O período escolástico teve seu apogeu a partir do século XIII – chamado de O século
de ouro –, visto que, aí, os pensamentos filosófico e teológico se difundiram enormemente, aprimorando-se nas Universidades por meio de grandes intelectuais, como Pedro Abelardo, Boaventura, Alberto Magno, João Duns Scoto e Tomás de Aquino. Em relação a este último, cuja reflexão nos importa, destacamos que seu pensamento se fundamentava, antes de tudo, numa ideia de verdade que, conforme sabemos, o inquietava; por essa verdade, e a essa verdade, ensinava, servia, pregava e vivia. Na perspectiva religiosa, elaborou a mensagem cristã do século XIII a partir do pensamento aristotélico, considerando os clássicos, tais como Platão, os padres gregos e latinos e Agostinho. Tomás de Aquino também comentou grandes pensadores, em especial Aristóteles, redescobrindo-o e dando-lhe uma leitura em perspectiva inovadora.
Não se tratava apenas de difundir uma verdade a partir das resoluções das questões discutidas em sua época. O que lhe interessava, e a uma gama de pensadores do mesmo período, era que a verdade se identificava a Deus, e, dessa identificação, emergia o convite à configuração e ao seguimento, sob o signo da fé aproximada da razão.
Na maioria das obras tomasianas, verificamos a presença dos autores clássicos, como Agostinho e Aristóteles, talvez pelo fato de serem eles autoridades incontestáveis para o pensamento filosófico e teológico. Assim, ao mencioná-los, Tomás, além de os exaltar, a fim de evidenciar sua relevância, testifica seu pensamento e o apresenta de modo sistemático. As
90 grandes obras tomasianas sintetizam a reflexão filosófica e teológica da alta Idade Média. Nesse sentido, é possível encontrar, em tempos contemporâneos, a consistência de sua filosofia, sobretudo no tocante à ética e à moral. Por esse motivo, ressaltamos nossa compreensão de que a ética tomasiana é uma ética das virtudes, pelo fato de que, além de seu pensamento acerca disso estar apoiado em grandes sistemas filosóficos oriundos da tradição, ele articula a ética a partir do agir conforme uma finalidade – é, pois, uma ética teleológica centrada no agir virtuoso.
Partindo disso, sublinhamos que, na contemporaneidade, o pensamento ético tomasiano pode ser tomado em consideração para discussões; certamente, a estrutura elaborativa dessa ética é menos pertinente do que seu conteúdo, ou mais, do que sua proposta: que os atos humanos sejam considerados teleologicamente – não em relação a um fim transcendente –, mas de modo a que o ato não seja vivido como fim de si mesmo. E, ademais, que a virtude possa ser vislumbrada como um conceito menos religioso e mais próximo da vivência dos grupos humanos, sejam quais forem suas configurações.
Não obstante, alguns adeptos desse pensamento, tais como os tomistas, parecem abordá-lo com ideias infundadas, não preservando o pensamento primordial próprio de Tomás de Aquino. Trata-se, aqui, do neo-tomismo, isto é, um movimento posterior ao tomismo, pertencente à modernidade e à contemporaneidade, que discorre acerca de alguns temas tomasianos, pretensiosamente com interpretações que estão longe de ser estritamente do Aquinate; além disso, incorrem em leituras que reforçam um caráter unilateralmente vinculado à tradição católica. Em contrapartida, a perspectiva tomasiana preza por um retorno às fontes, pela leitura dos textos e consequente interpretação tendo em vista a realidade social. Em nosso estudo, destacamos que a perspectiva tomasiana aproxima-se mais de nosso objetivo: demonstrar a pertinência da ética tomasiana para o contemporâneo.
Há algumas razões pelas quais podemos indicar a atualidade do pensamento tomasiano, especialmente em se tratando da possibilidade de tal pensamento ser relevante na contribuição das respostas, que ainda são insuficientes, a algumas questões postas em nossa época, sobretudo, no âmbito ético e moral, educacional, bem como filosófico ou teológico. O que norteia o pensamento ético de Tomás de Aquino é a questão da virtude e, isso, do ponto de vista dos princípios naturais que todos nós possuímos, a saber, “procurar o bem e evitar o mal.” Trata-se da perspectiva do bem enquanto fim último que impulsiona à aquisição das virtudes. Entretanto, se somos senhores de nossos próprios atos e, se na perspectiva tomasiana, eles devem ser orientados conforme a reta razão, então, não podemos desconsiderar o fato de que a razão prática (prudência) é a virtude que regula e orienta nossas
91 capacidades intelectuais, possibilitando-nos a boa escolha, de modo que, ao expressarmos retamente nosso juízo moral, estamos praticando das virtudes.
Isso posto, questionamos: na sociedade contemporânea, marcada por um império do tecnocentrismo – impulsionado pelo, e imbricado ao, capitalismo –, é possível se pensar na pertinência das virtudes, uma vez que, na definição tomasiana, elas são vistas como “justo meio para nós,” e, atualmente, o “para nós” tem sido substituído vertiginosamente pelo instrumental técnico – em múltiplas modalidades –, além de que o “justo meio” é desconhecido pelo sistema que tem no lucro a palavra de ordem?
Certamente, a resposta não é fácil; talvez, nem seja possível. Considerando os limites de uma pesquisa em nível de mestrado, percebemos que tal questão merece ser, por nós, aprofundada, talvez, em estudos posteriores. Contudo, aqui, propomo-nos a apontar um caminho de resposta.
Vislumbramos, inicialmente, dois caminhos: um que sugere um retorno às fontes tomasianas, sublinhando sua perspectiva antropológica – mais que estrutural –, para que, assim, se chegue àquilo que consideramos nosso segundo encaminhamento, a saber, a compreensão da ética tomasiana como uma proposta ampla, posta a par de outras, e não como um corpo de reflexão destinado a um grupo de exceção. Desenvolveremos tais aspectos nos tópicos seguintes.
3.2 A relevância dos escritos tomasianos: uma possível contribuição frente às questões