3. Metode
3.2 Innsamling av data
Ao analisarmos o conjunto de narrativas elaboradas pelos não-racialistas sobre o prognóstico apresentado pelo movimento negro brasileiro, podemos notar que basicamente elas convergem no sentido de não reconhecerem o frame racialista como uma esquema de interpretação válido para a explicar a dinâmica das relações raciais no Brasil. Os argumentos vão desde a falta de sensibilidade em relação ao nosso modo de convivência, passando pela extinção do mestiço e pela manipulação estatística, até a exagerada alegação de que o nosso racismo seja pior do que o dos Estados Unidos pelo fato de ser disfarçado. Do ponto de vista analítico, o que estas posições mostram é que ao buscar sua ressonância no âmbito da sociedade brasileira, com o objetivo de ampliar sua base de apoio ao prognóstico apresentado, o frame racialista deixa de atender a alguns requisitos que garantem o sucesso da ressonância de frames e, por causa disso, tem sido duramente contestados e, pior ainda, colocados sob suspeita quanto a sua legitimidade.
Conforme vimos no capítulo dois (vide 2.2.2), a ressonância de frames tem por objetivo ampliar o diagnóstico e o prognóstico do movimento social para fora das suas fronteiras e, com isso, ampliar sua base de apoio e/ou sua rede de colaboração de maneira que possam tornar suas propostas viáveis no ambiente em que estão inseridos. Para Snow e Benford (1992) o sucesso desta ressonância segue alguns requisitos que, ao serem atendidos, facilitam a inserção do movimento na agenda pública, bem como aumenta a possibilidade de terem suas demandas atendidas.
Quando tomamos para análise o caso do movimento negro brasileiro dentro desta perspectiva, é possível observar que alguns requisitos não são atendidos, o que pode ser interpretado como uma das principais barreiras ao processo de internalização do framing global formado pelo transnacionalismo negro.
O primeiro requisito para o sucesso da ressonância de frames é que eles
sejam coerentes. Ou seja, deve haver uma lógica interna que articule o diagnóstico
ao prognóstico e ao conjunto de valores que perpassam a ação e organização do movimento social. No caso do movimento negro, quando observamos que seu diagnóstico articula a categoria “negro”, entendendo esta categoria nos termos da
one drop rule, que soma pretos e pardos, ao prognóstico das ações afirmativas,
entendendo estas como políticas de diferença que visam incluir os negros como grupo, e que tanto o diagnóstico como o prognóstico estão alinhados ao framing global formado a partir dos conteúdos difundidos pelo Atlântico Negro, então podemos dizer que neste ponto o movimento negro é coerente, portanto, tem legitimidade ao apresentar seu frame nestes termos.
Quando avaliamos sua credibilidade empírica, que mostra se um frame faz sentido ou não dentro da visão de mundo compartilhada por uma dada sociedade, o movimento negro não atende a este requisito. Conforme vimos anteriormente, a proposta de pensar a identidade racial a partir do sujeito afro-brasileiro não faz sentido dentro da visão de mundo brasileira em virtude de ela estar atrelada ao caráter assimilacionista do sistema colonial português. Portanto, pensar o negro brasileiro como um sujeito descentrado pela origem africana e brasileira, não se aplica a visão comum de todos negros como sendo, acima de tudo, brasileiros. Embora a ruptura com esta visão faça parte da luta histórica do movimento negro brasileiro e que nas últimas décadas ela tenha avançado muito sobre alguns setores da sociedade, não podemos considerar que houve uma mudança nesta realidade. Ainda mais quando considerarmos o efeito concreto da visão dominante na desracialização do projeto original do estatuto da igualdade racial.
Quanto à credibilidade dos promotores do frame racialista, ou seja, o poder de convencimento das pessoas que se colocam a divulgar este frame junto a sociedade, podemos dizer que o movimento negro tem relativo sucesso neste requisito. Digo relativo porque ele conta com o apoio de diferentes setores da sociedade, pois os mesmos setores que se opõem, também são aqueles que os apoiam através de outros agentes que concordam com o prognóstico apresentado.
