6 Risikovurdering og ruskultur på internett
7.3 Avslutning
Em ‘Bem-vindo, Bob’, o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909 – 1994) conta a estória de um jovem que sonha se tornar arquiteto e construir uma cidade utópica ao longo da costa de Santa Maria. A voz que emerge deste conto é a de um homem de meia idade que todas as noites encontra Bob, possível futuro cunhado, em um bar qualquer. Entre os dois, o ódio mútuo e silencioso. Até que um dia Bob se dirige ao narrador e diz: você não vai se casar com Inês. Você é velho e ela é jovem, você é um homem feito, ou melhor, desfeito... e por aí vai. Nenhuma reação física quando os dois estão cara a cara. Uma desilusão aceita implacável e resignadamente. Ambos se encontrarão anos depois, antes do fim do conto. Chama a atenção nesta estória, tratando-se da obra de Onetti, a existência de um arquiteto com ganas de construir uma cidade. Exatamente o que o autor faz em sua literatura: cria uma cidade que não pode ser nomeada cidade imaginária, a cidade de Santa Maria. A literatura não comporta as tripartições entre real, simbólico e imaginário. Santa Maria é um ser de sensações, um plano imanente onde são produzidos modos de vida singulares.
Há uma suposição crítica (Saer s/d, Ruffinelli s/d) de que Juan Carlos Onetti criou Santa Maria para sua obra ‘A Vida Breve’ (1950). Porém ela é o plano sobre o qual agenciamentos serão produzidos ao longo de sua obra. Santa Maria é o pano de fundo e
ao mesmo tempo um personagem de diversos romances do autor, entre eles ‘Junta-Cadáveres’ (1964) e ‘O Estaleiro’ (1960).
Uma das características das personagens de Onetti é sua atração pelo fracasso e pelo colapso. São seres que não deram certo, nostálgicos, amargos, circunscritos a um espaço de solidão do qual não têm como sair, como o travesti de ‘Amanhã Será Outro Dia’. Somos então atraídos por esses personagens, e devo dizer que sua leitura pode ser repetida inúmeras vezes, de um romance ou de um conto, e não nos cansamos. Em boa parte da obra, eles habitam a cidade de Santa Maria.
Esta cidade, definida por Saer como um espaço imaginário elevado a segunda potência, é na verdade o espaço potencial no qual a criação de Onetti se processa, e para o qual, nós leitores, somos convidados a conhecê-la. Seria maravilhoso andar por suas ruas, caminhar ao longo das margens do rio, experimentar seus cafés e atravessar suas platitudes. Santa Maria é um território inacabado que se materializa ao longo de ‘A Vida Breve’.
Geográfica, histórica, e, sobretudo topologicamente, Santa Maria possui características desconcertantes e misteriosas. Unicamente certos lugares são nítidos, claros, recorrentes. Não me refiro a instituições, comércios, etc., que sempre tem o mesmo nome, e sim a lugares físicos que exaltam a viveza do empírico: são sempre os mesmos, o rio, a praça, o consultório. O rio, a costa, a praça, tem a aura do vivido, a placidez clara e inalterável de um espaço que, por haver tido acesso à experiência de uma sorte feliz em um passado já irrecuperável, tornou-se mítico. Os demais lugares mudam nas diferentes histórias. E os detalhes contraditórios tornam difícil a determinação da cidade em um lugar preciso da região. Não esqueçamos a complicada viagem que Brausen – sob a personalidade de Arce – e Ernesto devem fazer para poder chegar até ela; é evidente que esta complicação está posta para sugerir um traslado propriamente mágico do plano da representação simples ao da representação à segunda potência. Como nas antigas epopéias ou nos contos fantásticos e maravilhosos, como os heróis míticos de tantos relatos iniciáticos, devem efetuar um itinerário labiríntico para poder aceder ao sub ou ao supramundo de essência diferente da banal realidade cotidiana. (Saer, s/d)
Espaço elevado à segunda potência, espaço que vira outra coisa, espacialidade que se desfaz, e possibilita o urbanismo fluido e móvel dos deslocamentos. Elevar à segunda potência é um procedimento de potencialização da experiência subjetiva desestabilizadora que permite a reinvenção dos espaços e dos deslocamentos nos espaços. Santa María propicia o surgimento de inúmeras personagens de Onetti: Juan María Brausen, que se desdobra em Juan María Arce e em Díaz Grey; Gertrudes e Queca, Elena Sala e o marido, Júlio Stein e Miriam, entre outros.
