1.1 Problemstilling
1.1.2 Avgrensning
Holanda (2006) faz um questionamento que considero importante, referente a seguinte consideração: a opção pela abordagem qualitativa ou quantitativa se define pelo objeto de estudo ou pela forma de tratamento dos dados? Justamente, Chizzotti (1991) compreende que a pesquisa qualitativa toma como pressuposto que a legitimidade de seu conhecimento advém não de um processo de quantificação do fenômeno, mas de uma possibilidade de compreensão interpretativa do mesmo, construída a partir das significações que os indivíduos atribuem ao mundo e aos fatos da realidade vivenciados por eles.
Segundo Holanda (2006), os esboços para definir o que é considerado qualitativo em metodologia representam a escolha de um modelo que “destaca ou revela certos elementos característicos da natureza humana, os quais as metodologias quantificadoras têm dificuldade de acessar” (p. 364). O foco é o estudo dos processos vivenciados pelos sujeitos, considerando os significados que estes atribuem a seus comportamentos, ações, atitudes, como definem e significam situações e acontecimentos (QUEIROZ, VALL, SOUZA et al, 2007). Ressalto que aqui, também a
pesquisadora se insere como sujeito, pois para além de ser mera observadora, também se confunde com a realidade estudada, já seja pela convivência com os participantes, já seja pelos modos subjetivos de perceber e interpretar a realidade a partir de si mesmo (MORIN, 2003b).
A partir da consideração da singularidade da realidade humana é que Becker (1999) concebe que as situações de pesquisa qualitativa incentivam e até exigem a improvisação, diante da busca de soluções para os problemas de campo mais adequados a situação que as evocou, abrindo para inúmeras possibilidades e reformulações metodológicas. No caso, situo minha investigação do campo da pesquisa qualitativa em Psicologia Comunitária.
Montero (2006) ressalta que este ramo da psicologia agrega ao já reconhecido desafio do método científico - de saber o que fazer e o que se deseja fazer para lidar com as significações dos sujeitos - há outra circunstância que torna mais complexa a tarefa investigativa ou ao mesmo tempo a facilita:
(...) trabalhar com seres humanos que atuam, pensam, têm sentimentos positivos e negativos, são portadores de uma cultura e de uma história que ao mesmo tempo constroem dia-a-dia e que, igualmente como os investigadoras e investigadores, têm interesses e intenções e ainda mais formam parte de uma intricada trama de redes relacionais8 (MONTERO, 2006, p.19).
Sendo assim, o próprio investigador é reconhecido como membro desses seres complexos que investiga, pois o âmbito de atuação da Psicologia Comunitária está constituído por indivíduos que constroem e são construídos por uma comunidade. Montero (2006) ressalta ainda que na pesquisa social, os principais métodos e instrumentos provêm, desde sua origem e ainda na atualidade, dos métodos qualitativos tradicionais da psicologia e das ciências sociais. Entretanto, diante de uma história de 30 anos de pesquisa nessa área, ressalta as diversas variações, modificações e diferenças que foram sendo construídos ao longo desse processo em função de uma aplicação participativa e de um compromisso ético-político com a transformação social.
Desse modo, a orientação metodológica da Psicologia Comunitária e sua aplicação como método qualitativo, pressupõe referir-se ao método como um sistema de
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Tradução realizada por mim, cujo texto original é: “trabajar con seres humanos que actúan, piensan, tienen sentimientos positivos y negativos, son portadores de uma cultura y de uma história que a la vez construyen dia a dia y que, al igual que las investigadoras e investigadores, tienen intereses e intenciones y además, formam parte de uma intrincada trama de redes de relaciones”.
ações para investigar e intervir com o objetivo de produzir transformações, desde uma perspectiva crítica de cunho participativo, ativo e generativo de transformações. Trata- se de incluir passos que considera imprescindível igualmente na investigação e intervenção comunitária, como um só projeto, relevando necessidades e aspectos de mútuos interesses entre pesquisador e pesquisado, de modo a que também as pessoas e comunidades ganhem nesse processo, através do seu próprio crescimento, conscientização, autonomia, capacidade de transformar e desenvolver a si e sua comunidade. Relembremos que o objetivo da psicologia comunitária é a construção do sujeito comunitário, o fortalecimento da identidade, o desenvolvimento comunitário (GÓIS, 1993; MOTERO, 2006).
