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3. Metode

6.0 Konklusjon

A proposição do grupo de autoestima foi realizar atividades artísticas, no sentido de abrir para as pessoas novas e criativas possibilidades de experiência e expressão de si mesmas e da realidade, partindo dessa concepção da arte em seu sentido mais original. O intuito foi estimular esta experiência estética como uma potencialidade humana, como um modo de viver a realidade, modo este considerado como uma experiência fundamental para o desenvolvimento e realização humana em sua excelência (PINHO, 2003), assim como para a construção e afirmação de uma identidade singular e coletiva.

O propósito do grupo de autoestima investigado foi recuperar um sentido humano e amplo da experiência artística, perdido, apagado e ofuscado pelos valores de racionalidade e utilitarismo da sociedade moderna e, sobretudo, para aquela comunidade: negado pelas condições de pobreza e desorganização social a que estavam submetida, ofuscado pela opressão cultural. A arte, nesta pesquisa, representou uma resposta frente ao desafio da libertação, na medida em que potencializou a transformação, a recriação e o crescimento das pessoas.

Nesse sentido é que ela pode estar ligada a facilitação da superação do caráter oprimido dos indivíduos, das relações de opressão e dos mecanismos de dominação e submissão que negam a construção de uma subjetividade autêntica, singular, criativa e comunitária (GÓIS, 1993). A arte afirmou-se aqui em função de mediar à relação indivíduo-mundo, facilitando “a expressão do potencial de vida inerente a todo ser humano, o qual, por muitos caminhos, anseia expressar-se, fazer-se singularidade com os outros no mundo”. (GÓIS, 2002, p.217).

No grupo de autoestima, através da dança, da música, das produções plásticas criativas, buscava-se recuperar a capacidade das mulheres de - apesar da dura realidade por elas vivenciada - sentir a alegria e a intensidade de viver, a sabedoria, a emoção, a capacidade de transcender a realidade de opressão, recriarem-se e criar uma nova realidade. Acredito que a partir da atividade artística, também se fortaleciam e eram aprendidos intuitivamente valores, referenciais de vida plena. Eram abertos caminhos e novas possibilidades de Ser, a partir da abertura à uma realidade Maior e transcendente, à um conhecimento arquetípico compartilhado e à uma conexão profunda consigo mesmo.

A arte, como um caminho possível de retorno a experiência original e criativa do viver, pode nos alçar para o que Góis (2002) conceituou como vivência biocêntrica. Para o autor, ela é o instante no qual a identidade se expressa como vida, singularidade e beleza, por isso, é integradora, é geradora de mais integração, é fonte de superação, é transformadora do Ser, é unificadora dos indivíduos: é libertária.

Compreendo que nestes moldes de configuração de espaço grupal, a arte possibilitou alcançar, em seus processos de facilitação, dimensões originais da consciência, dimensões vitais da identidade humana, possibilitando às participantes realizarem um processo de conscientização que se enraizou numa dimensão instintiva, emocional, criativa e intuitiva. Para Toro (2005), a patologia do Eu e do espírito ocidental se caracteriza pela cisão entre natureza e cultura. Para este autor, através da música e da dança é possível realizar o resgate dos “gestos essências”, transgredir valores culturais- inclusive os valores de opressão e exclusão -, restaurar no ser humano o vínculo original com a espécie, com a totalidade biológica e suas potencialidades.

A arte, como método vivencial, buscou facilitar o desenvolvimento do sujeito comunitário e do modo de vida comunitário, no sentido de recuperar a expressão espontânea, criativa e amorosa na singularidade de cada sujeito dentro de uma dimensão comunitária, para além do enquadramento nos moldes sociais repressores,

possibilitando compreender a sociedade e os indivíduos a partir de seus potenciais de vida e de libertação. Para Góis (2005a), é na vivência da cooperação e na reflexão dialógica dessa experiência que dialeticamente as consciências podem se aprofundar, que os sujeitos podem se inserir de forma mais crítica no mundo, que a identidade pode superar a opressão e fortalecer o seu valor pessoal e poder pessoal, redundando na transformação coletiva das suas próprias condições sociais e concretas de vida.

É através da vivência que Góis (1993; 2002) espera tocar na essência da identidade como possibilidade de vida criadora, libertária, amorosa, singularizada e universal, imanente e transcendente, individual e comunitária, capaz de superar os próprios condicionamentos sociais nos quais foi forjada. Segundo Amaral (1987), na hermenêutica de Dilthey há a concepção de que é na integridade das dimensões biológica e cultural que repousa a verdadeira força e vitalidade, a real natureza criativa do psiquismo humano. Para Toro (1988), na identidade, concebida como uma unidade psicobiológica, há uma essência de vida indestrutível, uma força capaz de superar as condições sociais de opressão e injustiça, em direção aos espaços de felicidade, amor, união e transformação social.

