Quanto aos diversos grupos indígenas que habitavam os sertões, estes povos, mesmo tendo várias de suas técnicas e habilidades indispensáveis à fixação nas regiões interioranas incorporadas pelos não indígenas, raramente tiveram reconhecida a sua contribuição.160 Como veremos, os indígenas hora eram obstáculo, hora eram parte
157
Ver: ARRUDA, Gilmar. Cidades e Sertões: entre história e a memória. (Coleção História), Bauru: Edusc, 2000.
158
ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig Von. Brasil, Novo Mundo. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1996, p. 106.
159
AMANTINO, Márcia. O sertão oeste em Minas Gerais: um espaço rebelde. Varia História, nº29, janeiro de 2003, p. 80.
160
Um dos primeiros autores a tratar da importância da contribuição indígena de forma mais profunda foi Sérgio Buarque de Holanda. Para ele os indígenas ocuparam um importante papel no processo de devassamento do interior do “nosso Oeste”, forçando os conquistadores a novos padrões de ocupação. Em Caminhos e Fronteiras Holanda trata da adequação do povo ibérico às necessidades do novo continente. Segundo ele, a conquista do Oeste brasileiro só poderia ser efetivada mediante adaptação do europeu aos modos indígenas, com a caça, a pesca, a coleta, as técnicas de navegação e, sobretudo, à incorporação das armas indígenas. O autor dá grande importância à análise dos espaços interioranos, cuja variedade de ocupação pode propiciar a averiguação dos mais interessantes arranjos sociais. Dentre esses,
importante das ações de conquista de vastas regiões do interior brasileiro. Como já mencionamos, uma vez que diversos grupos indígenas eram entendidos como bárbaros e alguns até incivilizáveis, na ótica dos invasores, eles não eram vistos como habitantes e, muito menos, poderiam ser povoadores dos sertões, pelo menos até que se alinhassem com a lógica de exploração das autoridades coloniais e depois do desenvolvimentismo buscado no período do império. Os indígenas em não raras vezes eram vistos como não humanos, sobretudo, aqueles que não cooperaram com os projetos de exploração vigente, seja com sua força de trabalho ou com o abandono de suas terras ancestrais, deixando-as livres para os conquistadores.
Encontramos múltiplas definições para o termo sertão de acordo com momentos históricos distintos. Em termos geográficos, o sertão esteve associado à região opostas ao litoral, mas sem uma clara indicação de onde começava ou terminava, ficando relacionado às áreas interioranas.161 Para Gilmar Arruda, “... o sertão tinha uma determinada localização geográfica e uma direção, quanto mais ao oeste, mais sertão seria, mais fundo era...”.162
Mas o sertão nem sempre esteve a oeste da marcha que levava o seu devassamento. Áreas pouco esquadrinhadas que receberam a alcunha de sertão foram alvo de ondas migratórias que partiam no sentido oeste-leste, portanto, os migrantes distanciavam-se do interior rumo aos terrenos mais próximos do litoral. Foi o caso dos mencionados Sertões Proibidos, ou ainda, Áreas Proibidas. Luis da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais, usou o termo sertão para designar a região intermediária a esta capitania e ao Espírito Santo, mencionando a utilidade dessa área como proteção contra a ação de contrabandistas. Segundo Cunha Meneses, “... sertão para a parte de Leste, denominado Áreas Proibidas, na hipótese de servirem os ditos sertões de uma barreira natural a esta capitania para segurança de sua fraude...”163
Tais áreas foram a resistência e associação entre povos indígenas e os neobrasileiros. Ver: HOLANDA, Sergio Buarque de.
Caminhos e Fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
161
AMANTINO, Márcia. O mundo das feras: os moradores do Sertão Oeste de Minas Gerais – Século XVII. São Paulo: Annablume, 2008, p. 28.
162
ARRUDA, Gilmar. Cidades e Sertões: entre história e a memória. (Coleção História), Bauru: Edusc, 2000, p. 226.
163
Hélio Viana, A Economia Mineira no Século XVIII, Primeiro Seminário de Estudos Mineiros, Belo Horizonte, 1957, pág. 81. Apud MERCADANTE, Paulo. Os sertões do Leste – estudo de uma região: a
ocupadas a partir de fins do século XVIII com o deslocamento, sobretudo, de ex- mineradores que buscavam novas formas de se estabelecer com a queda da produção aurífera nos núcleos mineradores de Ouro Preto e região.164
Os sertões do Oeste, que compreenderam porções do território mineiro, goiano, mato-grossense e paulista, estiveram por um longo período, relacionados à ideia de deserto, isolamento e atraso. Cabia aos cientistas europeus traçar os caminhos que
levariam tais regiões ao desenvolvimento e progresso por meio da utilização racional –
de acordo com a lógica de exploração nos moldes de um protocapitalismo em
desenvolvimento – dos recursos e potencialidades das regiões interioranas. O Brasil do
século XIX, marcado pela propagação de ideias como progresso, civilização, cultura e letramento, foi palco de propagação de ideais eurocentristas. Nesse contexto os viajantes naturalistas, certos que estavam a ocupar um lugar privilegiado, de portar “valores tão vitais para o desenvolvimento de uma nação”, acreditavam contribuir com as diretrizes necessárias para o melhor aproveitamento das áreas de sertão. Já os indígenas que viviam nos sertões eram preciosos para os viajantes naturalistas.
