Em 26 de Abril de 1716, Frei Álvaro da Apresentação, religioso da Ordem dos Descalços da Santíssima Trindade, escreveu ao deão e cabido de Miranda a propor a instalação de uma casa, não sendo preciso pensar em rendas, e bastando uma casa decente para poder ensinar o que fosse preciso: filosofia, teologia ou moral. Dois anos mais tarde a 3 de Novembro de 1718, o capitão Francisco Xavier de Ordaz Sarmento e sua mulher D. Luísa de Morais
1
IANTT., Desembargo do Paço, Repartição do Minho e Trás-os-Montes, Mç. 10, Cx. 11, Doc. 35.
2
ADBM., Câmara Eclesiástica, Registo 1748-1759, fl. 106v-107.
Sarmento, de Miranda do Douro, fazem escritura de doação e trespasse de umas «cazas, cortinhas, e mais pertenças a ellas citas na dita cidade na rua do escorial […] ao muito reverendo Padre frei Álvaro da apresentação Religioso descalço da Santíssima Trindade, como procurador Geral da dita Sagrada Religião neste Reino para effeito de fundar convento nas ditas cazas da sua Religião e ordem» 2
. No mesmo ano o bispo, D. João de Sousa Carvalho entrega-lhes a capela de Santa Cruz, em Miranda do Douro, para aí construírem a sua moradia, para a qual contribui o cabido, por acórdão de 4 de Novembro de 1718, com «duzentos mil Reis os quais se lhe dariaõ nos primeiros coatro annos seguintes principiando pelo prezente no qual se lhe darão cinquenta mil reis e em cada hum dos tres seguintes outros cinquenta mil Reis» 3.
Simultaneamente a esta casa funda-se outra em Mirandela, instalada na casa do hospital da Misericórdia onde, pelo menos, desde 1717 exerciam as funções de capelães. 4
Foi bastante atribulada a fundação destas casas, elevadas à categoria de conventos formais, em 1726, pelo Papa Bento XIII 1. Conforme nos informa Frei
Jerónimo de São José, simultaneamente a estas instituições a ordem iniciou, em 1719, a construção de um convento no Bairro Alto, em Lisboa, cuja construção foi logo embargada a pedido do Procurador da Coroa, por não ter licença régia. Pedida a respectiva licença, o monarca impõe as seguintes condições: tanto os religiosos como os prelados teriam de ser portugueses, não podiam estar sujeitos ao provincial de Espanha e não podiam possuir bens de raiz. Não tendo sido satisfeitas estas condições, o Desembargo do Paço mandou, em 15 de Fevereiro de 1726, demolir a obra do Bairro Alto, e ordenou, também, ao corregedor da comarca de Torre de Moncorvo, José de Lima Barros, que executasse com diligência a demolição do Hospício de Mirandela e notificasse os religiosos, para que, no termo de oito dias se retirassem para
1 IANTT., Dicionário Geográfico, Vol. X, Mem. 287, fl. 1967-1968. 2
IANTT., Arquivo Histórico do Ministério das Finanças – Convento da Santíssima Trindade de Miranda do Douro, Cx. 2237, nº 259.
3
ADBGÇ., Cabido, Acórdãos, Cx. 02, Lv. 05, fl. 204-204v.
4
SALES, Ernesto A. P. de – Mirandela: Apontamentos Históricos. Bragança: Junta Distrital de Bragança, 1978, Vol. I, p. 259.
fora do reino 2
. Frei Cláudio da Conceição, no Gabinete histórico, aponta como origem da ordem régia de demolição dos conventos a oposição dos franciscanos de Bragança, à tentativa que em 1724, Fr. Álvaro da Apresentação fez para fundar uma casa em Vinhais, obrigando o geral da ordem a intervir no conflito enviando a Lisboa Frei Cristóvão, que conseguiu a revogação da ordem régia e ordenou a Frei Álvaro que desistisse da fundação em Vinhais 3
.