Na academia, há representantes como Carlos Hasenbalg, Antônio Sérgio Guimarães e Kabengele Munanga, que gozam de grande prestígio intelectual e por isso têm credibilidade ao falarem a favor do movimento negro; na sociedade civil contam com o apoio de artistas como Milton Gonçalves, Gilberto Gil e Lázaro Ramos, que são personalidades conhecidas em todo país; no governo, contam com o precioso apoio do presidente Lula no poder executivo, do Senador Paulo Paim no legislativo e do Ministro Joaquim Barbosa no judiciário, atores políticos que ocupam posições importantes nas três esferas de governo; e, finalmente, contam com o apoio da cooperação internacional por meio das fundações americanas que naturalmente apoiam as ações afirmativas e da própria ONU com seus tratados internacionais que legitimam estas ações. Todos estes atores, individuais e organizacionais, ao se manifestarem a favor das ações afirmativas, no formato que foram delineadas pelo movimento negro, aumentam a credibilidade do frame racialista, o que tende a melhorar substancialmente sua ressonância junto à sociedade.
No que se refere a comensurabilidade experiencial, que é quando um frame pode ser vivenciado na experiência cotidiana daquela sociedade, podemos dizer que o movimento negro também não cumpre este requisito pelos mesmos motivos da credibilidade empírica. Ainda que os militantes negros e uma parcela da população negra não-militante consigam organizar sua experiência cotidiana a partir da raça negra, por já terem desenvolvido sua dupla-consciência, os estudos no campo das relações raciais mostram que esta condição tem até evoluído entre uma geração e outra de negros (cf. Sansone, 1993), mas continua sendo pouco estruturante no nosso modo de encarar as relações sociais (cf. Fry, 1996, 2005a; Maggie, 2006a). E isso serve também para avaliarmos o próximo requisito, que é o da centralidade
do frame, ou seja, quando um frame traz consigo valores e crenças que são
essenciais na vida de uma sociedade. Se para os americanos a raça é um fator essencial nas escolhas individuais (e.g. linguagem, moda, música, relações afetivas e matrimônio) e coletivas (e.g. gangs, esportes, política e religião), no Brasil estas escolhas se dão muito mais por aspectos relacionais que envolvem níveis de parentesco, afiliação política e grupos de referência (cf. DaMatta, 1979).
O último requisito a ser considerado para se avaliar a ressonância de um
frame é a sua fidelidade narrativa. Conforme argumentei no capítulo dois (vide 2.4), frames e narrativas estão ligados pela sua dimensão textual, que é a materialização
mitos, estórias e pressupostos básicos. Considerando que o frame racialista tem como referente o Atlântico Negro, então suas narrativas se formam a partir dos elementos significativos da diáspora negra, portanto são fiéis ao transnacionalismo negro e não ao contexto brasileiro.
Fazendo um balanço da ressonância obtida pelo frame racialista, observamos que dos seis requisitos listados por Snow e Benford (1992) como parâmetros para sua efetividade, o movimento negro atende apenas dois deles. O frame racialista possui coerência e conta com credibilidade dos seus promotores, porém carece de credibilidade empírica, de comensurabilidade experiencial, de centralidade e de fidelidade narrativa. O que o coloca como um frame de baixa aderência na sociedade brasileira, que rejeita seu prognóstico sob o argumento comum de que se trata de um esquema de interpretação fora na nossa maneira de ver e sentir o outro nas relações sociais. Se de um lado os requisitos atendidos puderam fazer o movimento negro avançar no cenário brasileiro, com importantes vitórias no campo da educação, da saúde e das leis anti-discriminação, por outro, os demais requisitos mostram os limites deste frame. Com efeito, estes limites impedem que a contenção transnacional se complete no caso do transnacionalismo negro. Sem estes requisitos o frame enfrenta dificuldades para mobilizar o apoio da sociedade e dos grupos que estão fora do movimento negro, bem como não consegue também vencer a disputa contra o frame não-racialista, que se fortalece diante destes limites e no esforço de manter a disputa faz ressurgir a idéia de democracia racial, que até pouco tempo era vista como um mito, mas que agora começa ser vista como algo concreto.