Definido o diagnóstico e o prognóstico, o movimento social precisa agora convencer seus militantes a se engajarem na pela concretização deles. Trata-se de
motivá-los a lutar pela causa do movimento. Quando o movimento negro brasileiro
redefine sua plataforma de lutas após a sua refundação, em 1978, redefiniu-se também os frames de ação coletiva que sustentam os diagnóstico e prognóstico apresentados. O que acabou gerando disputas internas entre as organizações negras que não se alinhavam plenamente com este novo perfil. Além disso, havia de se considerar como este novo perfil de propostas seria recebido fora do movimento. Ou seja, qual seria a ressonância daquele novo movimento negro.
Estes dois processos tem seu marco a partir da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), cuja pretensão era de alinhar as diversas organizações negras em uma plataforma comum. Formando uma ampla frente de luta pela igualdade racial que fosse mais efetiva que as suas versões anteriores.
O MNU traz um nível de politização maior para o debate racial e situa o movimento negro em uma perspectiva mais de esquerda, que eu acho que foi a influência fundamental de toda a militância da minha geração. Acho que o fato político mais importante do movimento negro contemporâneo foi aquele 7 de julho de 1978, porque tudo o que ocorre depois se referencia a esse ato inaugural de refundação, digamos, do movimento negro contemporâneo. Muitas das organizações que existem hoje são releituras das teses que existiam, porque a visão estratégica que foi colocada naquele momento orienta até hoje. Não foi criada uma outra grande tese tão abrangente quanto a que o MNU traz e provavelmente é possível dizer que ela teve e tem uma influência política maior do que a do próprio MNU enquanto instituição. No tempo, as teses acabaram sobrevivendo mais do que a própria instituição tal como foi concebida originalmente.
(Sueli Carneiro, 2007, pp.148-149)
A “grande tese”, citada por Sueli Carneiro, caracteriza-se pelo alinhamento do MNU com os conteúdos difundidos pelo Atlântico Negro. Segundo Covin (2006), a visão estratégica colocada pelo MNU se orienta pelos princípios do pan-africanismo e pelo afrocentrismo. Entre os quais a preservação das raças por meio do pensamento racialista. O próprio MNU, durante o III Congresso Nacional realizado em abril de 1982, ao criticar o mito da democracia racial e seus efeitos, declara: “Muitos de nós acreditam que a ‘miscigenação’ tem sido um meio de impedir a discriminação racial e o preconceito – pois os casamentos entre brancos e negros geram ‘mulatos’ e ‘morenos’ – esvaziando os dois polos extremos: negros e brancos” (Movimento Negro Unificado, 1988, p.20) e, a partir disso, conclui que
“para nós do Movimento Negro Unificado, os negros, e seus descendentes constitui em uma só raça e um único povo” (Movimento Negro Unificado, 1988, p.24).
Contudo, ao adotar esta “grande tese”, o MNU se afasta da luta de classes e coloca a raça como elemento de articulação autônomo. Ainda que orientado por um olhar de esquerda, como era comum aos movimentos sociais nos anos 1970 e 1980, o MNU não podia ser considerado como um movimento de esquerda clássico. Com efeito, este “racialismo de esquerda” (cf. Risério, 2007)59 aliado ao perfil universitário da militância, dificultava a aceitação de suas propostas por uma fatia significativa da militância, ainda motivada por outras teses.
Eu não me sentia motivada pelo MNU. Achava o pessoal sectário, dentro da minha visão marxista, que nunca abandonei – é interessante, porque eu lido com a questão racial sem ter abandonado também o paradigma de classe, nunca joguei o velho Marx e companhia no lixo. [...] Uma outra razão também pela qual não quis entrar no MNU é porque eu sonhava com uma entidade que fosse realmente de base, que alfabetizasse os negros analfabetos, porque eu tinha vindo de uma família extremamente pobre e, além disso, tinha o compromisso social colocado pela igreja, pelo Partidão. Então, não era fazer a pregação racial, digamos, para um público escolarizado. Porque eu sabia inclusive que era um público extremamente limitado.
(Diva Moreira, 2007, p.271-272)
Se de um lado, o vínculo com a base, com as massas negras, continua sendo um ponto de interrogação na tese defendida pelo MNU e pelas organizações negras que vieram depois dele. De outro, o compromisso com a transformação da realidade via revolução – típico da tese marxista – foi redefinido nos termos daquela “grande tese” do MNU. Ou seja, gradualmente construiu-se um consenso entre os militantes de que as ações afirmativas também seriam uma forma de revolução. O que possibilitou uma aderência mais ampla, conforme narra o relato a seguir.
