Uma outra resposta ao problema dos nomes vazios se dá com o abandono do princípio de singularidade. Segundo o princípio, expressões gramaticais singulares devem ser interpretadas como sendo irredutivelmente singulares, isto é, como nomes genuínos. No entanto, o modo como apresentei a tese impõe uma condição desnecessariamente forte. Fiz assim para que fosse mais simples enunciar o princípio, mas agora preciso enfraquecê-lo um pouco. De fato, para o problema passar pela condição gramatical, não é preciso que as expressões singulares de todas as categorias sejam interpretadas ou traduzidas como singulares. Basta que uma das categorias, e.g. nomes próprios, descrições definidas, etc., seja irredutivelmente singular. Essa ressalva é importante porque o século XX viu um grande número de debates sobre a real função semântica das expressões singulares de diferentes categorias.
A solução russelliana ou descritivista para o problema dos nomes vazios é a solução mais tradicional. Seu modelo semântico para descrições definidas e nomes próprios vigorou na literatura filosófica da tradição anglo-americana da primeira metade do século XX. A solução de Russell se trata de recusar o princípio de singularidade e revisar a condição gramatical do problema. Ela envolve então a recusa de que a forma referen- cial aparente de expressões singulares, como nomes próprios e descrições definidas, constitua uma evidência em favor de uma semântica milliana. Ao contrário, a solução russelliana segue uma estratégia ficcionalista ao sugerir que confundir a função aparente dessas expressões com sua função lógica real constitui a própria origem da aporia. Russell propõe, no lugar, uma semântica descritivista para nomes próprios ordinários e uma semântica quantificacional para descrições definidas.
Pode-se dizer que, desde o artigo de Russell, “On Denoting”, de 1905, até os anos sessenta, a literatura foi majoritariamente ficcionalista com respeito a singularidade de expressões ordinárias. O artigo de Russell mostrara como analisar predicações ordinárias de descrições definidas em predicados, variáveis individuais e relação de identidade, evitando a necessidade de traduzir descrições como termos referenciais. Essa teoria foi chamada de teoria das descrições. A teoria das descrições é uma poderosa tecnologia de conversão de singularidade em generalidade, de predicação em quantificação; mas sozinha ela só é capaz de interpretar descrições definidas e indefinidas, restando as numerosas expressões singulares vazias da linguagem ordinária. Russell então veio a tratar nomes próprios e expressões singulares que significavam independentemente de denotar alguma coisa real como sendo abreviações gramaticais de descrições definidas, posição que veio a ser chamada de descritivismo.
Os paradoxos da referência pareciam revelar dois fatos intuitivos sobre expressões singulares: que são significativas mesmo quando vazias e que significam coisas distintas mesmo quando correferentes. Esses fatos seriam evidências de que o significado dessas expressões não são, pelo menos não sempre, o seu referente. Para Russell, isso significou que o princípio de singularidade devia cair. É claro, os mesmos fenômenos poderiam ser lidos de outros modos: de um lado, como evidência de uma teoria semântica
literalista que assumisse uma ontologia de objetos exóticos, abstratos ou inexistentes; de outro, como evidência de uma distinção crucial entre o significado comunicado e pensado de um termo singular e o seu poder semântico para afetar as condições de verdade das sentenças.
As duas primeiras alternativas de Russell consistiriam em negar um dos princípios de realidade ou univocidade e assumir que termos singulares referem a objetos teóricos, inexistentes, ou a objetos que existem de um modo especial. Com efeito, Russell () já havia defendido uma teoria assim. Mas o “senso de realidade” que Russell desenvolveu em sua virada empirista e anti-realista tornou inviável uma teoria diferente do universo de discurso. Essas soluções não estavam mais disponíveis em 1905. Inversamente, foi então que o problema teria se apresentado em sua gravidade, quando Russell assumiu o tal senso robusto de realidade. A solução de Russell teria que se dar no interior da imagem realista e empirista, segundo o princípio de realidade dos objetos e da univocidade do ser.
[M]any logicians have been driven to the conclusion that there are unreal objects... In such theories, it seems to me, there is a failure of that feeling for reality which ought to be preserved even in the most abstract studies. Logic, I should maintain, must no more admit a unicorn than zoology can; for logic is concerned with the real world just as truly as zoology, though with its more abstract and general features. To say that unicorns have an existence in heraldry, or in literature, or in imagination, is a most pitiful and paltry evasion. What exists in heraldry is not an animal, made of flesh and blood, moving and breathing of its own initiative. What exists is a picture, or a description in words. Similarly, to maintain that Hamlet, for example, exist in his own world, namely in the world of Shakespeare’s imagination, just as truly as (say) Napoleon existed in the ordinary world, is to say something deliberately confusing, or else confused to a degree which is scarcely credible. There is only one world, the ’real’ world: Shakespeare’s imagination is part of it, and the thoughts that he had in writing Hamlet are real. So are the thoughts,
feeling, etc., in Shakespeare and his readers are real, and that there is not, in addition to them, an objective Hamlet. When you have taken account of all the feelings roused by Napoleon in writers and readers of history, you have not touched the actual man; but in the case of Hamlet you have come to the end of him. If no one thought about Hamlet, there would be nothing left of him; if no one had thought about Napoleon, he would have soon seen to it that some one did. The sense of reality is vital in logic, and whoever juggles with it by pretending that Hamlet has another kind of reality is doing a disservice to thought. A robust sense of reality is very necessary in framing a correct analysis of propositions about unicorns, golden mountains, round squares, and other such pseudo-objects.(RUSSELL, 1919, 169–170)
De outro lado, a terceira alternativa de Russell seria abandonar o princípio de objetividade e assumir um caminho no espírito das lógicas livres para manter o princípio de singularidade e aceitar os fenômenos da referência como evidência de uma cisão entre valor e poder semânticos de um termo singular. Seria assumir que o significado de uma expressão singular, aquilo que comunicamos e pensamos quando a utilizamos deve ser um conteúdo distinto de sua contribuição às condições de verdade das sentenças. Ou seja, consistiria em ler as aporias como sintomas da independência do valor e poder semântico de uma expressão. Nesse caminho, o princípio de singularidade seria salvo, mas os impasses levariam Russell à conclusão de que as condições de verdade de sentenças singulares não são uma função de seu significado. O princípio de objetividade, no entanto, era fundamental para a epistemologia de Russell, que requeria de sua semântica o que pode ser chamado de teoria cartesiana do significado.
Ou seja, as alternativas eram as seguintes. De um lado, distinguir entre objetos existentes e inexistentes, entre quantificadores existencialmente carregados e quantifi- cadores irrestritos, ou entre diferentes modos de existência (ou sentidos de “existe”), e assumindo uma pluralidade de domínios e uma interpretação restrita e contextual dos quantificadores. De outro, distinguir entre valor e poder semântico de uma constante lógica e, consequentemente, apartar teoria da linguagem como comunicação de teoria
semântica; psicologia de ontologia. O que frustaria o projeto de epistemologia fenomena- lista de Russell e assim o empirismo que o levou aos problemas da referência em primeiro lugar. Para garantir o vínculo entre o significado de uma sentença e suas condições de verdade e a independência desse significado em relação à verdade ou falsidade da sentença e tomando descrições definidas como modelo de expressão singular, Russell concluiu que o conteúdo semântico de descrições definidas e da maior parte dos nomes comuns não é seu referente, mas as condições de satisfação da referência conotadas pelos predicados que compõem a descrição.