Com a descoberta das minas do Cuiabá e de Goiás ainda na primeira metade do século XVIII, ocorreu a chegada de muitos invasores não só nas áreas de prospecção, mas, também, ao longo dos caminhos que cortavam várias regiões ocupadas por indígenas há milênios. Esse “encontro” foi marcado pela violência mútua praticada tanto pelos invasores quanto pelos indígenas, habitantes ancestrais daqueles territórios. Desde então várias imagens foram construídas sobre as diversas tribos que viviam no Sertão da Farinha Podre e, entre elas, a que mais prevaleceu foi a dos Caiapó enquanto selvagens e incivilizáveis. Uma vez que todos que não se alinharam à ordem colonial passaram a ser entendidos como inimigos das autoridades e de seus associados, os Caiapó, conhecidos pela sua tenaz resistência, integraram, junto com os negros aquilombados e salteadores, o rol dos piores inimigos da ordem vigente. Neste contexto, uma série de representações sobre os indígenas Caiapó passaram a ser produzidas. Algumas revelam preconceito e desrespeito à sua cultura, – muito comuns à época e
ainda hoje recorrentes –, outras serviram de forma dissimulada como justificativa para a
perseguição implacável sofrida por esses povos.
O termo Tapuia, empregado em oposição ao Tupí, foi habitualmente utilizado para criar distinções entre grupos indígenas.211 Os primeiros seriam compostos por “nações” irreconciliáveis e de hábitos grotescos; já os segundos, seriam aqueles que guardavam valores superiores àqueles. Pretensamente, os Tupí ocupavam um estágio mais alto dentro do conjunto de conhecimentos e comportamentos quando comparados aos Tapuia (comparações geralmente feitas por portugueses e neobrasileiros). Conhecidos como povos que habitavam áreas interioranas, os Tapuia, pertencentes ao
tronco linguístico Macro Jê, também eram mencionados como “índios de língua
travada”, sendo sua fala “incompreensível” de acordo com vários relatos.212
A distinção entre povos Tupí e Tapuia fez-se imprescindível num contexto que foi marcado pela necessidade de se obter indígenas aliados e, ao mesmo tempo, justificar ações de guerra
211
É aceito que existem dois principais troncos linguísticos entre os indígenas brasileiros, o Tupí e o Macro Jê. Para aprofundar na discussão ver: RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas brasileiras: para o
conhecimento das línguas indígenas. 4º edição, São Paulo: Loyola. 2002.
212
Ver: MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.20.
justa, sendo esta legitimadora das ações de extermínio e escravização indígena. Segundo Pedro Puntoni, “A bipolaridade Tupí-Tapuia, marca fundamental da percepção da
diversidade dos povos indígenas pelos colonizadores, estava representando o corte entre aliados e inimigos, não só no imaginário, como nos contextos concretos”.213
Contudo, não foram raras as alianças entre colonizador e indígenas do grupo Jê.
Para muitos cronistas, os Tapuia eram como animais indomesticáveis,
antropófagos e ferozes.214 Segundo Amantino, tal “...barbárie pode ser percebida
também pelo fato de os Tapuia não dominarem a agricultura e a pesca, e nem utilizarem
o fogo para cozerem seus alimentos”.215
No entanto, parece haver um equivoco no que se refere à ausência da prática da agricultura pelos Tapuia. Como já assinalamos, os Caiapó, a exemplo de outros povos Tapuia, eram conhecidos pela prática da agricultura e da produção de artefatos de cerâmica. Esta ideia equivocada tem como uma de suas maiores origens a leitura de relatos de segunda mão ou, ainda, a observação de grupos indígenas inseridos em contextos que contribuíram com a mudança acelerada de seus padrões sociais. Ora, diante da crescente presença de invasores nos territórios indígenas, muitos grupos podiam reduzir sua atividade agrícola, possibilitando maior mobilidade e, portanto, maiores vantagens nas campanhas militares. O traço volante, a incerteza dos pousos, a impossibilidade de se arrolar o real número dos Tapuia era um dos grandes desafios enfrentados pelos invasores não indígenas. Guido Thomáz Marlière, em 20 de janeiro de 1828, então Comandante Geral das Divisões Militares do Rio Doce e Diretor Geral dos Índios de Minas Gerais, relatava a dificuldade imposta pelo caráter nômade dos Botocudo ao apresentar um mapa estatístico dos aldeamentos sob seu controle.