Foi uma maturação muito lenta e também muito dolorosa. Porque em vários momentos estava em questão se a adesão a um tipo de reivindicação como essa significaria ou não uma rendição ideológica: nós, que amávamos tanto a revolução, agora estaríamos, digamos assim, contentes com a possibilidade de partilhar o bolo sem transformação social. Até que alguém disse que nós estávamos fazendo uma extraordinária transformação social das relações do cotidiano, das relações dos microespaços de poder. E a própria questão do empoderamento da população negra e a coisa mais altiva, mais ousada na política, nas relações intersubjetivas. Alguém precisou dizer que a gente
59
Antonio Risério (2007), em sua análise sobre a trajetória do movimento negro brasileiro, destaca que recentemente houve uma transição do que ele chama de racialismo de esquerda – focado na raça, mas preocupado com a transformação da sociedade – para um racialismo de resultados – ainda focado na raça, mas sem a preocupação de transformar o sistema. Ao contrário, busca-se preservá-lo e, por meio das ações afirmativas, integrar os negros à sua lógica. Voltarei a este ponto no capítulo cinco.
estava fazendo a revolução, que cotas no Brasil é revolução. E a história está mostrando que é revolução. Possivelmente na República não houve um tema que tenha mobilizado tanta energia quanto a questão das cotas, a favor e contra. Então a gente começou a pensar que era legal, que era uma revolução.
(Hédio Silva Júnior, 2007, p.397)
Além de reconhecer que houve um agenciamento mais amplo da militância negra, a narrativa acima nos mostra também que a proposta de implementar políticas de ação afirmativa tiveram ressonância fora do movimento negro. Ou seja, alcançaram o debate público. No entanto, foi a partir de Durban que este debate se consolidaria na agenda dos grandes temas nacionais. Com destaque da imprensa para a proposta das cotas.
Quando o governo brasileiro tornou público o relatório [de Durban] para a mídia, tudo o que a mídia queria falar era sobre cotas para negros na universidade. E aí, antes de ir para Durban, quando já foi anunciado que o meu nome ia ser identificado, o pessoal da imprensa vinha falar comigo e só queria falar sobre cotas. Aí eu falei: “Nós somos 45% da população brasileira; enquanto não formos 45% de todos os espaços que tem nessa sociedade, estão nos devendo.” Então coloquei o patamar, o referencial, os 45%. Na sequência, vejo a lei que o deputado aqui do Rio de Janeiro apresentou; inicialmente a proposta dele era 40% para negros. Então, o patamar de que se partiu nas políticas públicas aqui no Brasil foram os 40%. São momentos em que você tem a oportunidade de contribuir para que uma determinada política seja formulada ou implementada, e isso é que eu acho que faz o jogo interessante, essa possibilidade.
(Edna Roland, 2007, p.391)
O patamar sugerido por Edna Roland refere-se ao diagnóstico sobre os negros no Brasil que, por sua vez, refere-se ao princípio da hipodescendência que norteia o modelo de classificação racial proposto pelo movimento negro brasileiro e utilizado atualmente pelas estatísticas oficiais. O interesse da mídia pela participação do Brasil em Durban, como ressalta Roland, abre espaço para que as articulações internas do movimento alcancem o grande público e que percentuais como este, de 45%, sejam introduzidos no debate. Ao colocarem a questão racial neste patamar e reivindicar direitos a partir dele, o movimento negro passa a exigir praticamente metade do “bolo de oportunidades”, o que invariavelmente altera a lógica de competição social historicamente dominada pelos brancos. Isso faz com que os brancos entrem no debate para contestar o prognóstico apresentado.
Acho que o debate sobre ação afirmativa tem coisas interessantes: ele tira a branquitude do armário. Hoje há uma reação branca à ação afirmativa no Brasil. A branquitude – como um movimento político absolutamente
articulado, organizado, que gere a economia, a política e as comunicações desse país com tranquilidade – vai botando as manguinhas de fora, digamos assim. Isso aparentemente tensiona mais as relações, porque até hoje quem foi para o microfone, quem foi para o debate público, foi a negritude – se eu for pensar a negritude como a antítese da branquitude. Agora, não; agora, o branco foi chamado para o debate público para ele dizer o que ele pensa das relações raciais. Está sendo forçado, na verdade, porque o debate sobre ação afirmativa força o branco a se manifestar.
(Hédio Silva Júnior, 2007, p.470)
Com efeito, o movimento negro consegue realizar o que ele sempre desejou desde a época da Frente Negra Brasileira (FNB), nos anos 30, que era promover um debate nacional sobre relações raciais no Brasil.
Agora, é claro que a cota também provocou um debate, que é: o que é ser negro no Brasil? É meio intuitivo isso que estou falando, mas a visão sobre o racismo no Brasil está mudando. Eu acho que a geração que vem aí já vem com uma outra concepção, diferente dessa geração de que eu fiz parte, que foi mais um momento de afirmação da luta negra. A gente entra agora numa outra etapa, que é: o que a gente entende por ser negro no Brasil? O que a gente entende por racismo no Brasil e no mundo? Porque Durban também influenciou muito essa nossa geração.
(Flávio Jorge Rodrigues da Silva, 2007, p.409)
Quando os brancos entram na discussão questionando as propostas do movimento negro, abre-se uma importante oportunidade para que os detalhes do diagnóstico e prognóstico sejam discutidos, ampliando sua compreensão junto aos diversos setores da sociedade. O risco desta ressonância é que ao mesmo tempo em que se discute os detalhes, discute-se também os defeitos da proposta, minando as pretensões do movimento em face dos argumentos contrários a proposta. De qualquer forma, o movimento negro ganha visibilidade neste processo e o tema das relações raciais passa a compor a agenda nacional.