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De acordo com o De virt. q. 1, a. 5, compreendemos que a abordagem tomasiana trata a vontade como apetite racional (appetitus rationalis), e que ela não necessita do habitus da virtude para se inclinar ao bem. Tomás passa a discutir, em De virt., q. 1, a. 6, se o intelecto prático como parte superior da alma é sujeito da virtude. Aqui, ressaltamos a relevância da ideia de inclinação natural68 (inclinatio naturalis) defendida pelo Aquinate, que se encontra no apetite, sendo um juízo natural na capacidade cognoscitiva do homem. Nessa perspectiva,

65 I-II, q.57, sed contra. 66 Eth. Nic., 1. V, 6. 1134 b 5-6. 67 I-II, q. 56, a. 6c.

68 Conforme Tomás de Aquino, o bem tem razão de fim, mas o mal não é um fim, e sim uma desordem. O ser

humano é inclinado primeiramente ao bem, de modo que esse é inerente a ele segundo sua própria natureza. Assim, o homem deve tender ao bem e evitar o mal, a fim de que se concretize nele o primeiro princípio da razão prática, que se comporta como o primeiro princípio da razão teórica, o princípio da não contradição.

51 na Summa Theologiae, quando se refere à inclinação natural, Tomás discorre sobre o primeiro princípio da razão prática que se relaciona com o princípio da razão teórica e se funda no conceito de ente. Concomitantemente, o primeiro princípio da razão prática se funda no conceito do bem, porque o “bem é aquilo que todas as coisas desejam” (Bonum est quod

omnia appetunt),69 uma vez que o conceito de ente é o primeiro conhecimento (primum

cognitum). Nesse sentido, dizemos, com Tomás, que o primeiro princípio da lei natural é procurar o bem e evitar o mal (bonum est faciendum et prosequendum, et malum vitandum). Após isso, Tomás estabelece uma estrutura das inclinações naturais: 1) A inclinação para o bem segundo a natureza que tem em comum com todas as substâncias, isto é, a conservação de seu ser de acordo com sua natureza; 2) É inerente ao homem a inclinação a algumas coisas mais especiais, segundo a natureza que tem em comum com os outros animais, como por exemplo, a união do macho e da fêmea, a educação dos filhos, etc; 3) É inerente ao homem a inclinação ao bem segundo a natureza da razão, que lhe é própria, como o conhecimento da verdade a respeito de Deus, pela fé, e o viver em sociedade; isso se dá a fim de que o homem possa evitar a ignorância, por intermédio da razão ou da ciência, pois possui inclinação para a ciência, como se vê na primeira frase da Metafísica, de Aristóteles: “todos os seres humanos naturalmente desejam a ciência (sabedoria).”70

Conforme De virt., q. 1, a. 6, verificamos que a virtude está no intelecto prático assim como no sujeito. Paralelo a este artigo, na I-II, q. 57, a. 5, Tomás faz menção à prudência, investigando se ela é necessária ao homem, considerando que, para se viver bem, deve-se agir bem. Ele ressalta que essa virtude é a mais necessária à vida humana (prudentia est virtus

maxime necessaria ad vitam humanam). No entanto, a prudência é a virtude que regula os atos humanos, bem como todas as outras virtudes correlacionadas a ela e, por esse motivo, também é chamada de razão prática que possibilita que a ação humana tenda para um fim bom. Por isso, o ser humano se dispõe convenientemente pela virtude que aperfeiçoa a parte apetitiva da alma, o que se dá por intermédio da razão prática (prudência).71 É através do apetite natural (appetitu naturali) que o homem se inclina a apetecer o próprio bem, ainda que não haja nele um juízo natural uniforme, que o torne capaz de procurar a classe do bem. Para que isso se dê, é necessário que um habitus aperfeiçoe sua razão prática, do mesmo modo que a razão especulativa, aperfeiçoada pelo habitus da ciência, julga retamente acerca do cognoscível no tocante a alguma ciência e, igualmente, a razão prática que, uma vez

69 I-II, q. 94, a. 2c. 70 Met. I, 1. 980 a 22. 71 I-II, q. 57, a. 5c.

52 aperfeiçoada, julga retamente o bem humano conforme seu agir. Por isso, dizemos que a virtude está no intelecto prático, uma vez que regula seus atos a fim de que tendam para o bem, conforme a reta razão.72 Conforme Tomás de Aquino, no que concerne à virtude da prudência, como virtude intelectual, ela aperfeiçoa a razão, tornando-se necessária para estabelecer o modo reto em todas as virtudes, uma vez que, na virtude moral, o meio termo73 se determina conforme a reta razão,74 considerando a parte apetitiva e o motivo pelo qual todas as demais virtudes se conectam umas às outras. Desse modo, em oposição à prudência, temos a ignorância da eleição, própria dos homens maus, que se dá porque o juízo da razão é interceptado pela inclinação do apetite, favorecendo os vícios.

O bem e a verdade são objetos da parte intelectiva e apetitiva da alma, de modo que estas partes se relacionam umas com as outras, da mesma forma que a vontade com o intelecto, uma vez que o último compreende o que ela deseja. Nesse sentido, o bem é certa verdade apreendida pelo intelecto que entende que, desse modo, a vontade deseja o bem, assim como entende que o desejo é algo bom. A própria verdade é considerada um bem do intelecto, como, por exemplo, quando o homem compreende que deve entender a verdade. Assim, o bem e o fim da operação é a verdade do intelecto prático, já que o bem só move o apetite enquanto é apreendido, ficando claro, para nós, que não pode haver algo que impeça a existência da virtude no intelecto. Concluímos que a vontade é uma boa vontade quando inclinada ao bem apreendido pelo intelecto prático, por Tomás chamado de prudência.