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Liddell (1984) contestou a proposta de Stokoe (1960) de que as estruturas internas da língua de sinais sejam simultâneas e defendeu a ideia de sequencialidade para essas. A principal questão levantada por Liddell (1984) foi a natureza sobreposta dos parâmetros fonológicos, em contraponto com a natureza sequencial e linear desses, anteriormente sugerido por Stokoe (1960). Liddell & Johnson (1989) investiram seus estudos em um sistema de transcrição fonética para a Língua Americana de Sinais (ASL), pautado no uso de um conjunto de traços que envolvem características ou grupos de características dos sinais, nas quais cada um representa diretamente determinado aspecto da articulação do sinal. Para os autores, um sistema de transcrição das línguas deve atender aos seguintes objetivos:

 Prever a representação precisa do detalhe fonético da língua;

 Garantir que essas representações sejam úteis na caracterização da organização estrutural interna da língua;

 Ser capaz de representar cada estado e cada postura do sinal, do estado inicial ao final, com traços articulatórios que indiquem estas mudanças durante a produção do segmento.

No sistema de transcrição proposto por Liddell & Johnson (1989), cada segmento é expresso individualmente e os sinais são representados como sequências de segmentos, em matrizes de traços articulatórios. A modelagem fonológica autossegmental, que propõe representações não-lineares em camadas, e introduz a estrutura interna e a hierarquia dos traços dos segmentos, foi utilizada por Liddell & Johnson (1989) para descrever a proposta teórica do movimento e das detenções na ASL. Os segmentos em língua de sinais, segundo Liddell & Johnson (1989), são compostos pela postura da mão (posture) e pela atividade da mão (activity).

1) A postura da mão (posture) está relacionada a: (a) como as mãos e suas partes estão configuradas (configuração da mão); (b) onde o sinal é produzido (primeiro e segundo pontos articulatórios) e (c) o movimento e (d) qual a orientação da palma da mão.

Liddell & Johnson (1989) esclarecem que por meio dos traços articulatórios é possível descrever os detalhes da sinalização, porém, as combinações desses precisam especificar também a postura da mão como um feixe articulatório (articulatory bundle), o qual apresenta quatro grupos maiores de traços quanto à postura da mão:

(1.a) O primeiro grupo de traços é representado pela configuração de mão, ou seja, o estado dos dedos e do polegar;

(1.b.1) O segundo grupo de traços representa o ponto de contato, o qual especifica o primeiro ponto articulatório levando em consideração onde a mão foi locada, a parte da mão que aponta ou que toca o ponto articulatório, e a relação espacial entre uma parte da mão e o ponto articulatório;

(1.b.2) O terceiro grupo de traços representa “a apontação” (facing), sendo composto por um grupo de traços que especificam o segundo ponto articulatório e indicam a parte da mão que está virada para o ponto articulatório;

(1.c) Ao longo desse capítulo, selecionamos o terceiro item para o terceiro parâmetro fonológico, o movimento. Este parâmetro será discutido no item 2 a seguir.

(1.d) O quarto grupo de traços do feixe articulatório, a orientação da palma da mão, contém traços especificando o plano para o qual a palma da mão aponta.

2) A atividade da mão (activity) é especificada por traços que durante a produção do segmento são agrupados em segmentos distintos relacionado ao movimento ou não movimento, da seguinte forma: (a) a mão está ou não se movendo e (b) de qual maneira a mão move-se.

O principal papel desta classe de traços é distinguir os movimentos (Movements - M) e as detenções (Holds - H). Movements são definidos como períodos de tempo em que algum aspecto articulatório está em transição e sofrem alguma mudança nos seus traços articulatórios. Já os Holds correspondem a períodos em que todos os aspectos

do feixe articulatório estão em “estado estacionário” (steady state) e não sofrem mudanças (LIDDELL & JOHNSON, 1989).

Na proposta dos autores, as matrizes de traços (agrupamento de todos os traços que diferenciam os segmentos) para os segmentos de Holds e os de Movements são diferentes. O segmento de Hold apresenta uma matriz de traço simples e tradicional, como na Figura 7 à esquerda, enquanto o de Movement exibe um conjunto de especificações segmentares e dois conjuntos de articulatórias, apresentado na Figura 7 à direita.

