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Konsekvenser av en nettbasert brukerkultur

6 Risikovurdering og ruskultur på internett

7.2 Konsekvenser av en nettbasert brukerkultur

Em Outros Espaços4 (2001), Foucault ressalta a importância do espaço no pensamento contemporâneo. Para ele a época atual é definida pelo posicionamento, diferentemente do espaço medieval – espaço de localização (lugares sagrados, profanos, abertos, rurais, celestes, etc.), e do espaço galilaico do século XVII – espaço de extensão (ponto em movimento, infinito, etc.). De acordo com o autor, o posicionamento é definido pelas relações de vizinhança entre pontos ou elementos: formalmente, podem-se descrevê-las como séries, organogramas, grades (Foucault, 2001, p. 412). Trata-se de relações de posicionamentos, ainda não suficientemente dessacralizadas entre o público e o privado, a família e o social, o espaço de dentro e o espaço de fora.

Com relação aos espaços do fora, espaços ligados a todos os outros, contradizendo todos os outros posicionamentos, Foucault os subdivide em dois tipos: as utopias, espaços de analogia direta ou inversa e de natureza imaginária, e as heterotopias, ou seja, lugares reais, efetivos, contraposicionamentos, fora de todos os lugares e ao mesmo tempo localizáveis. O espaço intermediário seria o da experiência mista, tendo como exemplo o espelho.

4 “Outros Espaços” (conferência no Círculo de Estudos Arquitetônicos, 14 de março de 1967). Architecture,

Ao longo do texto, autorizado para publicação somente dezessete anos depois de escrito, Foucault apresenta um conjunto de características das heterotopias. Na primeira, ele diz que elas são de dois tipos – as heterotopias de crise (adolescentes, mulheres de resguardo, menstruação) e as heterotopias de desvio (clínicas psiquiátricas, prisões, casas de repouso). Na segunda característica, Foucault diz que as heterotopias podem ter funcionamentos diferentes numa ou noutra cultura, como por exemplo, o cemitério. Passamos a nos preocupar com o destino dos despojos mortais no momento de uma ‘ateização’ da cultura.

Uma outra qualidade das heterotopias diz respeito ao fato delas poderem se justapor em um só lugar, ou seja, a existência de vários espaços e funções em um só lugar. Aqui o exemplo é o jardim, representação do mundo em alguns lugares do Oriente, assim como o desenho dos tapetes.

Quarta: as heterotopias são ligadas a heterocronias. Podemos observar o acúmulo de tempo em museus e bibliotecas, ou a dissipação de tempo em feiras e festas, ou ainda nas cidades de veraneio.

As heterotopias supõem um sistema de abertura e fechamento, ao mesmo tempo isolam e tornam penetráveis. Os exemplos são diversificados: a prisão, as casas de banho escandinavas, os quartos de passagem nas fazendas brasileiras, os motéis americanos. Na sexta e última característica, Foucault afirma que as heterotopias têm uma função dupla: criar um espaço de ilusão, como nos bordéis, ou criar um outro espaço real, um espaço de compensação, como nas colônias. Ele refere-se à vida organizada das colônias de puritanos na América do Norte e às missões dos jesuítas na América do Sul.

Bordéis e colônias são dois tipos extremos de heterotopia, e se imaginarmos, afinal, que o barco é um pedaço de espaço flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado ao infinito do mar e que, de porto em porto, de escapada em escapada para a terra, de bordel a bordel, chegue até as colônias para procurar o que elas encerram de mais precioso em seus jardins, você compreenderá por que o barco foi para nossa civilização, do século XVI aos nossos dias, ao mesmo tempo não apenas, certamente, o maior instrumento de desenvolvimento econômico (não é disso que falo hoje), mas a maior reserva de imaginação. O navio é a heterotopia por excelência. Nas civilizações sem barcos os sonhos se esgotam, a espionagem ali substitui a aventura e a polícia, os corsários.

