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Os clubes profissionais, para além das formas como são geridos, têm certas particularidades a respeito da sua propriedade. Segundo Hoye (2006, citado em L’Etang, 2013, p. 97), “os desportos profissionais utilizam diferentes modelos de propriedade e governança, afim de regular e gerir os seus negócios de forma eficaz”16. Os dois principais tipos de propriedade nos clubes de futebol profissional são: por parte dos sócios, como é exemplo o Sport Lisboa e Benfica ou o Sporting Clube de Portugal; por parte de um indivíduo que adquire o clube e que o gere como entende, como é o caso de Roman Abramovich no Chelsea Football Club. Ambas as formas de propriedade do clube têm as suas peculiaridades e as suas próprias normas de administração. No entanto, apesar de qualquer tipo de aquisição e administração de um clube, todos veem o futebol como qualquer outra indústria. Segundo Forslund (2017, p. 274), “o futebol é, cada vez mais, visto como qualquer outro negócio”.

Quando a propriedade de uma organização desportiva pertence aos seus sócios, estes organizam-se e, após seguirem o seu regulamento interno e/ou os seus estatutos, contribuem para a prosperidade da organização. Segundo Heinemann (1998), citado por Augusto (2015, p. 40), “um clube desportivo apresenta caraterísticas específicas que consideradas em conjunto, representam uma associação voluntária: filiação voluntária, orientação conforme os interesses dos sócios, independência relativamente a terceiros, estruturas democráticas de decisão e trabalho honorário”. Ou seja, são os sócios que decidem quem administra o clube e

16 “Professional sports utilize different ownership and governance models in order to regulate and manage their business effectively.”

toma as decisões para o êxito e a transparência do mesmo. Hamil, Walters e Watson (2010, p. 476) apresentam o Real Madrid Club de Fútbol e o Futbol Club Barcelona como duas organizações que pertencem aos seus sócios, não sendo de capital fechado.

Nestes clubes, que são da posse dos seus sócios, a democracia impera, sustentada pelos estatutos da organização. Segundo Wilkesmann e Blutner (2002, p. 25), “o consentimento dos membros em relação a certos tipos de questões é muitas vezes exigido pelos estatutos do clube. Adicionalmente, os membros elegem os órgãos do clube (conselho de administração, presidência) e supervisionam o cumprimento das respetivas tarefas”17. Aquando das eleições, todos os parâmetros devem ser respeitados, afim de irem ao encontro dos estatutos correspondentes. Segundo Vukusic e Miosic (2017, p. 2), “de acordo com os estatutos, as eleições devem ser realizadas de poucos em poucos anos e respeitar os padrões democráticos”18.

Para se poder ter influência no futuro da organização desportiva e o direito de opinar acerca das decisões dos seus dirigentes, ou seja, ser sócio, é necessário pagar uma quota anual (Hamil et al., 2010, p. 476). Segundo Coelho e Tiesler (2007, p. 591), “os membros têm efeitos diretos sobre os orçamentos operacionais”19. Exemplo desta situação aconteceu, por exemplo, no Vitória de Guimarães. A 3 de junho de 2017, os sócios do Vitória Sport Clube aprovaram o orçamento do clube para a época 2017/2018, apesar da organização desportiva ter tido 174 mil euros de prejuízo em relação à época transata. Adicionalmente, escolheram um novo nome para o pavilhão do clube (Andrade, 2017).

Como referido anteriormente, o Vitória Sport Clube teve prejuízo na época transata. Apesar disso, este prejuízo não irá recair sobre os sócios, assim como o lucro também não seria para distribuir pelos mesmos. Segundo Sousa (1996, citado em Augusto, 2015, p. 40), “esse lucro, devido à especificidade de constituição deste tipo de organizações, não pode ser distribuído pelos sócios, mas deve reverter para o próprio clube”.

Desta forma, é obrigatório existir, pelo menos, uma relação razoável entre a administração da organização desportiva e os seus associados. Segundo Tobin (2017, p. 775), “se os adeptos devem desempenhar um papel significativo na administração do jogo, precisa de existir um relacionamento coerente com os seus governantes”20.

As organizações desportivas adquiridas por indivíduos endinheirados têm vido a crescer desde a entrada neste século. Segundo Plumley et al. (2017, citados em Rohde e Breuer, 2017, p. 266):

17 “The consent of the membership to certain types of issue is often required by club statute. In addition, the members elect the organs of the club (management board, presidency), and oversee the fulfilment of their respective tasks.”

18 “According to the statutes, elections should be hold every few years and democratic standards respected.”