Preciosos não por possuírem valores elevados, – segundo os observadores europeus –,
mas sim, preciosos como espécimes a serem analisadas.165
Se os indígenas que não se alinhavam com as ações dos invasores eram
entendidos como selvagens e não mereciam a alcunha de habitante, – como os Caiapó
que ali viviam antes da chegada dos não indígenas – outros grupos que se associaram
164 Os Sertões do Leste ou Mata mineira foram usados como “uma barreira natural” contra os descaminhos do ouro e diamantes que poderiam ser facilmente levados até o litoral. Com a queda da produção aurífera essas paragens passaram a despertar grande interesse na Coroa no sentido de promover a ocupação e exploração sistemática do local. O que se observou em seguida foi um grande choque envolvendo não indígenas oriundos da região mineradora e um mosaico de povos indígenas dos Sertões do Leste. Ver: MERCADANTE, Paulo. Os sertões do Leste – estudo de uma região: a mata mineira. Rio de Janeiro: Zahar, 1973; VENÂNCIO, Renato Pinto. Os últimos Carijós: escravidão indígena em Minas
Gerais: 1711-1725. Revista Brasileira de História, Vol. 17, no 34, São Paulo: 1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102- 01881997000200009&script=sci_arttext> Acessado em: 23/02/2014; LANGFUR, Hal. The “Prohibited Lands”: conquest, contraband, and indian resistance in
Minas Gerais, Brazil, 1760-1808. University of Texas; Prepared for delivery at the 1998 meeting of the
Latin American Studies Association, The Palmer House Hilton Hotel, Chicago, Illinois, September 24-26, 1998, p. 4 et seq. Disponível em: http://lasa.international.pitt.edu/LASA98/Langfur.pdf Acesso em: 05/10/2013.
165Ver: MARTIUS, Carl F.P. Von. “Como se deve Escrever a História do Brasil” in: O Estado de Direito
entre os Autóctones do Brasil. Belo Horizonte, Itatiaia/EDUSP, 1982, p. 88; Os viajantes detinham
grande interesse em observar grupos indígenas. Contudo, na maioria das vezes, estabeleceram contato com grupos já em franco processo de destribalização, posto que, os indígenas em “estado natural” poderiam despertar mais medo que curiosidade. São comuns os relatos de viajantes sobre os índios que os comparam com feras e assinalam sua inferioridade em relação ao europeu.
aos “brancos” na campanha de “domesticação” da região engrossaram a demografia local e integraram a sociedade conquistadora que ali se firmava, obtendo o status de habitante. Ao menos é o que apontam os registros eclesiásticos consultados. Após sucessivos deslocamentos, muitos indígenas que passaram a habitar as áreas dos Sertões da Farinha Podre converteram-se ao cristianismo e à algumas praticas econômicas e sociais dos invasores. Com a contínua retração das áreas vitais para o desenvolvimento
das atividades nos modos pré-cabralinos, – como a caça, a pesca, a coleta e em alguns
casos a agricultura –, os indígenas tiveram que buscar novas formas de sobrevivência.
Como veremos, abandonar os costumes indígenas não era uma escolha fácil ou um ato de fraqueza frente à ação dos não indígenas. Em muitas situações, tratava-se de um ato de resistência.
Os Sertões da Farinha Podre estavam distanciados dos centros de decisão política, é certo. Estavam a oeste das autoridades, mas nem sempre a oeste das ações daqueles que lá se instalaram e interferiram diretamente nos rumos da história da região. Essa ideia de uma marcha que ruma do leste para o oeste levando desenvolvimento às áreas selvagens contribui para a legitimação do discurso que atribui maiores valores à população do litoral em oposição ao sertanejo. Contribui, ainda, com o mito difundido no período republicano cuja figura do paulista esta associada a seres indômitos, a
conquistadores e “formadores do território da nação”.166
Tal ideia mascara as múltiplas identidades dos atores envolvidos em um processo histórico que vai muito além da questão de “ocupação” e “desenvolvimento” de uma região por não indígenas; e que antes, deve tratar de invasões, resistências, alianças e, sobretudo reconhecer a contribuição de todos os agentes históricos envolvidos.