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Byggherre fra Optibo

Vimos que por ocasião da entrega da Carta Pública (vide Anexo “A”) para os representantes da Câmara e do Senado, que o debate sobre raça, racismo e antirracismo ampliou-se em comparação ao seu início no final dos anos 1990 quando as primeiras iniciativas de ação afirmativa começaram a ser implementadas no país. Após a entrega deste documento, formou-se uma ampla frente contrária ao prognóstico apresentado pelo movimento negro. Os debates ocorreram nas universidades, nos meios de comunicação e, sobretudo, nas sessões e audiências públicas promovidas pelo Estado brasileiro a fim de subsidiar as decisões que seriam tomadas em termos legais e institucionais. Para ambos os lados, o debate foi

proveitoso na medida em que possibilitou esclarecer para a população brasileira qual era o teor das propostas e quais poderiam ser suas implicações. Neste contexto, as posições antagônicas ficaram bastante claras e me levaram a considerar o pressuposto (vide 1.1) de que haveria uma disputa de frames entre os grupos envolvidos no debate.

Uma consequência importante desta disputa foi a formação de identidades

constrastivas entre as partes. Ou seja, formou-se uma espécie de “nós” e “eles”, de

modo que para o movimento negro o “eles” eram todos aqueles que se colocavam ou se manifestavam contra a política de cotas e ao estatuto da igualdade racial. Logo, para estes grupos contrários, o “eles” resumia-se ao movimento negro. No intuito de fortalecer seus argumentos, ambos os lados buscaram ampliar suas posições conectando-as a pesquisas, notícias, depoimentos e leis internacionais. Ao final, vimos que o movimento negro sai da disputa com um estatuto modificado em suas pretensões mais diaspóricas e os grupos contrários a ele, com uma perspectiva renovada quanto ao Brasil vir a ser de fato uma democracia racial.

Este interesse renovado aparece tanto no plano intelectual – nacional e internacional – como no plano político. Na campo intelectual brasileiro, aparece com as novas avaliações da obra de Gilberto Freyre. Segundo Lehmann (2008), estas avaliações se debruçam sobre os principais temas tratados pelo autor, porém, longe do tom nostálgico de se recuperar o autor como se ele próprio fosse um patrimônio nacional, as análises buscam ir bem além dos estereótipos geralmente atribuídos ao livro Casa Grande & Senzala (primeira obra da trilogia que segue com Sobrados e

Mucambos em 1936 e Ordem e Progresso em 1959) e tratam de compreender autor

e a sua obra de forma contextualizada, assumindo-o como multifacetado e atrelado a uma trajetória intelectual alinhada a tendências teóricas que “[...] estavam fora do alcance físico e até mesmo intelectual dos contemporâneos de Freyre” (Lehmann, 2008, p.370). Trabalhos como os de Araújo (1994), Pallares-Burke (2006) e Larreta e Giucci (2007), cumprem o papel de mostrar estas nuanças e explorar novas interpretações da obra de Freyre, fugindo das posições simplistas que normalmente atribuem certo maniqueísmo colonial as reflexões do autor.

Em paralelo a este interesse brasileiro, porém não totalmente descolado dele (afinal, desde o projeto Unesco já é conhecida a inserção das teses de Gilberto Freyre pelo mundo), cresce nos Estados Unidos e na Europa o interesse principalmente pelo tema da mestiçagem em virtude da globalização que os levou a

vivenciar uma nova realidade de migrações e de contato entre diferentes grupos étnicos. Em geral a mestiçagem aparece nas discussões sobre hibridismo, que por sua vez tem se associado ao campo de estudos pós-coloniais, que tem no trabalho do indiano Homi Bhabha (1994) seu principal interlocutor.

A principal contribuição desse autor reside nos espaços de enunciação que não sejam definidos por binarismos como oriente/ocidente, dentro/fora, masculino/feminino, negro/branco, nacional/internacional, mas que se situem entre as divisões, no entremeio das fronteiras que definem qualquer identidade coletiva. Esse lugar intermediário, Bhabha (1994) vai denominar de third space ou in

between, elegendo-os como o instante da hibridização. Neste instante híbrido o

sujeito não possui uma identidade pré-fornecida por uma essência étnica ou cultural, ele se define de maneira provisória, circunstancial e negociada entre as possibilidades inesgotáveis de significação. Em sua versão latina, mais especificamente no âmbito dos Chicano Studies, destaca-se o trabalho da feminista Glória Anzaldúa (1987), que desenvolve a noção de La frontera para representar os limites construídos pelo binarismo ocidental, cujas fronteiras isolam e excluem determinadas subjetividades (raciais, sexuais, de gênero, de classe, etc.) tornando- as marginais. Transgredir estas fronteiras, segundo a autora, conduz a um “lugar do meio”, onde emerge o que ela denomina de consciência mestiça, a partir do qual o sujeito se liberta da violência gerada pelo binarismo ocidental. Com efeito, a consciência mestiça possibilita que haja “[...] um desenraizamento massivo do pensamento dualista, [pois] a consciência individual e coletiva é o começo de uma longa luta, mas que poderia, em nossas melhores esperanças, levar-nos ao fim do estupro, da violência, da guerra” (Anzaldúa, 1987, p.81).

No plano político, esta consciência mestiça emerge nos Estados Unidos a partir dos anos 1970 quando ocorre um aumento do número de casamentos inter- raciais e o consequente aumento do número de crianças mestiças (mixed race). Este novo segmento começa a questionar o sistema binário de classificação (cf. Spickard, 1992) e a reivindicar o direito de escolher livremente sua identidade étnica sem ser constrangido pela one drop rule (cf. Rockquemore & Arend, 2002). Isso tem produzido movimentos sociais de caráter multirracial que nas últimas duas décadas tem se organizado para modificar as informações do censo americano e incluir a população mestiça como categoria autônoma, desvinculada do antigo sistema de classificação black/white (cf. Spencer, 1997). A ação de OMS como a

Association of MultiEthnic Americans (AMEA)74, tem pressionado o governo americano a adotar mudanças neste sentido. Entretanto, estas OMS tem enfrentado resistências por parte dos negros, que encaram esta atitude como prejudicial a luta negra porque divide a “comunidade negra” tornando-a menor e mais fraca. Por parte dos brancos, há uma resistência em mudar o status quo por meio de uma quebra na

one drop rule, criada pelos próprios brancos para manter os negros e seus

descendentes na subalternidade (cf. Lee & Bean, 2004). O curioso disso é que ao mesmo tempo em que o governo brasileiro tem sido pressionado para criar um sistema de classificação racial bipolar igual aos EUA, este tem sido pressionado para criar uma sistema igual ao nosso...

Diante das possibilidades teóricas e práticas que se abrem a partir destes três pontos, a idéia de se ter na raça um frame válido para organizar a experiência humana, começa e ser vista como uma proposta datada. Principalmente quando olhamos para a agonia dos Estados Unidos em tentar se redefinir como nação multiculturalista que tenha de fato múltiplas culturas. Neste sentido, as releituras da obra de Gilberto Freyre, aliadas ao pensamento mestiço que emerge em oposição ao pensamento binário – que há muito vem sendo denunciado pela epistemologia pós-colonial – e contrariado pelas experiências concretas de hibridismo na América, traçam um novo horizonte nas relações raciais e nas metáforas que colocam a raça ponto de partida para construção de identidades coletivas. Com efeito, a própria metáfora do Atlântico Negro se mostra incompleta por não acolher estes novos movimentos que aos poucos vão se impondo.

5.4.3 Do Encontro das Águas ao Atlântico Negro: metáforas para pensar os