Assim como nas demais áreas, a expansão é a grande marca da pós- graduação stricto sensu de Psicologia nos últimos anos. Uma amostra do crescimento deste setor pode ser observado na Figura 2, a respeito da criação dos mestrados e doutorados de Psicologia ao longo do tempo:
Figura 2. Série histórica dos programas de pós-graduação stricto sensu de Psicologia30
Ainda que a figura indique crescimento irregular, percebe-se que a quantidade de programas é constantemente crescente, aumentando em ritmo mais intenso a partir dos anos 2000 – observe-se que só na primeira metade da década atual já foram criados mais mestrados e doutorados do que ao longo de toda a década de 1990. A emergência dos mestrados profissionais nesta última década também pode ser visualizada na figura.
Tal expansão, contudo, não isenta a área de desafios a serem enfrentados em busca de consolidação e atendimento às demandas internas. Por exemplo, a despeito de tamanho crescimento nos últimos anos, a pós-graduação, em termos de quantidade de titulados, ainda tem muito a expandir: Tourinho e Bastos (2010a) apontam que o quadro de mestres e doutores (e sua taxa de crescimento) não são suficientes, sequer, para acobertar a totalidade de cursos de graduação da área. Para se ter uma ideia dessa
30 Os dados apresentados nas Figuras 2, 3 e 4 e na Tabela 5 são referentes aos programas ativos em 11 de
dimensão, hoje tem-se uma média de 0,75 doutor e 2,77 mestres por curso de graduação em Psicologia em funcionamento no país.
Outro desafio se refere à concentração regional da pós-graduação, como se pode observar na Figura 3:
Figura 3. Distribuição dos programas de pós-graduação stricto sensu de Psicologia
quanto a localização regional e dependência administrativa
Do total de 77 programas de pós-graduação em Psicologia no país, aproximadamente 50% estão localizados no Sudeste, o que atesta o peso do desenvolvimento econômico nas políticas científicas. Os únicos dois cursos de mestrado profissional da área estão aí localizados. Os determinantes e os impactos da desigual distribuição de recursos e oportunidades de formação acadêmica em Psicologia já foram largamente debatidos, não só em relação à pós-graduação, mas também da formação graduada e produção científica, conforme apontam Costa, Amorim, e Costa (2010), Cruz e Stralen (2012), Lisboa e Barbosa (2009) e Yamamoto, Sousa, e Yamamoto (1999).
É bem verdade que a ramificação de todo o SNPG para as regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste tem acontecido em ritmo acelerado quando comparado aos índices nacionais. Como exemplo, em 1996, os cursos de mestrado e doutorado na região sudeste respondiam por 63,3 e 83,2% respectivamente e em 2008 caíram para 50,8 e 60,5%. No mesmo período, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste ampliaram sua participação de 21% para 28,8% nos mestrados e de 7,6% para 21,3% nos doutorados. Contudo, políticas científicas voltadas para a desconcentração espacial da pós-graduação ainda se fazem muito necessárias e diversos estudos têm sido conduzidos na tentativa de entender e propor alternativas visando amenizar as persistentes desigualdades regionais, a exemplo de Bortolozzi e Gremski (2004), Cavalcante (2011) e Sicsú e Bolaño (2007).
A Figura 3 também indica que a centralização da pós-graduação ocorre ainda quanto à dependência administrativa das instituições que abrigam os programas, da mesma forma como acontece com as demais áreas do conhecimento. Na Psicologia, 70% das instituições que sediam os cursos de mestrado e doutorado são públicas, sejam elas federais ou estaduais.
Lisboa e Barbosa (2009) apontam que a centralização da pesquisa nas instituições públicas decorre, em grande parte, do processo de mercantilização pelo qual tem passado o setor da educação superior brasileira, em que as instituições privadas se limitam ao ensino e não destinam recursos às atividades de pesquisa e formação de pesquisadores, visando redução de custos. Este quadro também é debatido por Melo (2006), que aponta a existência de uma “divisão social” do papel das instituições de ensino superior. Os autores apontam problemas nesse cenário uma vez que o prejuízo não se dá apenas em relação à restrição da prática de pesquisa ao grande contingente de
alunos das instituições privadas, mas por reduzir a oportunidade, para o próprio professor universitário de instituição privada, de ser também pesquisador.
Em relação à qualificação dos programas, a Figura 4 retrata a evolução dos cursos de mestrado e doutorado de Psicologia no país de acordo com as avaliações realizadas a partir de 1998, quando a CAPES reformulou o processo de avaliação para o formato que permanece nos dias atuais.
