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Ainda assim, vale-se perguntar se todas as categorias de nomes vazios representam o fenômeno do mesmo modo. Há várias tentativas locais de solução. Com base na apresentação de Sainsbury (2005, 87–88), podemos separar os tipos de nomes vazios do seguinte modo:

1. Nomes ficcionais (“Bentinho”, “Holmes”)

2. Nomes de coisas que se pensou existir (“Vulcano”, “Atlântida”) 3. Nomes de coisas do passado (“B. Russell”, “J. S. Bach”)

4. Nomes de coisas envolvidas em disputa empírica de existência (“Homero”) 5. Nomes de coisas envolvidas em disputa metafísica de existência (Propriedades,

entidades matemáticas)

Nomes de personagens de ficção parecem ser tanto singulares quanto vazios, mas isso não é tão preciso. Nomes utilizados fora da ficção para referir a personagens de uma estória são tipicamente tidos como singulares, mas não é claro que sejam vazios. Teorias como a de Thomasson (1999) defendem um realismo quanto a personagens como entidades abstratas. Bentinho, segundo uma teoria assim, seria um artefato abstrato criado por Machado de Assis, e possui propriedades como ter sido criado por um autor brasileiro, ser um famoso personagem da literatura machadiana e de ser idêntico a si mesmo. Bentinho enquanto personagem criado, existe no mesmo sentido que qualquer coisa real. Por outro lado, o personagem que dentro da estória casou-se com Capitu e não queria ser padre, esse não existe, não morou no Rio de Janeiro nem casou, exceto dentro da estória. “Bentinho”, como usado no livro, certamente é uma expressão que não denota coisa alguma; mas se um nome é uma expressão que pretende referir, então está longe de ser evidente que “Bentinho” realmente funcione como um nome dentro do livro. Autores de ficção não usam “nomes” de personagens para referir, mas somente para fingir referir. Ou seja, talvez nomes vazios ficcionais fora das narrativas não sejam, afinal, vazios e, dentro delas, talvez sejam fictícios.

Em segundo lugar, há nomes de coisas que pensávamos existir. O exemplo clássico na literatura, também abordado por Sainsbury, é o de Vulcano. Le Verrier e outros pesquisadores, durante alguns meses, teriam usado o nome “Vulcano” acreditando referir a um planeta que causava alterações na órbita de Mercúrio. Mas casos de entidades matemáticas também podem ser citados, supondo que existam em primeiro lugar. Além de nomes científicos, nomes de figuras e deuses mitológicas também entram nessa categoria. Uma sugestão contra a visão de que “Vulcano” fora utilizado por Le Verrier como um nome genuíno vem das teorias metalinguísticas. Segundo essas teorias, nesses exemplos, os nomes “vazios” não eram realmente nomes, mas abreviações de descrições definidas ou de expressões como “’Vulcano’ não é vazio”. Mas o que é interessante sobre esses casos é o fato aparente de que, quando descobrimos que um nome que pensávamos referir não refere a coisa real alguma, o seu significado aparente não muda, nem mudam, supõe-se, sua função semântica nessas sentenças e a forma lógica destas.

A terceira classe de nomes vazios é a de coisas do passado. Pode-se argumentar que nomes como “Russell” não são enunciados em contexto normal, mas que um contexto temporal é sempre presente ainda que implicitamente, em asserções conjugadas no passado. Quando dizemos “Russell é um filósofo”, dizemos na verdade “No passado, Russell foi um filósofo”. Negativas existenciais envolvendo objetos do passado, como “Russell não existe” poderiam ser parafraseadas em sentanças como “Russell não existe agora”. É razoável dizer que Russell não é inexistente como Pégaso o é. Pégaso não existe realmente, gastaríamos de dizer, enquanto Russell talvez seja em algum sentido real. Mas o que esses casos realmente mostram é que o fenômeno dos nomes vazios é mais comum do que poderia parecer. Certamente, não deixamos de poder referir a um indivíduo por conta do evento de sua morte. Mas isso mostra que o fenômeno da referência não pode ser explicado com apelo à concretude do objeto referido, cujo corpo pode muito bem deixar de existir. Nem parece plausível reconstruir Russell artificialmente como um objeto abstrato. Já é difícil explicar a referência a coisas concretas que não exitem mais, quanto mais explicar o que seria referir a versões abstratas desses indivíduos. Essa classe de nomes vazios sugere que a referência é um fenômeno

independente de haver ou não um referente. Não podemos reconstruir Russell de modo realista, mas também não podemos supor haver ainda um objeto concreto. Essa intuição está por trás de várias teorias contemporâneas, e é particularmente compatível com as lógicas livres. Essa intuição também figura de modo decisivo no pensamento de Wittgestein (1994), que se baseia no experimento com a morte de Mr N.N., no parágrafo 40, para defender a idéia de que o significado de uma expressão é estabelecida pelo seu uso, em oposição a uma referência efetiva a um objeto.

Com respeito à quarta classe de nomes, pode-se sempre argumentar que eles exis- tem. Essa é a posição estrito senso realista. Realismos locais que afirmam a existência das denotações de um certo registro de nomes normalmente assumem um realismo por uma demanda explanatória. Quine, Putnam e Inwagen são autores conhecidos por manter posições realistas quanto a números por conta do argumento da indispensa- bilidade. Segundo o argumento, simplificando, o critério de compromisso ontológico de Quine sugere que estamos comprometidos com as entidades cuja a existência é necessária para que as sentenças em que acreditamos sejam verdadeiras. Supondo (condicionalmente) que precisamos explicar a verdade das teorias matemáticas e como não podemos parafraseá-las de modo ficcionalista, então precisamos supor que entida- des matemáticas são reais, como explica Stokes (2005, 101–104). Mas então os nomes dessas entidades não são exemplos de nomes vazios afinal de contas. Uma resposta contra o argumento ontológico da indispensabilidade é, naturalmente, ficcionalista e vai no sentido de dizer que não precisamos supor que essas teorias sejam literalmente verdadeiras para utilizá-las para representar o mundo, como sugere Melia (2000) Talvez teorias matemáticas sejam verdadeiras no sentido de serem enunciados “conforme a matemática padrão . . . ”, como no ficcionalismo de Field (1980).

O quinto tipo de nomes vazios é, segundo Sainsbury, a categoria mais contundente. Se não houvesse nomes vazios inteligíveis, a questão da existência de Homero seria na verdade sobre se “Homero” é inteligível. Novamente, o fato de que tais nomes significam é uma condição para que questionemos se são ou não vazios em primeiro lugar. A dúvida, como quando pensamos em um objeto imaginário, sugere que a existência de

um referente real não é uma condição necessária para que nomes tenham conteúdo. Por último, é necessário trazer à tona o caso das existenciais negativas. Mesmo que cada uma dessas explicações alternativas sejam consistentes ou mesmo necessárias em contextos ou registros específicos, predicações existenciais negativas mostram que nenhuma redução local do problema pode esgotá-lo. Sentenças como “Curupira não existe” são predicações gramaticais típicas que não estão inseridas em contexto temporais, hipotéticos, narrativos, intencionais, etc. Ao mesmo tempo, apelam para a intuição anti-realista, mirando a estratégia artificial de se postular entidades abstratas. Em um sentido muito importante, a questão toda dos nomes vazios reside na disputa sobre a semântica do verbo “existe”. Isto é, na disputa sobre se “existe” é ou não um predicado. Consequentemente, reside na disputa sobre a abrangência da categoria dos objetos.

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