Considerando estes fundamentos, encontrei modos de dar coerência e unidade epistemológica a minha pesquisa, buscando não dissociar teoria e método. Optei, assim, por empreender uma combinação entre método etnográfico e fenomenológico, já que buscava destacar ao mesmo tempo a vivência singular dos participantes e a dimensão sociocultural da realidade. Acreditei que a união de ambos os métodos poderiam atender a necessidade de compreensão da experiência vivida em sua mútua constituição como realidade sociocultural. Ressalto ainda, a opção por uma construção dialógica de sentidos negociados, pois a captação do outro, das subjetividades, do alter-ego, foi aqui uma realidade vivida no fluxo da consciência do próprio pesquisador (RABELO; ALVES; SOUZA, 1999).
Apontar para o método fenomenológico como modalidade do método qualitativo, neste caso, dentro do campo de pesquisa social, representou para esta investigação uma forma de buscar adentrar na qualidade dos fenômenos para além do que era dito sobre eles, pois meu objetivo foi penetrar nas experiências inefáveis, estéticas, pré-reflexivas, pré-verbais, que estavam para além da explicação racional e da descrição verbal analítica. Neste sentido, a coerência que busquei foi tomar as próprias categorias de vivência e de corporeidade vivida como fundamento epistemológico para uma construção metodológica. Como me aproximar o máximo possível da vivência ontológica, podendo esta ser comunicada, sem, contudo reduzi-la drasticamente a um discurso explicativo? Justamente, como aprofundarei em capítulo posterior, Almeida (1994) fala da distinção entre vivência ontológica e vivência epistemológica, distinguindo a qualidade em que o vivido é uma experiência em si, do próprio Ser, ou quando esta se desdobra, num momento posterior ao instante vivido, como um esforço por ser apreendida pela consciência.
A problemática trazida pela fenomenologia - existencial de Merleau-Ponty é, segundo Rabelo et al (1999), que o conhecimento através do qual se vive não é necessariamente idêntico ao conhecimento através do qual se explica a vida. Nesse sentido muitos cientistas sociais buscam explicar as práticas sociais pelas ideias ou representações expressas a posteriori pelos atores. Entretanto, na perspectiva do método fenomenológico, a experiência não se reduz ao modelo dicotômico, desde o qual se contrapõe sujeito e objeto, modelo de muitas das teorias sociais que tomam a expressão apenas como uma modalidade de experiência, forjada pela atividade reflexiva. Neste enfoque, o fundamento está em outra modalidade de experiência, pré-reflexiva ou pré- objetiva, desde a qual o mundo se apresenta primeiro como esfera de ação ou de prática, antes de ser objeto de conhecimento, sendo este um esforço de retornar as coisas mesmas.
Segundo Moreira, Nogueira e Rocha (2007), o método fenomenológico busca a compreensão da experiência vivida, tendo como objetivo maior a busca do significado da experiência, o foco é a compreensão do significado dos fenômenos, não estabelecendo qualquer tipo de definição rígida a priori acerca do tema. “Busca-se alcançar o significado de um fenômeno para um sujeito que é encarado como protagonista de sua própria vivência” (MOREIRA et al, 2007, p.10) Os autores ressaltam a variação que traz a perspectiva mundana de Merleau-Ponty, que é de que o fenômeno passa a ser descrito e não explicado ou analisado, devendo ser apreendido a partir deste olhar imediato, como mundo vivido e pré-reflexivo, como fenômeno que se apresenta a consciência.
Ainda segundo Moreira et al (2007), a perspectiva fenomenológica de Merleau- Ponty ressalta o aspecto mundano da experiência, a “corporeidade vivida”, a contextualização da experiência singular em suas dimensões concretas, históricas, sociais e culturais desde as quais são forjadas, resgatando a dimensão do vivido humano em interação com o coletivo. Questões relevantes sobre esta perspectiva se referem a possibilidade de compreender algo como experiência vivida e significada em contexto de ação e interação (RABELO et al, 1999), expressando uma preocupação em problematizar e compreender como os indivíduos vivem seu mundo, o que nos remete as ideias de consciência e subjetividade, mas também e especialmente, de intersubjetividade e ação social.
Uma das implicações desta teoria é que o domínio da prática se define por um engajamento ou imersão na situação, não destacando a ação do mundo. Subjacente a
esta ideia, ressalta-se uma cumplicidade ontológica entre Ser e mundo, restaurando o sentido de presença. Assim a experiência vivida torna-se situada, estando os seres em situação, de modo que a subjetividade é compreendida como consciência-corpo ou corpo-consciência, e onde o corpo, por sua vez, pode estar perpassado por uma construção de sentido (RABELO et al , 1999). Desse modo, esta perspectiva possibilita uma aproximação com a pesquisa de enfoque etnográfico, sendo esta uma possibilidade de articular esta vivência em toda sua singularidade com a rede de significações social, de valores e ideologias do grupo ao qual aquele indivíduo se insere.