Apontava Marlière:
Para que o meu Mappa podesse servir efficazmente a Estatística da Província seria necessário dar hum numero approximativo dos Botocudos
213
PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do Sertão Nordeste do
Brasil, 1650-1720. São Paulo: HUCITEC, Editora da Universidade de São Paulo, FAPESP, 2002. p.60-1.
214
CARDIN, Fernão. Tratado da terra e da gente do Brasil. São Paulo: Nacional, 1939. Apud AMANTINO, Márcia. O mundo das feras: os moradores do Sertão Oeste de Minas Gerais – Século XVII. São Paulo: Annablume, 2008, pp. 59-60.
215
AMANTINO, Márcia. O mundo das feras: os moradores do Sertão Oeste de Minas Gerais – Século XVII. São Paulo: Annablume, 2008, p. 60.
que afluão às Aldeãs formadas desde 1823, mais he trabalho este mais difficil do que contar os habitantes de hum formigueiro, emquanto pelo decurso do tempo, e a fixidade delles mais determinada, não poder alcançar por via dos sub-Directores, e de Instruçoens que em conseqüência lhes dirigir o rezultado dezejado, o qual Communicarei á V. Ex.ca logo que possível for. 216
Podemos notar que, para além de alguns discursos que visavam justificar ações contra indígenas que se apresentavam como empecilho aos interesses dos conquistadores, muitos relatos e a própria documentação oficial aponta para o fato de que a dicotomia Tupí x Tapuia, usada para fazer uma clivagem entre grupos indígenas diversos, vai muito além da diferenciação entre grupos étnicos falantes do Tronco Linguístico Tupí ou Macro Jê. Grosso modo, os grupos indígenas foram resumidos de duas formas: aqueles tidos como “mansos” eram considerados aliados, enquanto aqueles que resistiam à invasão de seus territórios e à sua subjugação eram tratados como
inimigos e a estes era implementada a violência e a “Guerra Justa”. Mas nem sempre os
povos Jê, não falantes do Tupí e também por isso entendidos como Tapuia, foram
inimigos dos não indígenas. Alógica de alianças – que será mais bem tratada no capítulo
quatro – era bem mais complexa e dependia de interesses, pressões e situações concretas
de ambos os lados. Não houve um grande deslocamento de indígenas Tupí para fazerem frente aos Caiapó no século XVIII. Assim como os Caiapó, os Bororo – o principal
grupo étnico que lutou contra os Caiapó nos Sertões da Farinha Podre e áreas contígua –
e outros grupos deslocados para a atual região triangulina, também eram Jê, não falantes do Tupí e, portanto, seriam eles Tapuia se considerarmos o tronco linguístico como elemento diferenciador. Contudo, nos relatos e reclamações contidos na documentação podemos notar facilmente que o emprego do termo Tapuia, vai além da diferenciação da língua, dos espaços que tais grupos ocupavam e da dicotomia índios inimigos X índios aliados. O termo Tapuia e por extensão a ideia de inimigo estava, sobretudo, associado àqueles que não integravam a lógica produtiva de um protocapitalismo em expansão
experimentado na colônia. Não bastava que os indígenas fossem “mansos” para
deixarem de ser entendidos como Tapuia e inimigos, mas, sobretudo, estes deveriam sair do caminho das frentes de devassamento e exploração de seu território levadas por
216
Mappa Fazendo conhecer os Aldeamentos das differentes Tribus da Província de Minas Geraes. Seu local, População, seu aumento ou decadência, e as causas. In: RAPM. Ano XII. 1907/1908, p. 498s.
não indígenas e, melhor ainda, deveriam abandonar sua vida tribal, auxiliando os invasores no projeto de espoliação de suas próprias terras ancestrais.
