10.1 A organização grupal
A forma de organização grupal parece ser inerente a natureza humana. A vivência de se estar em grupo passa a ser cotidiana e familiar a todos. A vida esta estruturada em grandes e pequenos grupos. Tem-se a família, o grupo dos amigos, o grupo do trabalho, entre outros. Cada configuração tem sua rede própria de objetivos e é caracterizada por códigos e padrões relacionais específicos.
Etimologicamente, a palavra “grupo” possui duas origens: do provençal grop, que significa nó e do germânico Kruppa, que equivale à forma arredondada. Tal origem traz a idéia de igualdade e enlace entre seus componentes (TSCHIEDEL, 1998 APUD ZANELLA, 2001).
A cultura é formada a custas de transmissões inconscientes projetadas nas leis sociais.
10.2 Grupo e agrupamento
Zimerman (1997) diferencia o conceito de grupo do de agrupamento: um grupo só existe quando se produz algo, transformando-se as relações entre os sujeitos. O que define o grupo não é a proposta de ação conjunta, mas, efetivamente como esta se dá. Também é necessário que haja “algo compartilhado” e que este “algo” não se contraponha às necessidades individuais.
Um grupo constrói na união dos membros sem descaracterizar cada individualidade. Já no agrupamento, as tarefas são sempre de cunho individual, os membros se fecham em universos particulares, não havendo espaço para produção conjunta (LANE, 1985).
10.3 Elementos básicos dos grupos
10.3.1 Elementos facilitadores da experiência emocional
Afonso (2002) refere que entre os componentes básicos de um grupo estão - a demanda e o contexto social – constituídos pelas razões que levaram o grupo a se formar e a relação entre o grupo e seu meio. Os objetivos, motivação e desejos do
grupo, também importante e a identidade do grupo, ou o sentimento de nos – que sinaliza o grau de coesão e a integração do grupo. O clima grupal – que evidencia a disposição frente à proposição dos objetivos comuns. A organização vai evidenciar a distribuição de papeis e funções entre os membros. Estes seriam fatores que propiciariam uma experiência emocional renovadora e ampla.
Neste sentido, a configuração grupal vem facilitar o andamento de um dos componentes fundamentais do método breve – a experiência emocional corretiva (EEC).
Freitas & Halpern-Chalom (2006) salientaram que o contexto grupal potencializa a elaboração das identidades de cada membro a partir das relações interpessoais, pois, as diferentes contribuições para as vivências comuns ampliam as óticas e as concepções individuais. “Quando algo novo é compartilhado e reconhecido pelos outros, inauguram-se possibilidades de estar no mundo de formas diferentes” (p.11).
Rosemberg & col (1955) sistematizaram alguns fatores pertencentes ao fenômeno grupal que contribuiriam para uma ação terapêutica efetiva. São eles:
Universalidade – característica que permite que os membros encontrem ressonância entre as vivências e sintam-se acompanhados em seus conflitos; Auto-revelação – constitui-se na possibilidade de emergência de conteúdos que surgem graças ao amparo da continência grupal; Identificação – a percepção de que as pessoas do grupo vivem os mesmos dramas e reagem de formas parecidas, bem como, possuem mesmos valores; Instilação de esperança – através do acolhimento e de depoimentos de diversos caminhos já tomados por seus membros o grupo pode fomentar que cada um siga em frente e Aprendizado interpessoal – torna possível a
elaboração das identidades que agora agregaram novos conteúdos advindos da riqueza da interação grupal. Tais componentes do grupo são importantes fatores terapêuticos que promovem e instilam movimentos necessários para as mudanças.
Bion, nos anos 40, definiu o conceito de espírito de grupo e entende por isto: a existência de um propósito comum; o reconhecimento comum dos limites de cada um de seus membros, sua posição e sua função em relação às unidades e grupos maiores; a distinção entre os subgrupos internos; a valorização dos membros individuais por suas contribuições ao grupo; a liberdade de locomoção dos membros individuais dentro do grupo; a capacidade do grupo enfrentar descontentamentos dentro de si e de ter meios de lidar com ele (BION, 1975).
10.3.2 Elementos formais e descritivos
O número de componentes - ou tamanho -, a rotatividade, a homogeneidade ou heterogeneidade e, finalmente, a duração do trabalho em grupo são elementos constitutivos formais e descritivos.
De acordo com Afonso (2006), há vantagens e desvantagens em qualquer eleição do tamanho do grupo. Grupos pequenos - de até 8 pessoas - possibilitam maior cumplicidade entre seus participantes enquanto que grupos compostos por um número maior de participantes promovem trocas afetivas mais superficiais.