Segundo Da Matta (1991), a etnografia é uma metodologia desenvolvida pelos antropólogos para estudar as culturas e sociedades. Podendo ser compreendida em seu aspecto mais prático como um conjunto de técnicas para coletar dados sobre valores, hábitos, crenças, práticas, relacionamentos, ideologias e comportamentos de um grupo social em geral. Entretanto, o olhar etnográfico define não somente uma técnica, mas uma postura, que pressupõe uma concepção da realidade onde o real não se encontra predefinido. Como enfatiza Da Matta (1991), o trabalho de campo obriga a inserção na cultura, de modo a lidar com aquilo que parece estranho, exótico e não familiar para o pesquisador, podendo este, então, começar a partilhar da realidade do outro para compreender o seu ponto de vista e dar-lhe sentido.
O modo de operar da etnografia caracteriza-se pela descrição sociocultural de um determinado grupo, que assume formas de descrições verbais. Seu traço mais marcante é a investigação por dentro da realidade de um grupo, sendo o conhecimento científico gerado a partir do ponto de vista do outro. Trata-se de realizar um esforço de captar informação em fonte primária, sem intermediações, ao mesmo tempo em que põe todo o seu próprio acervo cultural como construções relativizadas, posto que os significados encontrados não podem ser visto concebidos como absolutos, mas no contexto em que acontecem: esta é a possibilidade de compreender o outro nos seus próprios valores e não nos do pesquisador.
Clifford Geertz (1989) apresenta o método etnográfico como “descrição densa”, buscando fazer uma descrição em profundidade das culturas como teias de significado e de símbolos interligados, que devem ser apreendidos, cabendo o pesquisador fazer a sua interpretação sobre essas interpretações elaboradas coletivamente. Desse modo, a subjetividade e a singularidade se inserem em um elenco de fenômenos sociais. Geertz (1989) propõe que através de um conhecimento intensivo de um universo pequeno, chega-se a estruturas conceituais que criam valores presentes nas vidas dos sujeitos
investigados. O trabalho do antropólogo é visto assim como microscópico, ocupando-se de “subculturas da cidade”, por exemplo, olhando com atenção para os detalhes, para os pequenos gestos, para a vida privada e cotidiana, reveladoras da vida social enquanto eventos políticos e econômicos.
O olhar etnográfico define não somente uma técnica, mas uma postura, uma atitude que exige não uma mera observação, mas um conviver intimamente, compartilhar experiências sociais e culturais da realidade que se investiga, partilhando da realidade do outro para compreender o seu ponto de vista. Segundo Góis (2008), o método de análise e vivência da comunidade é imprescindível para o conhecimento de um grupo social e dos seus indivíduos. A vida em comunidade implica em um modo de vida próprio, desde o qual são construídos sentidos atribuídos a realidade, modos de interagir e de construir instituições, o que permite a construção de um cotidiano dentro de uma determinada lógica social, afetiva e simbólica. O modo de vida é assim a matriz ideológica e psicológica para cada morador.
Compreendo que a postura etnográfica, como modo de conhecimento a partir dessa perspectiva de Góis (2008), deve conceber que a observação participante exige uma imersão na atividade comunitária, um compartilhar a experiência, o conviver, sendo este o lugar central da análise, da vivência e da atuação do profissional. Ressalta o autor: “É necessária a inserção tanto observacional e analítica como vivencial, com profundidade e compromisso comunitário, para junto com os moradores, definir caminhos de pesquisa e de transformação social” (GÓIS, 2008, p.152). Particularmente “a vivência nos faz entrar sensível e emocionalmente no lugar, identificar-nos com ele, levando-nos a sentir a realidade social profunda acontecendo em seu cotidiano de luta, sofrimento e esperança” (GÓIS, 2008, p.152).
Foi a partir destas referidas concepções e escolhas metodológicas que essa pesquisa foi construída, buscando ao mesmo tempo ascender às experiências singulares dos participantes, a partir dos sentidos construídos e dos seus modos de vida comunitário, não negando minhas próprias impressões e sentidos profundos daquela realidade. Assim é que a “análise’ dos dados aqui se coloca a partir dos próprios sentidos dos participantes, mas dialogando com os próprios sentidos atribuídos por mim a essa realidade.