Apesar das contrariedades, ambos os conventos transmontanos subsistiam dedicando-se, intensamente, os seus religiosos ao serviço da pregação e das comunidades. Em 1749, D. Diogo Marques Morato, diz do de Miranda: «Atendem religiosamente, como ministros de Cristo aos necessitados, e são dispensadores dos mistérios de Deus na pregação, na audição das confissões, no auxílio aos moribundos e na guia das almas». De Mirandela diz: «Nesta vila há o hospício dos religiosos da Santíssima Trindade, e, em tudo e por tudo, é irmão, na observância regular e no espírito apostólico a favor dos necessitados, do da cidade de Miranda, sujeito, igualmente, ao seu ministro geral» 4. E em
1754, D. Frei João da Cruz informa o Papa Bento XIV que : «Na cidade de Miranda, e em Mirandela, que é uma vila de bastante importância, existem, florescendo sempre em odor de virtude, os frades descalços da Ordem da Santissima Trindade, em cujas igrejas públicas de grandeza regular, ouvem as confissões e pregam a palavra de Deus em sermões ao povo» 5
.
Em 1 de Julho de 1750 fizeram novamente os religiosos uma petição à Coroa pedindo licença para fundarem no reino três conventos, em Miranda, Mirandela e Murça. Por resolução régia de 20 de Julho de 1752 é indeferido o pedido, e mandam-se demolir as construções já feitas e expulsar os frades do reino 6
.
1
CASTRO, José de – ob. cit., Vol. II, p. 250.
2 JERÓNIMO DE SÃO JOSÉ, Frei – Historia Chronologica Da Esclarecida Ordem Da Santissima Trindade, Redempçaõ De Cativos Da Provincia De Portugal. Lisboa: Officina de Simaõ Thaddeo Ferreira, 1794, Tomo II, p. 476-477.
3
CLÁUDIO DA CONCEIÇÃO, Frei – Gabinete Historico Que A Sua Magestade Fidelissima O Senhor Rei D. Miguel I
Em O Dia Dos Seus Felicissimos Annos 26 De Outubro de 1828 Que Oferece Fr. Claudio da Conceição. Lisboa:
Impressão Regia, 1829, Tomo XIII, p. 132-133.
4 Visita ad limina (CASTRO, José de – ob. cit., Vol. II, pp. 250 e 253). 5
Visita ad limina (CASTRO, José de – ob. cit., Vol. II, pp. 250).
6
Nos casos de Miranda do Douro e Mirandela esta ordem foi suspensa graças à intervenção, junto da rainha D. Mariana de Áustria, do bispo, do cabido e de ambas as Câmaras e mais povo das respectivas localidades 1
. Em 1758 parecem já satisfeitas as condições do soberano, como informa o pároco de Mirandela sobre a casa da Misericórdia «hoje e ja ha muitos annos achasse pessuida dos religiozos trinos descalssos, que vieraõ de Castella ainda que ja naõ existe nemhum do tal reino porque por decreto Regio ou naõ sey porque se auzentaram os daquelle reino havera dois annos, pouco mais, ou menos, e asistem hoje os que da mesma ordem deste reino, estavaõ, em Castella» 2.
4.10. CONCLUSÃO
No total das 10 comunidades religiosas radicadas na diocese, verifica-se que os mais numerosos eram os franciscanos que, incluindo o ramo feminino, os terceiros e os missionários de Brancanes, perfaziam cinco comunidades. Seguindo-se os trinos descalços com duas, os beneditinos, os marianos e os jesuítas com uma. O convento de S. Francisco de Bragança era o mais antigo (séc. XII) que juntamente com o mosteiro beneditino de Castro de Avelãs, extinto em 1545, foram durante séculos, as duas únicas instituições monásticas no território que viria a constituir a Diocese de Miranda. Após a erecção da diocese em 1545, fundam-se pouco depois o Colégio dos Jesuítas e os conventos femininos de Beneditinos em Bragança e de Clarissas nesta cidade e em Vinhais. Nos finais do séc. XVII surge o convento de Nossa Senhora das Flores. E no período em estudo deparamos com a entrada dos trinitários descalços e dos marianos, que nesta diocese fundaram as suas primeiras casas no reino.