O desafio evolutivo da identidade relativo à superação do caráter oprimido - como processo de crescente complexidade e integração do ser como singularidade, como superação de si mesmo e da realidade social - pressupõe, como já vimos, o desafio de sua expressão e emergência a partir das fontes originais da vida psíquica, que se encontram num solo emocional, corporal e estético, anterior a própria atividade reflexiva: encontram-se na vivência (AMARAL, 1987).

A arte, desde o prisma da libertação, configura-se como atividade humana capaz de acessar o mundo dos sentimentos, de processos criativos, de realidades transcendentais plenas de sentido vital. Como método vivencial, ela pode favorecer a capacidade para criar novos reinos de experiência, gerando efeitos e processos de transformação da consciência de forma integrada, forjando novas experiências de si mesmo e de transformação da realidade.

Se o desafio da libertação, como o concebe Boff (1980), pressupõe o desafio de experimentar novos campos de existência e novas possibilidades de Ser, creio que os espaços artísticos vivenciais, como no caso do grupo de autoestima do Marrocos, podem criar condições de facilitação para esse processo, sendo este inserido para além de uma cultura da palavra. A arte, ao possibilitar integrar os diversos sistemas simbólicos, enriquece e amplia nosso universo simbólico, ampliando ao mesmo tempo

as possibilidades de nossa existência. Sobretudo, trazendo a possibilidade de que nossa percepção possa alcançar níveis cada vez mais amplos, abrir novos horizontes, novas saídas, novas perspectivas de encontrar múltiplas, imaginativas e criativas possibilidades de atuar e enfrentar os problemas da vida, inclusive os sociais, mesmo os mais difíceis.

Fiorini (1995) ressalta, desde o campo clínico da saúde mental, a necessidade de ativar um “psiquismo criador”, sendo esta a forma possível de entrar em novas tramas de sentido, criando algo diferente e alternativo ao que já está dado e determinado, podendo estimular o estabelecimento de relações entre elementos conflituosos e antagônicos. Assim, a partir da atividade artística, pode ser ativado um processo de simbolização de ordem do “terceário”, pois “(...) surge o pensamento do possível como horizonte de existência (...) criar é convocar tensões e contradições e dar-lhes formas e sentido a essas contradições, de modo que essas formas possam albergá-las e fazê-las fecundas” (FIORINI, 1995, p. 25-28).

Hegel (1986, p.109) afirmou que o conteúdo que a forma artística encerra remete ao que considera sua tarefa e finalidade, sendo esta: “levar a nosso sentido, sentimento e inspiração todo o que tem lugar o espírito humano (...) completar em nós a experiência natural de nossa existência externa, alcançar sensibilidade para todos os fenômenos, nos afetar (...)”. Este filósofo ainda completa que a função da arte é “ (...) despertar e comover os sentimentos adormecidos (...) encher o coração e permitir insuflar nos homens, cultivados ou ainda não cultivados, todo o que a alma humana, no mais íntimo e no mais secreto pode conter, experimentar e criar, todo o que o peito humano, em sua profundidade e suas múltiplas aspectos e potencialidades é capaz de agitar e suscitar (...) (HEGEL, 1986, p.109).

É que a arte nos desperta paixões, penetrando em nosso ânimo, em nossa sensibilidade e vontade. Tal como o concebeu Nietzsche (1999) sobre a tragédia, a experiência artística é aquela qualidade da experiência desde a qual todo o desdobramento do viver, todo o prazer e o sofrimento, são transfigurados em uma experiência magnífica e trágica, transformando todo o terror irremediável de nossa existência terrena em fenômeno estético, de maneira a nos possibilitar experimentar a vida como um prazer superior.

A vivência artística é, então, biocêntrica e libertária (GÓIS, 2002), pois não somente nos faz voltar a sentir, mais o faz com tal intensidade e beleza, que nos possibilita novamente estar religados à vida. Como o concebeu Campbell (1997), a arte

mitológica nos possibilita um modo de relacionamento mais maduro e superior com a vida, alçando-nos a sua ordem transcendente, abundante, tornando-nos capazes de sentir e experimentar os laços invisíveis que nos conectam com a vida.