Darcy Ribeiro, escrevendo sobre o papel dos povos indígenas para a formação do povo brasileiro, citou alguns dos diversos grupos indígenas recorrentes no Brasil Central referindo-se aos mesmos como “inimigos irreconciliáveis”, cujo sistema era
muito diverso dos povos Tupí. Segundo o autor era o “... caso dos Bororo, dos Xavante,
dos Kayapó, dos Kaingang e dos Tapuia em geral”.217
Notamos certo descuido de Ribeiro ao tratar a multiplicidade dos arranjos interétnicos de forma tão simplificada. Embora estes indígenas tivessem fornecido resistência militar, também foram
observadas alianças – as vezes pouco permanentes – entre os mesmos e os não
indígenas em vários contextos, principalmente quando enfraquecidos demograficamente ou quando acreditavam ter na aliança com o “branco” uma vantagem contra tribos rivais, como fizeram os Bororo ao se aliarem aos não indígenas contra os Caiapó. Mais à frente discorria sobre como os indígenas do Grupo Caiapó passaram a figurar no imaginário colonial e, depois, do Império:
Habituados a percorrer imensas distâncias em seus deslocamentos, os Tapuia, principalmente os Kayapó, atacavam sempre inesperadamente nos lugares mais distantes, fazendo prisioneiros sempre que podiam, sobretudo meninas e mulheres que incorporavam à tribo. Essa característica os converteu no pavor dos bandeirantes e, depois, através
dos séculos, das populações sertanejas que estavam a seu alcance.218
Sertanistas, viajantes naturalistas, historiadores, antropólogos e demais indivíduos que narraram o traço selvagem dos Caiapó não são unânimes quanto à alguns hábitos destes indígenas, como a suposta prática destes em incorporar prisioneiros à tribo descrita por Darcy Ribeiro. O capitão Antônio Pires de Campos, narrando a “derrota da viagem das Minas do Cuyaba e seus recôncavos” em maio de 1723, descrevia alguns dos “gentio Barbaro” que dominavam os referidos espaços visitados
217
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2º Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 35.
218
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2º Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 111. Grifo nosso.
por ele. Entre estes indígenas estavam os Caiapó, habitantes no referido contexto das áreas acima do Rio Paranaíba e se estendendo por vastas terras com muita gente. De acordo com Pires de Campos, os Caiapó tinham como
...o seu maior exercício é serem corsários de outros gentios de várias nações e prezarem-se muito entre eles a quem mais gente há de matar, sem mais interesse que de comerem os seus mortos, por gostarem muito da carne humana, e nos assaltos que dão aqui e presas que fazem reservam os pequenos que criam para seus cativos.219
Em estudos sobre o grupo Caiapó, pesquisadores como Marcel Mano,220 Odair
Giraldin,221 Schwartzman222 e Heelas223 assinalam que o comportamento violento descrito sobre tais indígenas deve ser analisado dentro de sua própria cultura e sistema simbólico, cujas relações sociais se estruturavam numa relação oposta entre Panará (nós) e Yi’pe (outros). Os Yi’pe eram o oposto dos povos Caiapó, incluindo os não indígenas e demais entidades sobrenaturais que compunham o espaço simbólico- imagético dos Caiapó. Deste modo, não se admitia conciliações ou cativos. Sejam
219
Breve notícia que dá o Capitão Antônio Pires de Campos em 20 de maio de 1723. In: Revista do
Instituto Histórico Geográphico e Etnográfico. Tomo XXV. Rio de Janeiro: Typografia de D. Luiz dos
Santos, 1862, p. 437. Grifo nosso. 220
MANO, Marcel. Contato, guerra e paz: problemas de tempo, mito e história. Revista de Ciências Sociais, n. 34 Abril de 2011 - p.193-212. Disponível em: <http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/politicaetrabalho/article/download/12189/7054> Acesso em: 10/11/2014; MANO, Marcel. Metáforas históricas e realidades etnográficas: a construção de uma história do contato Kayapó no Triângulo Mineiro. Cadernos de Pesquisa - Cdhis, Uberlândia, v.23, n.2, jul./dez. 2010; MORI, Robert & MANO, Marcel. Do “Gentio Cayapó” a “vassalos” do rei: guerra e aldeamentos indígenas na capitania de Goiás nos séculos XVIII e XIX. In: IV Congresso Internacional de História: cultura, sociedade e poder, 2014, Jataí- GO. Anais Eletrônicos do IV Congresso Internacional de História: cultura, sociedade e poder. Jataí - GO: Universidade Federal de Goiás, 2014. v. 1. p. 1-18. Disponível em < http://www.congressohistoriajatai.org/anais2014/Link%20%28241%29.pdf> Acessado em: 20/08/2015.
221
GIRALDIN, Odair. Kayapó e Panará: luta e sobrevivência de um povo Jê no Brasil Central. São Paulo: Ed da Unicamp, 1997; GIRALDIN, Odair. Renascendo das Cinzas: um histórico da presença dos Cayapó-Panara em Goiás e no Triângulo Mineiro. Sociedade e Cultura, vol. 3, núm. 1-2, Janeiro- Dezembro, 2000, pp. 161-184. Universidade Federal de Goiás - Goiânia, Brasil.
222
SCHWARTZMAN, Stephan.The Panará of the Xingu National Park; the transformations of a society. Chicago: Chicago University, 1987.
