Atentando para o que demonstram os dados da tabela 5, observa-se que o percentual de organizações que trabalham com Arte e Cultura é de 11,3% e que quase metade das associadas trabalha com o tema da Educação, 48,9%. Sobre a consolidação dessa relação, Gouveia (2010:16) diz:
Aprofundando as primeiras respostas sobre as lutas políticas realizadas pelas associadas à ABONG, constatamos que a educação teve um grande destaque, pois foi assinalada por praticamente metade das organizações (48,9%). Quando relacionamos essa luta à principal perspectiva de trabalho - desenvolvimento da consciência crítica e da cidadania - e somando- se a isso os temas com os quais a educação se correlaciona - organização popular / participação popular, discriminação racial e arte e cultura – o fato de a educação ser uma prioridade não pode ser entendido como uma luta somente pela educação formal e pelas políticas educacionais, dado que transformar as lutas em políticas públicas no geral obteve 57% das respostas. Ou seja, há também um forte componente de educação informal e/ou popular, assim como de conscientização, participação política, combate à discriminação e expressões artísticas e culturais.
As organizações que têm a educação como área temática principal, como é o caso da Ação Educativa, representam mais da metade das organizações integrantes da Abong. E também, como observado por Carvalho (2008), muitas delas produzem ações voltadas para a educação na perspectiva da educação informal e do ensino das artes.
A segunda luta eleita foi organização e participação popular. Podemos inferir que, além da educação para conscientização e cidadania, há uma necessidade de organização das/dos cidadãs/ãos para a atuação política e que se relaciona sobretudo com os seguintes públicos: organizações populares / movimentos sociais, trabalhadoras/es rurais / sindicatos rurais e jovens (Gouveia, 2010:16).
Para melhor analisar essas questões, será traçado, aqui, o perfil das quatorze organizações filiadas que atuam na área de arte e cultura, as quais correspondem aos 11,3% indicados na Tabela 5. Nas informações publicadas na página web da Abong sobre cada uma de suas associadas, constam os seguintes dados: ano de constituição, missão, principal âmbito de atuação, região do Brasil em que atua, público atendido, utilização ou não de trabalho voluntário e áreas temáticas de atuação.
Em relação à região do Brasil em que atuam, verifica-se que somente uma delas se encontra localizada no Norte - o Instituto Universidade Popular (Unipop) -, duas estão sediadas no Nordeste - Centro Cultural Educativo de Lazer, Informação, Trabalho e Ação Social (Celita) e Centro de Referência Integral de Adolescentes (Cria) -, e as demais, no total de onze instituições, atuam no Sudeste - Ação Educativa - Assessoria, Pesquisa e Informação; Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais (Caces); Centro de Estudos e Pesquisas em Educação; Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); Centro de Referência para Saúde da Mulher (Cresam); Espaço - Espaço Formação Assessoria e Documentação; Fundação Fé e Alegria do Brasil; Instituto Avisa Lá - Formação Continuada de Educadores; Associação Projeto Roda Viva; Solidariedade França- Brasil (SFB) e Associação Saúde Sem Limites (SSL) e Vivendo.
O âmbito de atuação mais recorrente é o municipal, no qual se encontram quatro OSCs; três organizações possuem ações nacionais; duas delas, regionais; e somente uma, internacional.
A utilização de trabalho voluntário é encontrada na maior parte das organizações; na pesquisa, oito delas declararam que o utilizam, cinco afirmaram que não e uma não respondeu.
Com exceção de duas das organizações, cujo foco de trabalho são as relações de gênero e saúde, as restantes são da área da educação.
Quanto ao público atendido, do total pesquisado, onze organizações possuem ações voltadas para o público formado por crianças, adolescentes e jovens. Aparecem também como público alvo, com certa frequência, os professores, as organizações populares/movimentos sociais e mulheres. Duas das associadas têm foco na questão racial: uma indica os negros como público e
outra, os povos indígenas. Há ainda uma organização que trabalha com a terceira idade. Mas nota-se, com maior frequência, a existência da correlação temática entre educação e arte e cultura, sendo boa parte das ações voltada para os jovens e/ou criança e adolescentes.
Carvalho (2008) identifica essa relação entre educação e cultura no trabalho das organizações que atendem ao público infanto-juvenil. Para a autora, o trabalho dessas entidades pode ser entendido como “novo espaço para vias educacionais alternativas” (Carvalho, 2008:29) e observa que o ensino das artes se faz presente em quase todas as experiências por elas desenvolvidas. Ela se respalda em levantamento realizado pela Unesco em 2001 e em pesquisa nas páginas web de diversas ONGs para chegar a essa conclusão. A partir dessa pesquisa, a autora consegue identificar formas como a arte é percebida nesses espaços de educação não formal. Segundo ela, “[...] a arte não é tomada apenas como um meio de educação, mas como a educação em si mesma” (Carvalho, 2008:30). Com isso, a autora sugere que, por meio da arte, os educadores das ONGs, além de pretenderem um desenvolvimento integral (afetivo, cognitivo, intelectual e espiritual) dos educandos, também oferecem uma possível profissionalização numa das linguagens artísticas ensinadas e fornecem o acesso às artes para essa população.
A partir da percepção de que as organizações que trabalham com a cultura vêm de uma tradição do campo da educação e tendo como base a reflexão de Lívia Marques e as informações da Abong, é possível refletir sobre o papel dado à cultura dentro das organizações da sociedade civil. Pode cultura ser, para estas organizações, somente um direito secundário e um instrumento para outros direitos, no caso, o direito à educação? Ou há uma luta política específica pelo direto à cultura?
O censo da Abong indicou que as entidades acreditam na necessidade de organização dos cidadãos para a ação política, orientação que abrange todos os públicos com que trabalham. Essa ação pública pode se realizar por meio de processos de formação para a cidadania e de estímulo para a participação cidadã em processos políticos e espaços de participação social.
Com base nos dados e na história dessas organizações, é possível considerar uma relação intrínseca entre cultura e educação, participação social e jovem. Aqui algumas questões se levantam: é possível pensar no direito à cultura sem que se torne um instrumento para a formação escolar, mesmo ocorrendo fora da escola? Aí está o nó. São essas organizações capazes de pensar
na cultura isolada dessa formação? E, indo por outro caminho, há, de fato, algum problema nessa relação?
Carvalho (2008) defende que sim, que as organizações concebem cultura como um direito isolado e que a arte assim é percebida dentro do trabalho das organizações: “o conhecimento sobre a arte e o fazer artístico não deve ser considerado apenas como uma atividade complementar à formação, mas como um direito de cada cidadão ou cidadã” (Carvalho, 2008:30). Essa concepção aparece, também, na fala da equipe da Ação Educativa, que busca entender a cultura como direito e, portanto, acredita que cabe ao Estado sua garantia por meio da implementação de políticas públicas. Antonio Eleilson Leite, coordenador do Espaço de Cultura e Mobilização da Ação Educativa, em entrevista dada ao Informes Abong (Abong, 2009), afirma que “Apesar do que diz o texto da Constituição de 1988, redigido após 21 anos de ditadura militar, o direito à cultura sempre foi um tema de menor relevância na pauta do governo federal.” Leite ainda ressalta que:
Segundo a carta da Constituição, é garantido o acesso à cultura e o incentivo à sua propagação, bem como a proteção de culturas populares e tradicionais, como indígenas e afro-brasileiras. (Abong, 2009)