Concebo que no grupo de autoestima, muitas dessas concepções puderam ser vivenciadas e que no decorrer do processo dos encontros, algo era recuperado: potencialidades humanas eram despertadas. Como relatou Fátima (E. Q., 23/10/09): “o

valor tava dormindo e vocês vieram despertar”. O sentido da arte que foi sendo

construído estava muito vinculado a valorização de si mesmo, do que as mulheres logravam realizar como algo admirável e possível, como uma possibilidade de afirmação do Eu, de serem capazes de realizar algo belo e criativo. Isso se contrabalançava com o sentimento de dês-valor que elas vivenciavam, a desqualificação que sentiam por não terem estudado nem desenvolvido outras habilidades, as relações de opressão que permeavam seu cotidiano, a impotência que sentiam diante da realidade e o sentimento de incapacidade de mudar suas vidas.

Percebi, aí, o quanto a partir da arte, estava dada a possibilidade de lidar com o criativo, com o novo, pois mesmo diante de tantas adversidades, a luta pela sobrevivência e a falta de uma identidade e sentido coletivo, parecia encobrir a grande aventura implicada no processo de realização de si mesmo, possibilitando superar os padrões de opressão tão fortemente impostos. E era assim como se davam nas pequenas tentativas de expressão artística, nos pequenos rompantes de criatividade: as mulheres iam fortalecendo a capacidade de se moverem na vida, em busca daquilo que elas acreditavam, iam recuperando a imaginação e a capacidade de sonhar e criar, de enxergar a realidade para além dos limites que lhes estava sendo dado.

Para Campbell (1997), o desafio mitológico do herói - como arquétipo de realização de toda pessoa humana - é justamente encontrar um modo superior de relacionamento com a realidade, sendo o ato de heroísmo um ato de entrega a uma dimensão desconhecida da vida, do mistério, do invisível e do incognoscível. Esta abertura para o novo é exatamente o que o conduz a uma relação de maior desprendimento e assim a uma possibilidade de lidar com uma dimensão de super- abundância da vida, podendo religar-se a sua dimensão infinita.

Eliade (1991, p.16) ressalta que o reconhecimento da função do símbolo, “depende apenas do homem moderno, dizíamos, despertar para esse inestimável tesouro de imagens que traz consigo: despertar as imagens para contemplá-las nas suas virgindades e assimilar sua mensagem - importância da imaginação para a saúde do

indivíduo, para o equilíbrio e sua riqueza de sua vida interior”, sendo a falta de imaginação a condição de um ser limitado, triste, infeliz. Jung (1987) considera que o drama do mundo moderno refere-se a um desequilíbrio profundo da psique, tanto individual como coletiva, provocado pela esterilização da imaginação. Ter imaginação é ver a totalidade da realidade, pois a imagem tem o poder de mostrar tudo da realidade. “A ruína do homem a quem falta imaginação é que ele é cortado da realidade profunda da vida e da sua própria alma.” (ELIADE, 1991, p.16).

Lembro de uma fala da Maria (D.C.16., 03/06/2009), que me tocou muito, pois embora pudesse revelar todo um enredo sociocultural e econômico que a envolvia, revelava uma condição interior: “a pobreza tá é em mim”. Por isso, a libertação exigia das mulheres uma capacidade para abrir-se para o criativo, o novo, para o indeterminado, para a riqueza e abundância das possibilidades do viver. Do mesmo modo, exigia a capacidade de acreditar em si mesmas, de se perceberem de um modo diferente, de sentirem em si valor e poder. Como o concebe Morin (2003b), a arte, desde a pré-história, é um modo complementar de realizar sonhos, de compartilhar infinitas metamorfoses da presença do poder divino, permanecendo como um dos alicerces psíquicos dos indivíduos.

Enfim, concebo que essa metodologia pôde aportar princípios e fundamentos para que os profissionais do campo da psicologia comunitária pudessem enfocar um modo de facilitação que se configurou como o que Góis (2002, p.42) denominou de “Tecer a Vida”:

Enfim, tecer a vida é construir um cotidiano de vínculo, um trabalho com sentido, com prazer, abrir-se ao encontro com as pessoas e lutar contra a opressão e a exploração simplesmente por que ama o outro e a vida. É aceitar e estimular a expressão dos corpos-combativos, dos corpos-estrelas, dos corpos-apaixonados, em todas as idades, em casa, nas ruas e nas praças.

6. O GRUPO POPULAR DA COMUNIDADE DO MARROCOS: O