223
HEELAS, Richard H. The social organization of the Panará, a Gê tribe of Central Brasil. Oxford: Oxford University, 1979.
mulheres ou crianças, os cativos nunca seriam integrados ao grupo Caiapó, sendo
exterminados sempre que possível.224
Ainda segundo Giraldin, os “ataques” praticados pelos Caiapó eram motivados pelo
...contato com um inimigo [...] o qual pertencia a uma categoria que era definida como hostil e, portanto deveria ser morta. Segundo, porque ao combater os ‘inimigos’, eles lhes forneciam a ‘bravura’ necessária para que os homens pudessem realizar as cerimônias de escarificação de peito e costas, e perfuração de lábios e orelhas e tornava o homem ‘bravo’ condição ideal para provocar dor nas mulheres através de relações sexuais, a partir das quais as mulheres ficariam ‘tristes’, podendo engravidar. Terceiro, os inimigos eram fontes de bens materiais, como plantas, armas, etc., bens estes que, mitologicamente foram deles apropriados. [...] Quarto, estavam também vingando seus mortos, ou as pessoas capturadas pelos ‘brancos’. Finalmente não faziam cativos dos seus inimigos porque não havia possibilidade de serem incorporados em
seus ‘SDG’ [spatial descent groups] ou ‘clãs’225
Esse traço cultural dos Caiapó serviu para legitimar a difusão de imagens, por parte dos conquistadores, de que tais indígenas eram selvagens e impiedosos. “Não conheciam a clemência, nem diante de crianças de colo ou velhos indefesos”. Para os conquistadores, era inconcebível essa forma com que os Caiapó enxergavam o mundo.226
224
Ver: JÚNIOR, Rafael Alves Pinto. O sudoeste de Goiás como espaço de fronteira: a colonização do certão do gentio Cayapó. Revista de História da UEG. Anápolis, v 4, nº 2, p. 37-61, ago/dez de 2005, p. 44.
225
GIRALDIN, Odair. Kayapó e Panará: luta e sobrevivência de um povo Jê no Brasil Central. São Paulo: Ed da Unicamp, 1997, p. 50. Ver também: MORI, Robert & MANO, Marcel. Do “Gentio Cayapó” a “vassalos” do rei: guerra e aldeamentos indígenas na capitania de Goiás nos séculos XVIII e XIX. In: IV Congresso Internacional de História: cultura, sociedade e poder, 2014, Jataí- GO. Anais Eletrônicos do IV Congresso Internacional de História: cultura, sociedade e poder. Jataí - GO: Universidade Federal de
Goiás, 2014. v. 1. p. 1-18. Disponível em <
http://www.congressohistoriajatai.org/anais2014/Link%20%28241%29.pdf> Acessado em: 20/08/2015. 226
JÚNIOR, Rafael Alves Pinto. O sudoeste de Goiás como espaço de fronteira: a colonização do certão do gentio Cayapó. Revista de História da UEG. Anápolis, v 4, nº 2, p. 37-61, ago/dez de 2005, p. 45.
... os Panará, [que para alguns pesquisadores, como Odair Giraldin,
seriam os Caiapó sul que teriam migrado para o Mato Grosso227]
semelhante aos “clãs” dos Bororos, formam grupos de residência no espaço a aldeia [denominados por Richard Hellas] spatial descent groups (SDG). Como a filiação a um spatial descent groupse dá por meio da descendência matrilinear, é inadmissível que um indivíduo de outro spatial descent group possa ser assimilada em um SDG que não seja o seu de origem. Assim, uma criança capturada não teria um lugar social no plano da aldeia, não poderia casar-se e nem ser adequadamente sepultada pois não existiriam familiares a cuidar do ritual.228
Nos “contatos” entre os Caiapó e não indígenas, ainda nos anos vinte do século XVIII, quando existia baixíssima presença destes, a concentração das ações bélicas praticadas pelos Caiapó recaia sobre outros indígenas, conforme relato de Pires de Campos que avisava: “... nas suas campinas [os Caiapó] cursam muita terra de outros gentios a quem causam muitos descommodos com as suas traições; este mesmo gentio chega a fazer damno ao rio chamado Tacoari.”229
Se considerarmos as ações que se sucederam com o aumento da presença de não indígenas, examinando as agressões contra toda e qualquer nação indígena que pudesse obstruir os interesses dos conquistadores, não é difícil entender que a violência praticada pelos Caiapó contra
outros grupos indígenas, – de acordo com o narrado por Pires de Campos –, não era
uma real preocupação das autoridades, mas sim, a exploração das potenciais vastidões de terras dominadas pelos Caiapó. Sendo assim, devemos entender as imagens construídas sobre os Caiapó dentro de contextos e lógicas institucionais específicas, que nos permitem compreender os interesses escusos sobre estes indígenas e demais grupos e, especialmente, sobre as potencialidades existentes nos locais por eles ocupados.
