sobre Doutor:

O jovem doutor tinha então vinte e poucos anos. Gana, um pequeno país da África, com pouco mais de 10 milhões de habitantes era o maior produtor e exportador de cacau do mundo. Houve uma crise política envolvendo civis e militares. Com ela a queda na produção

nacional. O Brasil, segundo exportador de cacau em grão, passou a exportar mais e mais para Europa, Estados Unidos e vários países da África. Com o Brasil exportando mais, o doutor passou a exportar mais. O governo brasileiro começou a financiar o doutor. E ele começou a ficar rico. Em 1972, um militar finalmente derrubou o governo civil lá em Gana. Os cargos de presidente e primeiro ministro são riscados do mapa. A constituição local rasgada. A crise atinge o seu auge. Foi quando, do sul da Bahia, o jovem doutor começou a mandar dinheiro – em dólar – para sustentar a guerra civil. A guerra não podia mais parar. E quanto mais ganenses morriam, mais ele vendia o seu cacau. Hoje, um oitavo do sul da Bahia é deste jovem e inteligente doutor. Cinco fábricas de chocolates entre Salvador e São Paulo. Credicard, American Express, Elo, Passaporte, Nacional, Diner‘s. (Vai voltando para seu lugar, mas volta para a frase final.) Os militares continuam no poder. Em Gana. (PRATA, 1979, p. 48-49)

A última frase do texto é uma clara referência à ditadura militar também mantida pelos civis. E o rico Doutor é um deles que financia a ação dos militares com objetivo econômico. É um ―homem de ação‖, que fabrica o seu próprio destino, como se vê. E usa o aparato militar com o propósito de concretizá-lo.

Do ponto de vista moral, é um homem sem escrúpulos, sem qualquer respeito pela vida de seus funcionários, que são apenas parte de um quebra-cabeça para que ao final a produção aconteça. É bem apessoado, veste-se bem e pode-se dizer que é um homem bem informado também.

Piedade, agente responsável por uma espécie de serviço de inteligência, é portuguesa, mas a serviço do Brasil no momento. Em Portugal já executara ações como a que pratica no Brasil: não deixar vestígios das ações efetivadas por policiais que torturam e matam. Sobre o seu nome pode-se dizer, por ironia, que é uma antítese em relação à sua moral. Piedade só não tem piedade: de ninguém. Mesmo os seus companheiros de trabalho podem ser submetidos à ação que desempenha contra os presos. A solução – de aparência trivial – que dá ao assassinato é construir um fato que não houve. Isso quer dizer que até o final do texto ela construirá uma história, a história do que não ocorreu: o suicídio do operário. E o fará de forma tão ―perfeita‖, metódica, que ninguém duvidará de que o que ali houve foi um suicídio. Fará tudo para atingir esse propósito bem como usará a tecnologia e o conhecimento disponíveis (fotografia, máquina de datilografia, com diferentes tipos, conhecimento na área e até homicídio executado por uma pessoa com deficiência mental, mas a seu comando). É eficiente no

que faz, no que se propõe. É reconhecida pelos seus méritos: conhecimento e inteligência, tenacidade e perfeccionismo. É homossexual (única referência à sexualidade no texto teatral) e durona no que diz respeito a posicionamento e à linguagem corporal. Aparenta-se bem vestida, com gosto gastronômico que a identifica com os valores das classes mais abastadas, bem apessoada e bastante dedicada a seu serviço.

Herrera é o chefe do departamento onde a ação de torturar e assassinar acontece. É um homem mau. Sua ficha técnica (revelada ao leitor por um aparte) o demonstra. Também a cena inicial em que conta por telefone ao amigo como ―colocou o cavalo no seu lugar‖ (PRATA, 1979, p. 5) em função de sua desobediência é uma demonstração de sua maldade:

HERRERA – Aí foi demais. Aí eu não aguentei. Vi que não tinha jeito mesmo. Desci do animal, tirei as esporas – eu sempre uso esporas, você sabe, me dão mais segurança – tirei as esporas e ―esporrei‖. Primeiro na barriga. Com força para ele aprender. Com força mesmo, até o meu braço ficar sujo de sangue. E o pior é que aquele sangue quente me deu mais força. Dei um, dois, três murros no pescoço dele. Sem muita força, eu não queria matar o bicho logo de cara. E ele não se tocava, acredita? Como se não fosse com ele. (olha para o relógio da parede e confirma com o do seu pulso.) Mas eu pensei com meus botões: isso não vai ficar assim não. Tava, tava sozinho. Sabe o que eu fiz? Olha a loucura. Dei uma dentada no pescoço dele. Enchi a boca de pelo e você acredita que nem assim o filho da puta se tocou? Aí eu não tive outro jeito. Tava mesmo com a espora na mão, meti no olho dele. Aí finalmente o filho da puta sacou com quem estava tratando. Saiu um liquidozinho esquisito, parecido com pus, sabe? Um troço nojento que só vendo. Uma meleca, um doce de leite que não ficou no ponto, sabe? Mas podes crer que ele aprendeu. (PRATA, 1979, p. 5).

Baseado (subordinado a Herrera) é um personagem com um currículo também relacionado à ação de torturar, intimidar e matar. Até o final da peça, quer, no entanto, não ser responsabilizado pelo assassinato do operário. Nesse sentido, demonstra um caráter dúbio: sabe-se executor da ação, mas não se responsabiliza por ela. Será encarregado de maquiar e de fotografar o morto para que pareça ser suicídio o que realizou. Aparenta não ter muita força de vontade. Gostaria de ser chefe também, mas está abaixo de Herrera na hierarquia da instituição e ao final lhe obedece.

Rosemary (subordinado a Baseado) é o policial menos experiente. Tem somente 22 anos e ainda não conhece os ―meandros‖ de uma delegacia em que assassinar é algo trivial. Parece assustado e com medo. Não quer se responsabilizar pela morte do operário e sente que o seu superior pode a qualquer momento fazê-lo. Costuma cantar durante as sessões de tortura, por isso o nome de Rosemary. Seu nome mesmo é Rosemiro dos Anjos. Filho de uma prostituta, costumava roubar as carteiras dos clientes da mãe. Do ponto de vista moral, é como os outros: preparado para lidar com a violência. Faz o que lhe pedem. Está sempre disposto a ajudar. É solícito e obediente. Demonstra medo pelas consequências do assassinato do operário, mas não remorso pelo que fez.

Dodói é uma pessoa com deficiência mental que será utilizada (e parece ser comum que isso aconteça ali naquele local) por Piedade para matar Rosemary e ajudar a montar a farsa do suicídio. Quer matar como forma de diversão. É, explicitamente, um assassino. Diferente dos outros personagens, que estão a serviço de um superior – e o que fazem, em certa medida, corresponde ao que deles em uma situação de trabalho é esperado –, Dodói mata, pede para matar. É o único personagem que não recebe um aparte. E participa no texto teatral com apenas um diálogo em que pede para matar.

E, finalmente, Antonio Pereira da Silva, o operário da Fábrica de Chocolates Bem-me-quer que comparece à delegacia para depoimento e de lá sai como cadáver. Trata-se do morto como é referendado no texto teatral de MP. É o personagem que não aparece em cena, que não tem fala, mas sobre o qual se fala.