Rogers (1978) com sua proposta de grupos de encontro, com finalidades tanto sócio-educativas quanto terapêuticas, aconselhou que o tamanho do grupo devesse ser entre 8 a 18 participantes, classificando-o como grupo pequeno.
A rotatividade dificulta o vínculo e a exposição emocional, portanto, para trabalhos que visem algum tipo de experiência emocional é recomendado o grupo fechado. Grupos com propostas de trabalho focais, nos quais os participantes têm o mesmo tipo de conflito pedem a homogeneidade. Grupos com propostas criativas – trabalhos em sala de aula, numa agência publicitária, etc.- beneficiam-se da
heterogeneidade. A duração do trabalho deve ser estabelecida ao se considerar que quanto mais se alonga o tempo, maiores são os vínculos. Para um grupo de
depressivos, por exemplo, um tempo maior é pedido em comparação ao tempo requerido para trabalhos focais (Afonso, 2006).
10.4 A Psicoterapia breve m grupo
As configurações grupais em psicoterapia breve são uma constante, embora também sejam numerosos seus atendimentos individuais.
A alta incidência da configuração grupal em psicoterapia breve é coerente com a proposta inicial do método – desde sua origem – que veio, entre outros, preencher o hiato formado por atendimentos longos e exclusivamente individuais.
No grupo, além do ganho de tempo típico da psicoterapia breve, também ocorre um ganho na abrangência do número de indivíduos que podem se beneficiar da psicoterapia. Tal característica torna a psicoterapia breve especialmente importante para trabalhos na área da saúde comunitária (AZEVEDO, 1988).
Heten, (1981) E Mackenzie (1997) verificaram que resultados favoráveis de intervenções em grupo podem resultar em êxito – mesmo num período curto de tratamento. Apontaram que 50% dos casos de ambulatório que participavam de grupos de intervenção breves apresentam melhora. Dentro de cerca de 20 meses, 85% dos casos continuam a melhorar.
Lemgruber (1997) igualmente referiu que seguimentos de follow-ups revelam com freqüência a irradiação focal e os ganhos continuam para muito além da alta.
10.5 A psicoterapia breve Junguiana em grupo
Hall (1995) apontou que os terapeutas Junguianos chamam de “análise em grupo” à modalidade de atendimento grupal em psicoterapia. Assinalou que o trabalho grupal não é aceito com unanimidade pela abordagem Junguiana mais ortodoxa. No entanto, a diversidade de formação entre os analistas Junguianos
promove um contínuo processo de “discussão e revisão das diversas variações do estilo clássico da análise” (p.142).
Igualmente Kast (1997) inseriu o trabalho grupal em sua prática clínica Junguiana, ao lado dos atendimentos individuais. As experiências com sonhos e imaginação são contadas no grupo e cada membro, com a mediação da terapeuta, tenta auxiliar o processo de desenvolvimento do colega através de contribuições empáticas, cuja fonte é a própria experiência.
Hall (1995) ressaltou que Jung não comungava do trabalho grupal por estar preocupado com alguns comportamentos de indivíduos que apresentavam menor consciência individual que quando vistos individualmente. Assinalou que Jung não teve acesso a modernas psicoterapias processuais de grupo, onde se promove justamente a maior consciência individual, com indivíduos assumindo olhares próprios, a despeito do grupo. Apontou alguns processos que ocorrem no grupo: a possibilidade de aceitação da sombra do outro; a promoção de uma auto-estima realista; a facilitação de estados de ego-afeto e o diagnóstico das condições do cotidiano do paciente, espelhadas nas relações interpessoais que ali acontecem.
Boechat (2008) considera que a psicoterapia breve Junguiana de grupo se mostra congruente com os preceitos Junguianos clássicos:
Na verdade, só podemos compreender o indivíduo, partindo do global, dos processos coletivos do inconsciente coletivo que se manifestam em plano individual (...). A capacidade de diálogo transformador entre as pessoas é expressão do diálogo entre as diversas culturas, porque cada indivíduo está inserido em determinada cultura, em determinado tempo (...). Somente com a compreensão do mito do outro é que o conflito coletivo poderá ser evitado. (Boechat, 2008, www.jungrj.com.br/artigos/transformacao.htm)
Ao referir-se à psicoterapia breve, no mesmo trabalho, afirmou que a modernidade pede referenciais outros que contemplem a mesma aproximação simbólica que a das psicoterapias tradicionais. Apontou que a eficácia simbólica na psicoterapia é possível, mesmo em psicoterapias abreviadas. Ocorre que, nestas modalidades, esta transformação se concentra em camadas mais superficiais da personalidade, num complexo determinado.