Além destas comunidades, há que registar ainda o convento de Santo António de Algoso, embora sejam muitos escassas as informações a seu
1
ADBGÇ., Conventos Diversos, Cx. 14, Cartas de 13 de Setembro de 1752.
2
respeito e todas provenientes de obras impressas. Segundo a tradição, teria sido fundado por um companheiro de S. Francisco, portanto contemporâneo à fundação de Bragança; Fr. Juan de Santa Maria acrescenta que pertencia à Custódia de Santo António de Trás-os-Montes, da Província de S. José de Castela 1
, e Fr. Manuel da Esperança afirma que foi abandonado em 1563 por aquela Província não poder conservá-lo 2
. Frei Pedro de Jesus Maria José refere-o como existente em 1568 3
. Posteriormente voltou a ser ocupado, mas por outra família monástica, como informa o P. Carvalho da Costa (finais do séc. XVII): esta vila «tem hum Hospicio dos Padres da Congregação do Oratório, em que reside hum Padre, por não terem rendas para seu sustento» 4.
O P. Luíz Cardoso (1732-1736) acrescenta que os padres desta congregação «vendo ser o sitio pouco sadio, o largaraõ. Entraraõ depois nele os Religiosos Trinitarios Descalços, e pela mesma causa o deixaraõ, e naõ vive hoje ninguem nelle, e por esta causa se vaõ arruinando o dormitorio, claustro, e mais officinas» 5.
Do contacto com as instituições religiosas da diocese, na primeira metade do séc. XVIII, impõe-se concluir que as comunidades masculinas eram integradas por efectivos humanos muito reduzidos, como se pode observar do quadro que foi possível organizar:
CONVENTOS ANOS Nº DE RELIGIOSOS
S. Francisco de Bragança 1720
1754
14 25
Nossa Senhora das Flores de Sezulfe 1754 20
Colégio de Jesus de Bragança 1720
1759
8
15 padres e 5 leigos
Trinitários de Miranda do Douro 1725
1758 126 10 ou 12 7 Trinitários de Mirandela 1725 38 1
JUAN DE SANTA MARIA, Frei – Chronica De La Provincia De San Joseph De los Descalços de la Ordem de los
Menores de nuestro Seraphico Padre S. Francisco; Y De Las Provincias, Y Custodias Desçalças, que della han salido, y son sus higas. Madrid: Imprensa Real, 1615, Parte I, p. 182.
2
MANUEL DA ESPERANÇA, Frei – ob. cit., Tomo I, p. 17.
3 PEDRO DE JESUS MARIA JOSÉ, Frei – Chronica Da Santa, E Real Provincia Da Immaculada Conceição De Portugal, Da Mais Estreita, E Regular Observancia do Serafim chagado S. Francisco. Lisboa: Officina de Miguel
Manescal da Costa, 1760, Tomo II, p. 307.
4
COSTA, António Carvalho da – Ob. cit., Tomo I, p. 482.
5
CARDOSO, Luíz – ob. cit, Tomo I, p. 293.
6 CASTRO, José de – ob. cit., Vol. II, p. 250. 7
IANTT., Dicionário Geográfico, Vol. XXIII, Mem. 154, fl. 1010.