(Foucault, 2001, p. 412)

O gênio de Foucault apresenta uma estranha configuração dos espaços a uma primeira leitura. Contudo, a idéia de um espaço efetivo, real, localizável e não localizável, na redefinição de contraposicionamentos para o espaço contemporâneo, conduz o pensamento à possibilidade de tomarmos literatura, criação ficcional, narrativa, como

heterotopias, como espaços heterotópicos, espaços outros no qual a escrita cria seu próprio outro mundo. A cidade imaginária de Santa Maria na obra de Juan Carlos Onetti e a cidade de Alexandria, real e ficcionada, na obra de Lawrence Durrell, são heterotopias inventivas, para fora de todo e qualquer marco de referência numa discussão sobre cidades. É que o espaço literário dos dois autores vem ao encontro de um vitalismo específico estudado no capítulo anterior, e que neste aparecerá no gesto criativo de invenção das cidades, encantadoras, bárbaras, cheias de tumulto e história.

Não há dicotomia para modos de vida no cotidiano das pessoas e modos de vida na ficção e na literatura. Ao contrário, o plano de pensamento que permite pensar e produzir modos de vida implica a indistinção entre literatura e vida.

O conceito de hecceidade ou haecceidade deriva de um termo criado por Duns Scot. De acordo com Lalande (1993), a hecceidade é aquilo que faz com que um indivíduo seja ele mesmo e se distinga de qualquer outro. Com Deleuze, vimos como a hecceidade incide a propósito do problema da individuação. A hecceidade faz parte do acontecimento e se destaca daquilo apreendido na empiria.

O aparecimento único e singular de uma hecceidade na literatura se dá no campo das individuações sem sujeito, naquilo que Deleuze e Blanchot denominam o impessoal: uma criança, uma tarde, uma cidade, uma onda. Tentando dar conta deste conceito que Deleuze vai buscar no século XII para pensar os processos de individuação, e então fazer uso a partir da radicalidade da experiência diferenciadora nos acontecimentos de uma vida, reproduzo abaixo algumas passagens extraídas de Mil Platôs5:

Há um modo de individuação muito diferente daquele de uma pessoa, um sujeito, uma coisa ou uma substância. Nós lhe reservamos o nome de hecceidade. [...] Os contos devem comportar hecceidades que não são simples arranjos, mas individuações concretas valendo por si mesmas e comandando a metamorfose das coisas e dos sujeitos. (Deleuze, 1997, p. 47)

Você é longitude e latitude, um conjunto de velocidades e lentidões entre partículas não formadas, um conjunto de afectos não subjetivados. Você tem a individuação de um dia, de uma estação, de um ano, de uma vida (independentemente da duração); de um clima, de um vento, de uma neblina, de um enxame, de uma matilha (independentemente da regularidade). Ou pelo menos você pode tê-la, pode consegui-la. (Idem, p. 49)

Hecceidade, neblina, luz crua. Uma hecceidade não tem começo nem fim, nem origem nem destinação; está sempre no meio. Não é feita de pontos, mas apenas linhas. Ela é rizoma. (Idem, p. 50)

Hecceidade como neblina ou modo de individuação que se faz no ‘um’. A cidade literária se constitui plano de narrativa no qual são tecidos agenciamentos singularizantes, no qual são produzidas hecceidades. Produzidas não é o termo, digamos que as hecceidades acontecem, são parte do acontecimento ou mesmo o acontecimento.

Na literatura marítima, ou seja, na vertente da literatura que tem o mar como pano de fundo ou como protagonista, hecceidades surgem de uma maneira singular, assim do nada, bem como da composição de elementos díspares ou que se acumulam. Autores como Joseph Conrad, Júlio Verne, Herman Melville, Giórgos Seféris, lidam com o mar, cada um a seu modo. Agenciamentos no espaço do mar, hecceidades cujo díspar é a salinidade, o pôr do sol sobre a água, a poesia que mais parece onda, encontrados no romance Benito Cereno de Melville e na poesia de Seféris, constituem esse lado de sono e sonho da literatura, a invenção potente de mundos.