Para o leitor, capturado nas tramas da linguagem onettiana, o sistema de representação da realidade é sufocado pela narrativa intensa e por vezes delirante, numa seqüência criativa de seres aparentemente fracassados, cujas vidas se arrastam numa espécie de niilismo às avessas.
A Vida Breve conta a história de Brausen, o inventor de Santa Maria, obcecado pela retirada do seio de sua mulher, e pelos gritos de prazer, somados a uma torrente de palavras escutadas através da parede divisória do apartamento onde mora, de uma vizinha prostituta. O personagem se transforma em dois outros: Arce, cafetão de Queca, sua vizinha, e Díaz Grey, o médico da cidade. Deixemos que ele se apresente:
[...] sou este homem pequeno e tímido, imutável, casado com a única mulher que seduzi ou que me seduziu, incapaz, não mais de ser outro, mas da própria vontade de ser outro. O homenzinho que sofre à medida que o infortúnio cresce, o homenzinho confuso em meio à legião de homenzinhos aos quais foi prometido o reino dos céus. Asceta, como zomba Stein, pela impossibilidade de me apaixonar e não pela absurda aceitação de uma convicção eventualmente mutilada. [...] (Onetti, 2004, p. 60)
Na pele de Díaz Grey, encontramos um dos traços persistentes do romance, certa nostalgia da alegria enquanto paixão, um sentimento tórrido, absurdo, de que a vida fora possível e feliz em algum outro tempo espaço.
Estava meio enlouquecido, brincando com a ampola, sentindo uma necessidade crescente de imaginar e de me aproximar de um impreciso médico de quarenta anos, habitante lacônico e desesperançado de uma pequena cidade situada entre um rio e uma colônia de lavradores suíços, Santa Maria, porque lá eu tinha sido feliz, anos antes, durante vinte e quatro horas e sem motivo. (Idem, p. 23)
Há um paradoxo em A Vida Breve: a configuração psicológica dos personagens. Uma primeira leitura sinaliza para uma construção pelo negativo – amargura, sordidez, canalhice, vidas sem alternativas. Na repetição da leitura, surgem personagens escapando do cotidiano, indo ao encontro de uma metamorfose que os liberta, que os recria e os reinventa. O próprio Brausen vai se despindo de seus vínculos, de suas ligações, com Gertrudes, por exemplo, mulher de um seio, e com as vozes da vizinha prostituta e seus homens. Este percurso está posto em direção a uma impessoalidade, a um neutro, a um esgotamento, a uma experimentação da vida livre de grilhões e máscaras.
Mesmo Arce, o cafetão, personagem sórdido e mentiroso, há nele alguma ‘humanidade’, algo que salta de sua relação com Queca.
Soube novamente, durante meio segundo, o sentido da cena recente, do corpo e do passado de Queca, da resolução que me levara a visitá-la e a mentir para ela;
pensei decifrar todos os enigmas anteriores de minha vida, poder reunir as minúsculas sensações cotidianas e obter com elas a resposta, uma só, para cada uma das dúvidas importantes; uma resposta prazerosa, tão útil e convincente para mim como para todos os outros cegos, enfurecidos ou desesperados, que estavam me acompanhando naquele momento, sobre a terra. Depois fiquei sorrindo, em abandono, chapéu na mão, como um mendigo num pórtico, sorrindo enquanto sentia que o mais importante estaria a salvo se eu continuasse me chamando Arce.
(Onetti, 2004, p. 110)
No capítulo ‘A Tertúlia’, descortinamos o jogo das sobreposições de personagens e linguagens, assim como sobreposições de diálogos. Os jogos ambivalentes da linguagem de Onetti apontam para uma espécie de ‘metaliteratura’ ou ‘metanarrativa’, na qual as personagens abrem linhas e conexões em processos de metamorfose. A literatura do escritor uruguaio é um processo de diferenciação e devires. No capítulo referido, em que se constata a impossibilidade de continuar a ser Arce no apartamento de Queca, e Díaz Grey na cidade à beira do rio, encontra-se um lampejo da busca sofrida do protagonista:
Eu era Brausen quando aproveitávamos uma pausa para nos olhar e a transformávamos num silêncio todo particular, rematado pelo ruído da respiração de Queca, por uma afirmação e uma palavra obscena. E voltava a viver quando, afastado das pequenas mortes cotidianas, da correria e da multidão nas ruas, das entrevistas e da nunca dominada cordialidade profissional, sentia crescer um pouco de cabelo loiro, como um pulmão, em meu crânio, atravessava com os olhos as lentes dos óculos e da janela do consultório em Santa María para deixar que as ondas de um passado desconhecido acariciassem minhas costas, para olhar a praça e o cais, a luz do sol ou o mau tempo. (Idem, p. 147)