FIGURA 7- Matriz de Hold e Matriz de Movement, Liddell e Johnson (1989)

Fonte: LIDDELL E JOHNSON (1989) In: VALLI, LUCAS, MULROONEY, VILLANUEVA (2011), p. 301.

A Figura 7, à esquerda, apresenta uma matriz de traços para o segmento das detenções (Holds) com apenas um feixe articulatório. Já na Figura 7, à direita, contém uma matriz de traços para o segmento movimento (Movements) com dois feixes de traços articulatórios: (i) o primeiro especifica o estado inicial da postura do movimento e (ii) o segundo aponta o estado postural final da mão, ou seja, na conclusão do movimento.

As características do segmento movimento são independentes porque os detalhes finos do movimento produzidos correspondem a seus próprios traços, e não de qualquer um dos feixes articulatórios individuais. Essa independência das características articulatórias dos segmentos levou os autores a adotarem a representação autossegmental, por entenderem que este modelo possibilita a fixação de um único aglomerado de traços a uma espécie de grupo de traços específicos (LIDDELL & JOHNSON, 1989).

Segundo os estudiosos, a vantagem da autossegmentação é a possibilidade de realizar uma representação fonológica da estrutura da ASL, visando descrever os detalhes finos dos

traços fonéticos e a variabilidade dos sinais, como por exemplo: prolonged [long] (prolongado); shortened [short] (encurtado) e accelerating [acc] (acelerando); e características não temporais, como, tense [tns] (tenso); reduced path [sm] (trajetória reduzida), enlarged

path [lg] (trajetória alargada), dentre outros.

Liddell & Johnson (1989) demonstram grande interesse pelo movimento e buscam compreendê-lo de forma contínua, pois levam em conta que durante uma sinalização, esse pode mudar de postura, de orientação, de ponto articulatório, etc. Os autores entendem que o movimento apresenta mudanças na trajetória de produção dos sinais e que tais detalhes precisam ser mais bem explicitados, independentemente da informação articulatória.

Além do debate sobre a postura da mão (posture) e a atividade da mão (activity), os pesquisadores apresentam ainda a discussão a respeito dos comportamentos não manuais, as expressões faciais e corporais (quinto parâmetro fonológico) da ASL, as quais também trazem funções linguísticas para as línguas de sinais, como por exemplo, funções sintáticas ou morfológicas, ou podem estar ligadas a segmentos dentro de sinais específicos. Liddell & Johnson (2010, 2011) incorporam a ideia de que esses comportamentos são realizados simultaneamente na produção dos segmentos, e precisam ser mencionados no sistema de transcrição das línguas de sinais.

Por fim, destacamos que Liddell & Johnson, em sua obra, defendem:

 A sequencialidade dos segmentos de movimentos como um continuum e como informações que podem surgir dos movimentos;

 O detalhe fonético quanto à configuração de mão, à locação, à orientação da palma da mão, tanto da mão ativa quanto da passiva;

 A importância das relações entre a mão ativa e o ponto articulatório da realização do sinal;

 A possibilidade de identificar as limitações da estrutura dos morfemas, dos processos fonológicos e de procurar soluções para os problemas morfológicos;

 A necessidade de usar uma terminologia atual para os estudos fonológicos das línguas de sinais, que na proposta de Stokoe (1960) não constava.

A proposta de modelagem dos autores para a descrição fonológica e para a transcrição aproxima os estudos linguísticos da ASL ao que os linguistas das línguas faladas/orais

realizam, tanto nos níveis de organização dos segmentos em traços, quanto no processamento simbólico das estruturas gramaticais dessa língua. Os estudos de Liddell & Johnson têm contribuído para o debate acerca do movimento, foco desta tese, mesmo que o aborde a partir de uma proposta teórica diferente da adotada nesta pesquisa. A próxima seção discute considerações sobre a fonologia em Libras.