4.1.1.1 Tyrone, M. E. (2001)
Enquanto a linguística das línguas orais apresenta métodos específicos para medir a articulação e acústica da fala, a das línguas de sinais não possui ainda uma metodologia comparável, pois as técnicas aplicadas ao movimento global do corpo humano não se mostram amplamente aproveitadas nos estudos dessas línguas. Nesse sentido, a maioria das descrições do movimento das línguas de sinais tem sido feita no contexto teórico da fonologia, abordagem essa de significativa importância, mas insuficiente para distinguir descrições sutis na articulação do sinalizador ou nas línguas de sinais.
Dentre os quatro principais parâmetros fonológicos das línguas de sinais (configuração de mão, localização, orientação e movimento) que podem diferenciar um sinal de outro, o movimento corresponde ao menos compreendido. Tal conjuntura explica-se pelo fato de o movimento apresentar graus ilimitados de liberdade, fazendo com que a caracterização e a medição desse parâmetro, de forma confiável, torne-se difícil. Embora grande esforço tenha sido aplicado na investigação da fonologia em língua de sinais, apenas recentemente os pesquisadores têm examinado o fluxo da sinalização do ponto de vista da fonética ou do
controle motor, em suma, a partir de parâmetros físicos. Tyrone (2001) explorou a cinemática do movimento do sinal e sua interação com a localização desse na Língua Americana de Sinais (ASL) de duas maneiras:
a) Investigaram o movimento de sinais simples que se movem para longe em locações específicas, comparando os movimentos internos do sinal com os de transição entre os sinais;
b) Analisaram o que funciona para trazer a mão a uma locação onde o movimento interno do sinal foi iniciado.
Neste estudo, a prosódia do sinal foi investigada, avaliando o tempo do movimento da mão dominante como um efeito da posição de determinado sinal na frase. Considerando trabalhos anteriores, Tyrone (2001) propôs o alongamento dos sinais nos limites da frase, particularmente na posição final da sentença. Analisou-se a prosódia na perspectiva da Fonologia Articulatória, e a hipótese dessa pesquisa foi a de que as línguas de sinais recrutam os mesmos mecanismos prosódicos utilizados nas línguas faladas. Por um lado, as duas modalidades de língua (oral e de sinais) usam um conjunto diferente de articuladores para a produção e a percepção, mas, em contrapartida, ambas empregam sistemas de produção multivariada, os quais organizam o fluxo de informações linguísticas e realizam ajustes na prosódia.
O método adotado, por Tyrone (2001), para a coleta de dados da sinalização da ASL foi o sistema de captura de movimento Opto-electronic (Vicon, sistema de captura de movimento; do Inglês - Vicon Motion Capture System17), o qual utilizou 30 díodos emissores de luz (sete marcadores em cada braço, sete na cabeça e nove no corpo dos sinalizadores), e um conjunto de câmeras de vídeo para registrar o movimento do indivíduo e gravar as posições dos díodos ao longo do tempo em uma taxa de amostragem de 100Hz. Os dados foram analisados utilizando o software Matlab e outros aplicativos concebidos especificamente para a análise.
Os participantes do estudo de Tyrone (2001) eram sinalizadores nativos de ASL da comunidade surda local e a tarefa requeria a produção de sinais originados de movimentos que iriam em direção ao corpo, afastar-se-iam dele, e mover-se-iam para um local não
17 O Vicon é um Sistema Óptico que utiliza marcadores passivos (apenas refletem a luz incidida sobre sua superfície), para rastreamento de movimento. Os marcadores correspondem a objetos revestidos de material refletor que são atados ou fixados a um corpo/objeto a ser rastreado.
especificado, no espaço de sinalização à frente do corpo. No decorrer da tarefa, os participantes direcionaram suas produções a um interlocutor surdo e, durante a coleta de dados, produziram frases em ASL que foram apresentadas em forma de glosas18 escritas em inglês com ilustrações explicativas. Os sinais alvo incluíam um simples movimento para perto ou para longe do corpo, e os limites das frases foram manipulados de modo que os sinais alvo ocorressem no início, no meio ou no final da oração. Trajetórias de movimento e perfis de velocidade foram comparadas entre os diferentes contextos prosódicos e os sinais foram inseridos em uma sentença-veículo que foi repetida dez vezes.
Os dados sugeriram que os movimentos dos sinais em direção a um local específico foram mais regulares do que os internos do sinal com movimento de transição entre sinais para esse local específico. Além disso, a autora considerou a possibilidade de o mecanismo de alongamento de frase-final em língua de sinais ser mais semelhante ao das línguas faladas do que se imaginava anteriormente.
O estudo de Tyrone (2001) contribuiu também para os seguintes aspectos: (i) distinção entre movimentos internos dos sinais e movimentos de transição entre sinais; (ii) reflexão sobre os estudos prosódicos, ao repensar o movimento como uma unidade prosódica básica na estrutura da língua de sinais ou uma transição necessária de um ponto de descanso a outro; (iii) elucidação das unidades mínimas de estrutura de língua de sinais e (iv) desenvolvimento de medidas baseadas na fisiologia da produção do sinal. O estudo de Tyrone (2001) foi importante para esta tese, pois apresenta uma proposta metodológica que aliou tecnologia, língua de sinais e sistema de captura de movimento. A próxima seção apresenta as contribuições de Wilbur e Martinez (2002) quanto à prosódia na Língua Americana de Sinais (ASL).