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Quanto às femininas, a situação é completamente oposta, pois estas comunidades em termos de efectivos apresentam grande vitalidade e encontravam-se repletas excedendo em muito a sua capacidade de subsistência. O grande número de profissões, já apresentadas anteriormente, 113 para Santa Clara de Bragança, 80 para Santa Clara de Vinhais e 98 para Santa Escolástica de Bragança, durante a primeira metade do séc. XVIII, e o quadro dos efectivos que apresentamos a seguir assim o sugerem:
CONVENTOS ANOS Nº DE RELIGIOSAS
Santa Clara de Bragança
1721
1732
120 religiosas de véu preto 2 religiosas de véu branco 8 noviças
6 educandas 1 200
Santa Clara de Vinhais 1702
1754
110 2 90 Santa Escolástica de Bragança
1721 1754 144 religiosas professas 4 religiosas conversas 11 noviças 3 120
Finalmente, bem ponderados os elementos apresentados neste trabalho, impõe-se concluir que as instituições religiosas masculinas da diocese experimentavam uma certa vitalidade, traduzida essencialmente na fundação de novas comunidades de observância e espiritualidade renovadas.
Mas não era este o caso das comunidades femininas que, apesar da vitalidade que transparece do grande número de efectivos, atravessavam um período de grave crise económica. Entre as causas desta crise económica estava a aceitação de dotes em capitais de importância fixa, quando as religiosas recebiam o hábito ou professavam, alguns dos quais já de instituição centenária e que se revelavam inadequados para responder aos encargos assumidos pela casa. Outra causa residia na faculdade de as superioras dos mosteiros poderem receber para freiras supranumerárias muitas donzelas, com cujos dotes contavam posteriormente amortizar suas dívidas 4. E, ainda que em
1
BNL., Colecção Pombalina, Cod. 248, fl. 53.
2
FERNANDO DA SOLEDADE, Frei – Historia Serafica Da Ordem Dos Frades Menores de S. Francisco Na Provincia
de Portugal. Lisboa: Officina de Antonio Pedroso Galram, 1721, Tomo V, p. 756. 3 BNL., Colecção Pombalina, Cod. 248, fl. 56.
4
É o caso de Stª Clara de Bragança, que fora instituído para 51 religiosas: 45 freiras de véu preto, 2 de véu branco e 4 educandas ultrapassava nesta época largamente a centena. BNL., Colecção Pombalina, Cod. 248, fl.29.
parte conseguiram este fim, pagando-se efectivamente algumas, por outra esta prática veio a revelar-se desastrosa para os mosteiros, pois que, não chegando as suas rendas para manter o número de religiosas instituído pelos fundadores, mal podiam elas sustentar tantas outras supranumerárias. Aliada a estes problemas surgia a questão da vocação religiosa: a maior parte das freiras eram obrigadas a professar contra a sua vontade, os pais não inquiriam da vocação das filhas, procuravam apenas garantir-lhes a subsistência. Não era raro que um pai metesse três e quatro filhas nos conventos 1
. Muitas outras pessoas procuravam na vida conventual recursos materiais que não encontravam no século: ser freira ou frade era para eles um processo fácil de levar a vida. Já na segunda metade do séc. XVII escrevia Faria e Sousa: «Las Religiones que fueron instituidas para que los hombres dexassen el mundo son aora más buscadas de aquellos aquien el mundo tiene dexado: digo de aquellos que no teniendo nada en el andam buscando adonde tengam algo» 2.
Esses estavam sempre na disposição de infringir a regra, aproveitando todas as possibilidades de dar larga às paixões.
Desta situação derivavam muitas e graves desordens: em 4 de Maio de 1731 as freiras de S. Bento e Santa Clara de Bragança violaram a clausura a protestar contra o estanque do sabão. A 20 de Janeiro saíram outra vez pela mesma razão e dormiram todas nos balcões dos jesuítas, passaram todo o dia 21 na casa da Câmara e dali se recolheram já de noite. As de Santa Clara voltaram a sair em 13 de Março de 1752 em protesto contra uma pastoral de D. Frei João da Cruz que as obrigava a ter hora e meia de oração e conferências espirituais.3
1
Vejam-se nas grelhas das profissões das filhas de João de Morais Cardoso, Aires Ferreira de Sá Sarmento e Fernão Pinto Bacelar entre outros.
2 SOUSA, Manoel de Faria y – Epitome De Las Historias Portuguesas. Lisboa: Officina de Francisco Villela, 1673,
Tomo II, p. 383-384.
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