Figura 4. Conceitos recebidos pelos programas de pós-graduação em Psicologia no
período 1998-2012
Ainda que a atribuição dos conceitos aos programas obedeça a um sistema de métricas e distribuição das pontuações em quartis (o que obriga a existência de programas nos três extratos, de 3 a 5)31, a análise da configuração dos cursos em relação aos conceitos da última avalição se faz pertinente para entender o desenvolvimento qualitativo da área.
31 Esse sistema se limita a atribuição dos conceitos de 3 a 5. Os programas que recebem conceitos 1 e 2
são considerados impróprios ao funcionamento. Os programas com conceito 5 e que são compostos por cursos de mestrado e doutorado podem ser elevados a conceitos 6 e 7, caso atendam a critérios que indiquem padrão internacional.
Uma primeira observação é que, na Psicologia, todos aqueles com conceito 3 (n=17) são compostos apenas por mestrados e dos 28 que receberam conceito 4, apenas 4 têm doutorado. Isto parece indicar que, à medida que o programa se desenvolve e amadurece, a ponto de criar um curso de doutorado, ele tende a melhorar sua qualificação na avaliação. Tendo em vista que 15 dos que receberam conceito 3 foram criados a partir de 2010, espera-se que parte expressiva desses programas consigam subir para conceitos melhores proximamente.
Outra conclusão que se depreende da Figura 4 é a baixa frequência de programas com conceitos 6 e 7, o que revela nível de internacionalização ainda incipiente na área. Algumas iniciativas têm sido empreendidas visando melhorar este indicador, principalmente por meio do fomento à produção científica em veículos estrangeiros e do estímulo aos intercâmbios científicos de docentes e discentes em estadas no exterior. Este movimento representa tendência em nível mundial e a internacionalização da pós-graduação de Psicologia é tema sempre presente nos debates atuais (Lo Bianco et al., 2010).
Por fim, o último desafio ao qual se faz menção aqui é a garantia de representatividade da diversidade temática da Psicologia na pós-graduação, de modo a evitar saturação em algumas subáreas e lacunas em outras. Em breve levantamento dos campos prioritários tratados nos programas (depreendidas a partir da proposta do programa), chegou-se ao cenário apresentado na Tabela 5:
Tabela 5
Distribuição dos programas de pós-graduação stricto sensu de Psicologia em relação a sua vocação temática
Por um lado, percebe-se que aproximadamente 40% dos programas ativos de Psicologia não especifica subáreas, o que pode ser um indicador de amplas oportunidades para a expressão de sua diversidade. Por outro lado, no que se refere aos programas vocacionados, 75% referem-se a três campos específicos da Psicologia: Clínica, Social e aqueles ligadas à interface ciências naturais/saúde (Experimental, Cognitiva, Neurociências e Psicobiologia).
Em articulação com as diretrizes postas pelos dois últimos PNPGs, alguns autores têm apontado problemas decorrentes de grandes assimetrias internas no que se refere às perspectivas temáticas da pós-graduação, deixando de lado áreas e temas
Subáreas da Psicologia Frequência
Não especifica subárea 33
Social 10 Clínica 9 Experimental 6 Saúde 5 Cognitiva 3 Desenvolvimento 3 Neurociências 3 Escolar e da Educação 2 Psicobiologia 2 Avaliação Psicológica 1 Total 77
considerados prioritários, como “políticas sociais”. Tourinho e Bastos (2010a) questionam as contribuições que a pesquisa científica e a pós-graduação de Psicologia podem fazer no que se refere às demandas crescentes de atenção à população idosa e as políticas públicas de atenção à saúde mental no Brasil. Do mesmo modo, Féres- Carneiro et al. (2010) reclamam da carência de pesquisas na área educacional em um momento em que o sistema de ensino público brasileiro padece.
Sabe-se que o tema “políticas públicas”32 aparece em 6% das linhas de
pesquisa ativas dos cursos de mestrado e doutorado da área no país (Féres-Carneiro et al., 2010). Entretanto, para além do dado quantitativo a respeito desta presença nas linhas de pesquisa, apenas um exame minucioso das características do contexto em que isso ocorre e da produção científica em si é que seria possível identificar a atenção dada a este campo na pós-graduação stricto sensu de Psicologia, de forma a apontar suas limitações e potencialidades. Tal análise inicia-se na seção seguinte.