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Demokrati og utdanning

Maurice Halbwachs (1968), em Memória coletiva, já estabelecera tacitamente a inter-relação entre o plano individual e o coletivo da memória: a memória de um indivíduo, por mais que ele a considere somente sua, está relacionada aos diversos grupos afetivos a que esse indivíduo pertence, segundo esse autor. A memória individual, nesse sentido, não pode se distanciar da memória social: ―só temos capacidade de nos lembrar quando nos colocamos no ponto de vista de um ou mais grupos e de nos situar novamente em uma ou mais correntes do pensamento coletivo.‖ (HALBWACHS, 1968, p. 35).

Para esse autor, há uma memória, um conjunto de lembranças individuais que dependem das circunstâncias por que passam um indivíduo. Essas circunstâncias são chamadas por Halbwachs (1968) de quadros de memória. Assim, tem-se que um indivíduo se lembra de forma situada, sob determinadas condições, como ocorre com a própria linguagem que, nesse sentido, estabelece parâmetros em relação à memória individual. O aluno de Durkheim, nesse momento, identifica a ação (para Durkheim, coercitiva) que o meio estabelece em relação ao indivíduo.

Halbwachs (1968), de acordo com Michael Pollak (1989), em Memória,

esquecimento, silêncio, dá ênfase à ―força dos diferentes pontos de referência que

estruturam a nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos‖ (POLLAK, 1989, p. 1). Por pontos de referência, Pollak (1989, p. 1) entende ―os monumentos, o patrimônio arquitetônico e seu estilo, as paisagens, as datas e personagens históricas, as tradições e costumes, certas regras de interação, o folclore e a música e as tradições culinárias‖. Esses elementos funcionam como índices ―empíricos da memória coletiva de um mesmo grupo, uma memória estruturada com suas hierarquias e classificações e que, ao definir a um grupo o que o diferencia do outro, fundamenta e reforça o sentimento de pertencimento e as fronteiras socioculturais‖. A duração, a continuidade e a estabilidade da memória coletiva são fatores que definem um grupo em particular, por essa visão. Pierre Nora (1993) chama esses monumentos de lugares de memória, já que funcionam como referências que, de acordo com Pollak (1989), são índices da memória coletiva:

Não é suficiente reconstituir peça por peça a imagem de um acontecimento do passado para se obter uma lembrança: é necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou de noções comuns que se encontram tanto no nosso espírito como no dos outros, porque elas passam incessantemente desses para aquele e reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuam a fazer parte de uma mesma sociedade. (HALBWACHS, 1990, p. 33).

Mas são os psicanalistas e os psicólogos que, para Le Goff (1990), ao lidarem com fenômenos da memória individual, focalizam o importante papel das manipulações que o interesse, a afetividade, o desejo, a inibição e a censura exercem sobre a memória individual nos atos de lembrar e de esquecer. Nesse sentido, tem-se também esse mesmo procedimento do esquecer/lembrar atribuído à memória social.

Do mesmo modo, a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. (LE GOFF, 1990, p. 426).

A memória é, assim, o ―elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje‖ (LE GOFF, 1990, p. 476). Ou seja, um homem é o que é (identidade) porque se lembra disso todos os dias. Então, nesse sentido, memória é lembrança. Mas é lembrança funcional. E sua função diz respeito à formação identitária de um indivíduo. Mas, para um homem ser o que é, é necessário que ele exercite uma guerra interior, elegendo o que será lembrado (evidenciado no plano da consciência) e o que será esquecido, ou, pelo menos, o que fará parte dos elementos com que lida para guiar suas ações. Nesse sentido, há uma luta do ponto de vista individual para se definir o que será lembrado ou o que será esquecido. Mas essa ―luta‖, embora seja pessoal, é travada em outro território: o ambiente sociopolítico em que esse indivíduo se encontra. O espaço em que o ser humano está exerce, de certa forma, influência sobre sua memória.

Halbwachs (1990) não pensava a memória coletiva como o resultado de um jogo de forças, embora a tenha pensado como o fruto de uma negociação entre o que há na coletividade e o que o indivíduo é capaz de rememorar. E, nesse sentido, há uma abordagem que evidencia a seletividade da memória, o que Michael Pollak (1989) compreende como uma sensível mudança de abordagem nos estudos da memória. Ao contrário do que fizera Halbwachs (1990), tal perspectiva não toma o fato social como coisa, mas como construção. Essa perspectiva construtivista procura evidenciar os agentes e as causas de os fatos sociais se tornarem coisas, tornando-as passíveis de estabilidade e duração. De acordo com Pollak (1989, p. 3), ―ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se opõem (sic) à ‗memória oficial‘, no caso a memória nacional‖.

Tem-se, assim, uma metodologia que privilegia o recurso à história oral, como instrumento para dar voz às memórias individuais; o estabelecimento de empatia com os grupos dominados, periféricos ou minoritários, de forma a aflorar as memórias subterrâneas ou marginalizadas; e a escolha do objeto de estudo memorialístico, de preferência quando existe conflito e competição entre memórias concorrentes, ou seja, situação de memória em disputa.

Trata-se de uma abordagem – diferente da realizada por Halbwachs (1990) – cujo escopo é evidenciar o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva nacional. Isso porque, enquanto a memória está sendo construída em sua versão oficial, as memórias subterrâneas silenciosamente ―prosseguem seu trabalho de subversão‖, de acordo com Michael Pollak (1989), e emergem em momentos de crise. E assim que as memórias subterrâneas deixam o ―limbo‖ e invadem o espaço público, ―reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa disputa da memória‖ (POLLAK, 1989, p. 3). É nesse sentido que se pode pensar a batalha pela memória.

Assim, escrever sobre a memória, de acordo com Peter Burke, (2000) em

Variedades de história cultural, não pode ser mais algo percebido como uma atividade

inocente. Quem o faz considera processos como a seleção, a interpretação e a distorção, advindos dos interesses de grupos sociais, no caso, ―defendidos‖ por essa operação, seja ela consciente ou não.