19 “Membership has direct effects on operating budgets.”

20 “If supporters are to play a significant role in the governing of the game, a coherent relationship needs to exist with its governing association.”

17 Desde o início do século XXI, testemunhamos a crescente importância da propriedade do clube devido à mudança dos incentivos económicos, à crescente prevalência e alavancagem financeira dos investidores privados e ao papel, cada vez mais importante, dos investidores privados, numa perspetiva desportiva21.

Estes donos dos clubes injetam avultadas quantias de dinheiro nos mesmos, de modo a reforçar a equipa e a melhorar as estruturas da organização desportiva. Esta situação já foi realizada, por exemplo, por Roman Abramovich no Chelsea Football Club ou por Mike Ashley no Newcastle United (Rohde e Breuer, 2017, p. 278).

Numa indústria em que, atualmente, o dinheiro é importante, tendo em vista o poder de compra, os adeptos conformam-se com a compra do clube por alguém ligado ou não à organização desportiva, com a esperança de sucesso futuro. Segundo Hamil et al. (2010, p. 476):

Uma justificação popular para tais aquisições de clubes do futebol inglês, por proprietários privados milionários, é que, para ser bem-sucedido ao mais alto nível, um clube precisa ser capaz de atrair investimentos privados importantes, para que possa competir efetivamente no mercado de trabalho internacional do jogador de futebol.22

Exemplos atuais deste sucedido são os clubes Manchester City e Paris Saint-Germain. Os seus donos investiram fortemente na equipa para obterem alguns dos melhores jogadores de futebol do mundo. As contas do Manchester City demonstram que o Sheik Mansour (dono do clube) investiu quase 1 bilião de euros no clube desde a sua aquisição (Thani e Heenan, 2017, p. 1020). Uma consequência da entrada destes indivíduos endinheirados no futebol foi o custo dos jogadores que, com o maior poder de compra dos clubes, inflacionou o mercado de transferências. Segundo Kiernan (2017, p. 881), “a espiral ascendente dos salários do jogador, as taxas de transferência e o custo dos clubes de futebol são artificialmente inflacionados e não refletem o valor real desses ativos”23.

Os donos, quando despendem avultadas quantias de dinheiro para melhorar as infraestruturas, a estrutura e a equipa de futebol, gastam dos seus próprios fundos monetários e não necessitam de prestar contas a sócios. Segundo Hassan e Hamil (2010, p. 346):

Os objetivos dos negócios no desporto são, muitas vezes, diferentes daqueles noutras indústrias. Os negócios privados que possuem equipas desportivas são únicos no mundo dos negócios, na medida em que priorizam com frequência vencer ao lucro financeiro. No entanto, isso cria um incentivo interno para que os clubes sejam financeiramente irresponsáveis na busca do sucesso desportivo24.

21 “Since the beginning of the twenty-first century, we have witnessed the increasing importance of club ownership owing to changing economic incentives, the increasing prevalence and financial leverage of private investors, and the increasingly important role of private investors from a sporting perspective.” 22 “A popular justification for such takeovers of English football clubs by millionaire private owners is that, in order to be successful at the highest level, a club needs to be able to attract major privative investment to allow it to compete effectively in the international football player labor market.”

23 “The upward spiral of player wages, transfer fees and eve the cost of football clubs is artificially inflated and unreflective of the real value of such assets.”

24 “Business objectives in sport are often different to those in other industries. Private business that own sports teams are unique in the business world in that they frequently prioritize winning over

É reconhecido que poucos donos de organizações desportivas fazem dinheiro com a propriedade de um clube. Aliás, as principais motivações para adquirir um clube não são razões lucrativas. Essas motivações passam pelo sonho de conseguir sucesso desportivo (visto que são potenciais fãs de um clube ou de um desporto), ou porque os donos fazem ações de Relações Públicas através dos respetivos clubes para os seus negócios privados, ou pela fama que advém com o desporto (Hamil e Walters, 2010, p. 255).

Os clubes, cujo os donos são privados e estrangeiros, têm melhores resultados nas ligas nacionais que os clubes com donos privados internos (Rohde e Breuer, 2017, p. 268). Dada a possibilidade de gastarem mais fundos monetários, as estatísticas confirmam que a estratégia destes donos estrangeiros de clubes está a surtir efeito. Segundo Rohde e Breuer (2017, p. 268), “para clubes como o Chelsea FC (2005, 2006, 2010), o Manchester City (2012, 2014) e o Paris Saint-Germain (2013-2016), novos proprietários ricos levaram o clube a repetir campeonatos nacionais, depois de alguns anos no controle”.