227
GIRALDIN, Odair. Renascendo das Cinzas: um histórico da presença dos Cayapó-Panara em Goiás e no Triângulo Mineiro. Sociedade e Cultura, vol. 3, núm. 1-2, Janeiro-Dezembro, 2000, pp. 161-184. Universidade Federal de Goiás - Goiânia, Brasil.
228
JÚNIOR, Rafael Alves Pinto. O sudoeste de Goiás como espaço de fronteira: a colonização do certão do gentio Cayapó. Revista de História da UEG. Anápolis, v 4, nº 2, p. 37-61, ago/dez de 2005, p. 45. 229
Breve notícia que dá o Capitão Antônio Pires de Campos em 20 de maio de 1723. In: Revista do
Instituto Histórico Geográphico e Etnográfico. Tomo XXV. Rio de Janeiro: Typografia de D. Luiz dos
Santos, 1862, p. 438. Embora o termo Tacoari ou Taquari, que na língua Tupí faz referência a bambu, nomeie vários rios brasileiros, Antônio Pires de Campos refere-se ao rio localizado na região que hoje compreende a Serra do Caiapó, na divisa entre os Estados do Mato Grosso do Sul e Goiás. Na ótica do indígena eram os invasores que estariam a fazer danos nas imediações do rio Tacoari, uma vez que tais paragens eram há muito habitadas por grupos indígenas, principalmente os Caiapó e os Bororo. RAVAGNANI, Oswaldo Martins. Os primeiros Aldeamentos na Província de Goiás: Bororó e Kayapó na Estrada do Anhanguera. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 1996, v. 39 nº 1, p. 226.
O Professor Marcel Mano, estudando as relações sociocosmológicas do grupo Caiapó, assinala as mudanças ocorridas no grupo referente às suas formas de contato com o mundo exterior. Para Mano, se no século XVIII, a relação preferencial de contato Caiapó com o mundo exterior era a guerra, na qual poderiam obter bens simbólicos e materiais de seus inimigos, persistindo “... ainda o tempo mítico, reversível, reiterativo, atemporal porque o presente reeditava o passado, as ações dos homens reeditavam as de
seus heróis fundadores”; já, no século XIX, com a intensificação da presença de não
indígenas e o maior contato interétnico, as relações com o mundo exterior transformam- se profundamente. Segundo Mano, “com o desenvolvimento do contato interétnico, os Kayapó desenvolveram novas formas de percepção, classificação e ação que já não reproduziam as façanhas de seus heróis mitológicos.”230
Mano ainda chama atenção para o fato de que essa mudança de estratégia marca um momento de ruptura histórica para o povo Caiapó que, antes agiam como seus heróis mitológicos e, a partir do século XIX, agem de acordo com um “novo tempo”.
Este estudo do professor Marcel Mano é importante para demonstrar como os indígenas agiam de forma flexível e condizente com a realidade que a eles se apresentava. Não obstante, uma característica parece ser comum ao grupo Caiapó e outros grupos indígenas também descritos nas fontes históricas como irredutíveis, como os Botocudo231 e Purí,232 do Leste de Minas Gerais e Espírito Santo, quanto ao momento em que eles diminuem suas ações de resistência e cedem às aproximações com os não indígenas: sua grande redução numérica e conseguinte diminuição do poderio bélico.
230
MANO, Marcel. Contato, guerra e paz: problemas de tempo, mito e história. Revista de Ciências Sociais, n. 34 Abril de 2011 - p.193-212. Disponível em: <http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/politicaetrabalho/article/download/12189/7054> Acesso em: 10/11/2014, pp. 202-203.
231
O nome Botocudo atribuído pelos portugueses em função de esses indígenas usarem botoques labiais e auriculares, generalizou-se, passando a designar vários grupos indígenas do tronco Macro-Jê que eram bravios e relutantes à associação com os não indígenas.
232
O termo Purí tem sua origem na língua Coroado e quer dizer “audaz ou bandido”. Curiosamente os Coroado também eram assim chamados pelos Purí, que, desse modo, lhes retribuíam a ofensa. DEBRET, Jean. Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo: Edusp, 1978, p. 69. Em ambos os casos, tanto para os Botocudo quanto para os Purí, tais nomes não guardam nenhuma correspondência