4.1.1.2 Wilbur, R. B. & Martínez, A. M. (2002)
Wilbur e Martinez (2002) investigaram a cinemática e as variáveis disponíveis para a sinalização: deslocamento (a distância que o articulador atinge), duração, velocidade (quanto de deslocamento em uma unidade de tempo) , a aceleração (mudanças de velocidade por unidade de tempo), e jerk (alterações na aceleração por unidade de tempo). Os autores buscaram distinguir os fatores que contribuíam para a codificação da informação prosódica no
sinal da língua de sinais, além de investigar o papel da aceleração, da velocidade e do jerk em frases da Língua Americana de Sinais (ASL) gravados em vídeo. As hipóteses dos autores foram:
a. Alguma informação prosódica estaria codificada no rastreio cinemático da sinalização de uma frase;
b. É possível extrair a informação cinemática mais importante de um sinal a partir do movimento dos braços (e mãos) de um sinalizador, considerando principalmente a velocidade, haja vista que a medida e a interpretação são consideradas simples;
c. Como a aceleração é derivada da velocidade ao longo do tempo (isto é, a = v/t), as informações adicionais poderiam ser fornecidas a respeito das mudanças do deslocamento, da velocidade e do rastreamento da aceleração;
d. Informações prosódicas mostram-se passíveis de codificação por meio de dois, ou três traços cinemáticos da sinalização (velocidade, aceleração e jerk).
Wilbur e Martinez (2002) argumentam que o estudo prosódico da ASL contribui para a compreensão do acento, da estrutura rítmica e da entonação em conjunto com a sintaxe de uma língua de sinais. Na ASL os aspectos específicos da modalidade manual-visual da língua geram um sistema prosódico relacionado ao meio de expressão e produção, porém, compara- se em função ao das línguas faladas.
Os participantes do estudo de Wilbur e Martinez (2002) foram distribuídos em dois grupos de juízes: um com nove surdos sinalizadores nativos de ASL provenientes de uma escola de surdos do estado e o outro com nove ouvintes estudantes universitários falantes nativos do Inglês, não-sinalizadores. Os estímulos eram dez sequências de multi-sentença em ASL com diferentes tipos de informação prosódica, e comprimento variável, produzidos por 14 sinalizadores. Os estímulos foram gravados em vídeos no formato digital, armazenados em arquivos AVI sem compressão a fim de garantir a máxima qualidade de imagem. Todos os vídeos foram capturados com o mesmo equipamento e em condições de iluminação rigorosamente controladas, com o intuito de minimizar as sombras na imagem. Cinco 'histórias' com múltiplas frases foram selecionadas a partir desse banco de dados como estímulos e três sinalizadores diferentes sinalizando essas cinco histórias, gerando quinze vídeos-estímulos, que foram cortados em vídeos menores, nos quais houvesse características da cinemática (velocidade, aceleração e jerk). Cada juiz começou com um bloco diferente de
vídeo e a tarefa era assistir cada videoclip com os traços cinemáticos e escolher qual filmagem transmitia a "sensação" de um bom material sinalizado.
Wilbur e Martinez (2002) observaram que a marca prosódica não foi realizada unicamente nos braços e nas mãos, como o esperado. Além disso, os sinalizadores nativos não se restringiram ao mesmo tipo de cinemática (velocidade, aceleração e jerk), confirmando as hipóteses dos autores, nas quais, a escolha da cinemática estava relacionada ao indivíduo que se encontrava sinalizando (cada sinalizador realiza um movimento diferenciado a fim de indicar o mesmo estímulo) e com o tipo de estímulo apresentado (sentenças distintas podem precisar de diferentes traços cinemáticos).
Os resultados, segundo Wilbur e Martinez (2002), demonstraram que a velocidade corresponde a um importante traço cinemático na representação da prosódia, além de constituir um meio amplamente utilizado para codificar pistas prosódicas de uma frase, apesar de não consistir no único traço empregado pelos usuários de ASL. Esses resultados revelam a magnitude do papel da variação individual na compreensão do funcionamento da língua. Ademais, houve a tendência de cada juiz preferir um dos três traços de cinemática (velocidade, aceleração e jerk), dependendo do sinalizador das sentenças e também de qual traço cinemático é comumente usado pelo usuário de ASL no seu dia-a-dia. Os autores concluíram que a escolha de um dos traços pode estar relacionada à própria maneira de sinalizar e de expressar do usuário de ASL, moldando assim, a preferência em direção às afinidades do participante.
Wilbur e Martinez (2002) completaram afirmando ser possível extrair informação prosódica dos traços cinemáticos, sabendo que esses podem sofrer influência pelas preferências do sujeito a usar mais um ou outro tipo de traço cinemático (velocidade, aceleração e jerk). Vale ressaltar também que dependendo do tipo de informação prosódica que se deseja investigar, diferentes traços cinemáticos podem ser utilizados. Entretanto, os autores destacaram que apenas o estudo da velocidade não foi suficiente para codificar todos os parâmetros prosódicos de uma sentença em ASL, o que indica a multiplicidade e interação entre parâmetros.
O estudo de Wilbur e Martinez (2002) contribuiu para esta tese ao passo em que incentivou a busca de uma metodologia que pudesse analisar quantitativamente os parâmetros físicos do movimento em Libras. A próxima seção apresenta a complexidade de elaborar e executar um projeto que envolva tecnologia e línguas de sinais, a exemplo do delineado por Moita et. al. (2011).
4.1.2 Estudos do movimento realizados na Língua Gestual Portuguesa (LGP) - Moita,